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opinião
Aldeia Galega a terra mais republicana de Portugal
Por José Bastos
O grande tribuno António José de Almeida, ao discursar, na Sessão de Câmara de 10 de Agosto de 1910, da Câmara dos Deputados, afirmou que Aldeia Galega era, talvez a terra mais maciçamente republicana de Portugal. O Partido Republicano Português tinha ganho em 1908 em Aldeia Galega as eleições para as legislativas, para a câmara e paróquias.
Sabia-se que nos finais do século XIX e princípios do século XX, existiu em Aldeia Galega, um forte centro republicano, que envolvia uma boa parte da população da vila, que em plena monarquia gritava nas ruas vivas à república.
Porém, até hoje, ainda ninguém tinha feito uma grande investigação a esse importante período da história da nossa comunidade.
O Dr. Mário Balseiro Dias, conhecido historiador regional, com importantes livros publicados sobre a história da nossa terra: VISITAÇÕES E PROVIMENTOS DA ORDEM DE SANT’LAGO, DOIS VOLUMES, VOLUME I 1484 – 1537, VOLUME II 1553 – 1571 e ECONOMIA MARÍTIMA DE ALDEIA GALEGA DO RIBATEJO, fez um mestrado em historia regional e local na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde obteve a alta classificação de Muito Bom com a apresentação de uma tese sobre o Movimento Republicano em Aldeia Galega do Ribatejo (1881 – 1910).
Trata-se de um trabalho notável que vem enriquecer a nossa história e a nossa cultura e contribuir para o fortalecimento das nossas raízes.
O Dr. Mário Balseiro Dias é merecedor de toda a nossa consideração, pois tem dedicado grande parte da sua vida a investigar a história de Aldeia Galega de uma forma voluntária e sem dela tirar qualquer benefício, com todas as despesas de sua conta.
Estou certo que mais tarde ou mais cedo, a comunidade montijense, no seu todo, saberá agradecer a este montijense os milhares de horas que tem dedicado à investigação da história de Aldeia Galega / Montijo.
Da tese do Dr. Mário Balseiro Dias destaquei uma notícia do Jornal O Século que transcrevo para que os montijenses façam uma ideia do que se passou em Aldeia Galega na Implantação da República.
“Em Aldegallega
É esta localidade a primeira a içar a bandeira republicana ALDEGALLEGA, 9. – C. – Reina aqui indescriptivel enthusiasmo pela implantação da Republica Portugueza.
O valente povo d’esta terra, que em todos os seus actos cívicos mostrou sempre a sua ardente crença republicana, sendo até no circulo 17, a que Aldegallega pertence, que, pela primeira vez, o partido republicano conseguiu furar a maioria nas penúltimas eleições para deputados, e que nas eleições de Agosto se collocou ao lado de Lisboa, vencendo a maioria, este heroico povo mostrou no momento supremo, mais uma vez, quanto era firme a sua crença.
Foi aqui, em Aldegallega, a primeira terra em que foi proclamada a Republica, pois que na madrugada de 4 já tremulava a bandeira republicana nos paços do concelho, e no regresso dos valentes homens que d’ aqui tinham ido a Valle de Zebro, mal armados, mas dispostos a tudo, foi hasteada a bandeira na administração do concelho e em todos os edifício públicos e particulares, associações, etc.
Immediatamente também se procedeu á nomeação de administrador, a qual recaiu, por acclamação, no vice-presidente da commissão municipal, o cidadão Antonio Luiz Ramos.
Todo o dia 4 foi passado em terrível anciedade sobre os acontecimentos de Lisboa, mas havendo sempre o mesmo enthusiasmo e a melhor boa ordem, tendo n’esse dia ido d’aqui mais de 300 pessoas a Alcochete, onde hastearam a bandeira republicana nos edifícios públicos.
Na noite de 4, o povo assaltou a repartição de fazenda, queimando grande parte dos papeis, mas o administrador, auxiliado pelo membros da commissão municipal, restabeleceu em breve a ordem.
Finalmente, no dia 5, ao ter-se aqui conhecimento que a Republica era um facto em Portugal, o enthusiasmo foi delirante. A Sociedade Philarmonica 1.º Dezembro e a tuna do Grupo Musical, seguidos de uma enorme massa de povo, percorreram as ruas á tarde e á noite, tocando a Portugueza, ao passo que os vivas e as salvas de palmas resoavam estridulas e ininterruptas.
No dia 6, foram innumeraveis as pessoas que d’aqui foram para Lisboa nos vapores que tinham restabelecido as suas carreiras.
N’essa tarde foram mettidos na cadeia d’esta villa seis frades fugidos do convento de Brancanes, de Setúbal, os quaes foram enviados hontem de manhã sob escolta para Lisboa.
Ontem á tarde entraram mais dois frades, esperando-se mais, pois a perseguição que se lhes está fazendo é constante, não tendo, porém, o povo exercido violências sobre elles.
Hontem, fez-se aqui uma manifestação que tocou as raias do delírio a dois marinheiros que vieram de Lisboa. A philarmonica, seguida de muito povo, foi buscalos a suas casas, passeando-os em triumpho pelas ruas e indo finalmente ao Centro Celestino d’ Almeida, onde lhes foi offerecido um copo d’ agua, usando vários oradores da palavra.
Quasi todas as janellas estavam ornamentadas e vistosamente illuminadas.
Depois do copo d’agua os marinheiros foram levados a suas casas, retirando tudo na melhor ordem.”
José Bastos
7.3.2008 - 17:13
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