opinião
Nunca Mais!
Por Pedro Vasconcelos Almeida
. Hoje, mais do que nunca, vemos que os acontecimentos que levaram ao 28 de Maio de 1926 estão a começar a repetir-se, uns de forma dissimulada, outros de forma bastante visível. Sacrificam-se liberdades e garantias individuais, bem como direitos fundamentais em nome dos mercados ou de uma austeridade cega que tem espalhado o desespero social por toda a Europa.
A 28 de Maio de 1926, um grupo de militares ultranacionalistas, vindos de Braga e comandados pelo Marechal Gomes da Costa, esse caricato "herói" da 1ª Guerra Mundial, acabou com a frágil e caótica 1ªRepública, pondo fim a uma experiência parlamentarista de quase 16 anos em que se sucederam presidentes, governos, golpes, contragolpes, golpadas, intentonas, etc. Há 86 anos, foi isto que aconteceu em Portugal à semelhança do que acontecia um pouco por toda a Europa com a crise do Demoliberalismo. Foi este movimento que daria início a um período da nossa história conhecido como Ditadura Militar ou Ditadura Nacional que abriria caminho posteriormente, em 1933, ao Estado Novo e à autocracia salazarista.
Este movimento intitulado de “Revolução Nacional” durante anos pelas elites salazarentas e que, embora não fosse feriado, era comemorado pelo Estado Novo como hoje comemoramos o 25 de Abril, era uma autêntica miscelânea social e política tendo o apoio de grandes grupos económicos, dos sectores mais conservadores e corporativistas da Sociedade Portuguesa, da Igreja, dos movimentos monárquicos e até, por muito irónico que seja, dos sindicatos e movimentos anarco-sindicalistas. Já ninguém acreditava na 1ª República, desejava-se um governo "forte" que conseguisse unir os Portugueses e afirmar o interesse nacional, argumentos clássicos, senão típicos da extrema direita.
Como se chegou a este ponto? Como foi possível a liberdade desaparecer com um grupo de militares bacocos que veio pôr ordem no galinheiro e que foram veementemente aplaudidos pelas massas? A verdade é que este movimento, embora tivesse dissimulada uma matriz ideológica nacionalista na sua génese, reunia as mais variadas e díspares tendências político-ideológicas, tendo o apoio tácito de uma base social considerável da Sociedade Portuguesa perante o descalabro da 1ª República, havendo a convicção de que os militares iriam fazer a república regressar à sua essência original, aquela que se quis implementar no 5 de Outubro de 1910 e que não foi cumprida. Depressa, os que apoiaram de forma entusiástica o 28 de Maio se deram conta da ilusão em que tinham caído, da forma como foram ludibriados a abdicar tão facilmente da sua liberdade. Logo no rescaldo do golpe, iniciou-se o período do reviralho em que muitos militares, populares e sindicalistas pegaram em armas para reaver, em vão, o que lhes tinha sido tirado. O povo, fosse por ignorância (havendo mais de 50% de analfabetos nessa altura em Portugal) ou por simples ingenuidade, deixou-se levar. Para quem não tem pão e letras, a política torna-se supérflua e indiferente, pois não podemos esquecer que uma grande parte do povo nessa altura era ainda rural e vivia abaixo do limiar da pobreza. Como é que a 1ª República se desgraçou desta forma? Como é que a tão famigerada República se deixou trucidar a ela e por arrasto à democracia que, todavia, não foi assim tão respeitada, como havia sido prometido, no período de 1910-1926? Terá sido de uma classe política incompetente, incapaz de alcançar consensos, e de uma elite económica corrupta ou de um sistema político mal estruturado que atribuía um poder exacerbado ao parlamento? Terá sido a profunda crise financeira do nosso país agudizada pelo nosso problema de endividamento crónico e de dependência externa que a 1ª República se mostrou incapaz de resolver? Terá sido a 1ª Guerra Mundial e a devastação que esta causou na Europa, destruindo o seu mercado interno e atirando a Economia Europeia para uma depressão económica sem precedentes? Terá sido um sinal dos tempos, quando na Alemanha o povo elegia para o lugar de chanceler um verdadeiro psicopata que mandou milhões de pessoas para a morte? Terá sido o anticomunismo, o ilustre papão comunista que se vislumbrava no leste, e o discurso de massas populista e demagógico que os movimentos nacionalistas e nazi-fascistas esgrimiam para hipnotizar multidões? Enfim, foi um pouco de tudo mas é certo que este é um período negro da história da Europa com muitas idiossincrasias, em que se assistia de forma impávida e serena à ascensão destes regimes ditatoriais, muitos deles militaristas e expansionistas que não foram mais do que um resultado natural do tratado de Versalhes, esse pedaço de papel revanchista, vingativo e castrador para os países derrotados na 1ª Guerra Mundial que só serviu para dar continuidade a ódios viscerais entre nações e que abriu caminho ao nazi-fascismo e consequentemente à 2ª Guerra Mundial.
Não escrevi este artigo para marcar a data do 28 de Maio, que fique claro. Este artigo é uma apologia à defesa da nossa liberdade. Porquê escrever sobre liberdade numa data que não lhe é cara? Precisamente por esse motivo! Na minha opinião, tem muito mais simbolismo escrever sobre a liberdade num dia em que há 86 anos nós a perdemos, para nos darmos conta de como a liberdade é um bem precioso e para nos relembrarmos da facilidade com que ela nos foi tirada durante 48 anos! Costuma-se dizer que só damos verdadeiro valor às coisas quando as perdemos, e não poderia estar mais de acordo.
Neste momento já temos quase quarenta anos de democracia, uma democracia madura, mas em crise, e pior do que isso, com as suas instituições e agentes descredibilizados. As pessoas fartaram-se dos maus políticos e da falta de transparência da política. Os partidos políticos têm perdido muita da candura que porventura alguma vez tiveram e assumem-se como estruturas cuja hierarquia e organização se tornam sufocantes para os jovens interessados em participar na vida política. Muitos partidos têm feito um esforço para se modernizar, mas não têm conseguido dialogar com os movimentos e plataformas sociais, muitos deles que começam a surgir nas redes sociais. Os Media têm tido um papel preponderante na descredibilização da classe política, pois não mostram aquilo que de bom e positivo acontece na vida política, limitando-se a mostrar os escândalos e as broncas, numa procura caquética e absurda por mais audiências.
É uma generalização avulsa e abusiva dizer que não há bons políticos ou que a política é um jogo cínico de poder. No entanto, estou em crer que é absolutamente vital, direi mesmo urgente, que a política caia na real, que os partidos se abram mais à sociedade civil, que a política volte a ter como denominador comum o interesse público e o serviço à república. A Democracia não pode funcionar a meu ver sem partidos políticos, não podemos ser abolicionistas do sistema partidário, temos sim de abrir caminho às pessoas abnegadas a causas, que estejam na política de forma desinteressada e genuína para defender as populações que representam. Dentro dos partidos, a discussão de ideias e propostas para o País deve tomar primazia em relação à discussão de lugares e de protagonismo político. Os políticos têm de fazer corresponder os seus actos às suas palavras, de forma a devolver a transparência e a virtude à política.
É esta mensagem que pretendo transmitir, a da dignificação da política como forma de defendermos a nossa democracia e impedirmos que aquilo que aconteceu há 86 anos se repita. Hoje, mais do que nunca, vemos que os acontecimentos que levaram ao 28 de Maio de 1926 estão a começar a repetir-se, uns de forma dissimulada, outros de forma bastante visível. Sacrificam-se liberdades e garantias individuais, bem como direitos fundamentais em nome dos mercados ou de uma austeridade cega que tem espalhado o desespero social por toda a Europa. A verdade é que a ilusão em que o povo se deixou levar em 1926 pode ser vir a ser uma realidade no Século XXI. O povo não pode ser novamente ludibriado a abdicar da sua liberdade! Por isso, mais do que nunca, temos que estar atentos! A liberdade conquista-se todos os dias, e no dia em que as pessoas deixarem de acreditar na Democracia, será o dia em que a voltaremos a perder, e no dia em que perdermos a nossa liberdade, será o dia em perderemos a nossa dignidade enquanto cidadãos. Por isso, neste dia, digamos “Nunca Mais!”.
28 de Maio de 2012
Pedro Vasconcelos Almeida
29.5.2012 - 0:27
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comentários
| nome: |
Manuela Fonseca |
| comentario: |
Tenho orgulho em conhecer este rapaz, sábio, desde os 3 dias de idade!
Continu, Pedro, e bem hajas! |
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| nome: |
Maria do Rosário Vaz |
| comentario: |
Com jovens como o Pedro, não tenhamos medo do futuro!
Está na hora de eles agarrarem o seu tempo.
Tenho essa esperança!
Força a todos os Pedros!
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