opinião
Revolução Cultural ou Luta de Classes para a transformação do mundo?
Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro
Motivos de esperança ou pretexto para a resignação? Para isso já temos o futebol e a propaganda capciosa nas televisões, que batem em número de seguidores a igreja católica em perda de influência.
O homem no centro de todas as políticas conjunturais ou de fundo, em curso de governação de direita, eis uma preocupação que partilhamos com altos dignitários da igreja católica que recentemente se pronunciaram sobre a situação alarmante existente em Portugal e por essa Europa fora.
A angústia provocada pela existência de um milhão de portugueses desempregados, vivendo de subsídios insuficientes (centenas de milhares sem qualquer subsídio!), de mais de dois milhões subsistindo abaixo do limiar da pobreza, de cerca de um milhão de jovens sem trabalho, com trabalho precário ou a falsos recibos verdes, de dezenas de milhares de pequenos empresários arruinados e desesperados, é uma realidade que afecta por igual aqueles que acreditam na redenção personalista do homem, como aqueles que defendem a dignificação colectiva da humanidade.
A questão central que se nos coloca é a dos caminhos para lá chegar, para atingir o fim último da dignificação humana!
Os “caminhos de Deus”, propugnando que : …” Todos devemos aceitar sacrifícios. Esperemos que quem nos governa nos ajude a ultrapassar da melhor maneira os tempos de austeridade” – como o fez recentemente o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa ?
Os “caminhos da contemplação”, apanágio milenar de uma igreja conservadora que em Portugal esteve conluiada durante 48 anos com o regime fascista? É o que nos ocorre ao lermos as declarações do bispo auxiliar do Porto, feitas há poucos dias : … “Dar confiança aos portugueses e contribuir para atenuar este clima (…) Em cada época da história a Igreja deu motivos de esperança à humanidade, e é com eles que hoje queremos iluminar o nosso tempo”.
Motivos de esperança ou pretexto para a resignação? Para isso já temos o futebol e a propaganda capciosa nas televisões, que batem em número de seguidores a igreja católica em perda de influência.
Também é da tradição secular aparecerem vozes discordantes, dizendo-se simultaneamente uma coisa e o seu contrário. Tem razão o bispo das Forçar Armadas, D. Torgal Ferreira, quando deduz que a política liberal tem uma agenda ideológica que cheira a salazarismo! Nesses tempos ominosos, o chamado sector católico progressista teve uma acção destacada na luta contra a ditadura e na luta sindical ( participou nomeadamente na formação da CGTP-Intersindical Nacional).
Acrescem as declarações do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, que afirmou em homília, ser necessário : …” manter a dignidade da pessoa humana no centro da resposta à crise, e a solução [virá] com uma revolução cultural”, (sic).
Ocorreu-nos os anos 60 de intensa luta ideológica com os partidários da “revolução cultural” maoísta, que na China pretendia construir o Socialismo com a purificação das mentes, a eliminação dos “vícios burgueses” e a consequente modificação da “consciência revolucionária” das massas.
Já todos sabemos no que deu essa “revolução cultural” e os ínvios atalhos percorridos pelos seus mais acérrimos defensores entre nós ( Durão Barroso, Pacheco Pereira, José Lamego, entre outros… ). Como já todos percebemos (sentimos!), os caminhos do capitalismo neoliberal, impostos na Europa pela minoria que nunca colocou a pessoa humana no centro das preocupações, mas tão só os seus interesses e privilégios, consubstanciados no lucro e disfarçados na panaceia dos mercados ( banca, sociedades financeiras, multinacionais, grupos económicos nacionais e internacionais – a que a hierarquia da Igreja Católica está indubitavelmente ligada!).
Trata-se da revolução cultural para obrigar esta minoria privilegiada e exploradora dos outros seres, a prescindir das suas regalias e mordomias obscenas? ( Como dizia Guerra Junqueiro, por cada rico tem de haver dez pobres!).
Ou “revolução cultural”, aproveitando a situação desgraçada de milhões de portugueses ( e outros europeus!), pecadores que viveram “acima das posses”, para educar o povo de Deus nos hábitos não consumistas e mais caritativos, aproveitando a “terra queimada” para fazer um “homem novo”?!...
Os marxistas – leninistas intentaram fazê-lo no século XX, alterando as condições materiais da existência humana e reequilibrando a distribuição da riqueza criada no processo de produção, praticando os princípios da solidariedade colectiva e da elevação moral e cultural da sociedade.
Falharam , como sabemos. Honra eterna aos milhões de idealistas que se bateram em toda a parte pelo mundo novo a sério!
Karl Marx, que alguns já deram várias vezes como ideologicamente morto mas que sempre renasce das cinzas com renovada actualidade, postulou que a luta de classes é o verdadeiro motor da História. O que se passa hoje à escala de Portugal, da Europa e do Mundo, é uma gigantesca luta pela dignificação da pessoa humana, contra a exploração do semelhante (no dizer do falecido padre Manuel Pimentel), contra a opressão e o imperialismo dos interesses económicos “estratégicos”, contra a hegemonia das grandes potências.
Em Portugal, católicos e não católicos, gente do povo trabalhador, intelectuais e empresários de todas as confissões religiosas, ateus ou agnósticos, sabem que só a unidade na luta e na acção contra a política ruinosa de direita, poderá reconduzir o País nos caminhos da revolução de Abril. Os únicos que permitirão a salvação da Pátria, da independência nacional e a dignificação dos portugueses!
JUN/2012
Armando Sousa Teixeira
1.7.2012 - 0:25
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comentários
| nome: |
Pedro Estadao |
| comentario: |
Caro Armando, li atentamente este seu texto, (costumo ler o que escreve), e, apesar de raramente concordar consigo, vejo na sua escrita limpidez de raciocinio e transparência nos objectivos, o que é, de certa forma refrescante numa época em que anda quase tudo a dizer o que convém e näo o que pensa. Poderia subscrever quase totalmente esta sua opiniäo, se näo fosse o ultimo paragrafo, que transforma uma brilhante exposiçäo num exercicio panfletario, principalmente quando chegamos à ultima frase. Isto tudo para lhe dizer que näo creio que essa consciência colectiva da luta de classes esteja instalada e disseminada como você supöe e que me arrepio todo quando ouço falar em caminhos unicos para a salvaçäo da patria. Nesse aspecto, tanto a historia da Igreja Catolica, como do Maoismo e do Marxismo na versäo que você defende, säo muito similares nessa opçäo por caminhos unicos, unindo-se no facto de dependerem da fé e näo questionarem nunca se o caminho unico que determinaram é o correcto. Os caminhos unicos säo perigosos porque pretendem tornar iguais coisas que näo säo iguais e dependem da bondade de todos os homens, o que constitui um teorema com demasiadas incognitas para ter uma soluçäo facil. Volto a dizer: poderia ter subscrito o seu artigo na totalidade se o ultimo paragrafo näo estivesses la. Vou continuar a ler atentamente o que o Armando escreve. Cumprimentos, Pedro Estadao |
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| nome: |
Manuel Fernandes |
| comentario: |
Obrigado Armando por mais esta reflexão e sua partilha pelos leitores do Rostos. Doa a quem doer, este é o caminho. A luta revolucionária pela transformação da sociedade, pelo fim dos previlégios de uns contra a miséria dos outros. A luta de classes é o motor da história, por muito que doa a certas pessoas. A reflexão, a crítica e a autocrítica são instrumentos fundamentais para evitar a estagnação e a resignação. Marx, está cada vez mais presente no nosso dia-a-dia. Como o Pedro também duvido dos caminhos únicos. Mas o melhor caminho deve ser sempre o escolhido para o percurso a seguir. |
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| nome: |
Duarte Castanheira |
| comentario: |
A visão marxista não depende da fé, caro sr Pedro Estadão. Ela foi construida com base na observação da realidade e na análise sociológica das experiências das sociedades. Fé, tem de haver sempre, quanto mais não seja no Homem. Que é falível, bem sabemos. Mas se num pomar cheio de fruta, uma peça podre pode apodrecer as outras, no caso do Homem, a capacidade de reflexão e a racionalidade deverão fazer prevalecer a honestidade moral não a corrupção moral. Quanto ao caminho a traçar, ele será certamente ditado pelo objectivo a atingir. O que observamos na sociedade capitalista actual é um pseudo-progresso, desigual, injusto, não solidário e que mantém e agrava as diferenças entre as classes. Para combater essa tendência, não pode haver meios termos, senão será a fingir. Isso é o que muitos andam a fazer: a fingir que combatem este sistema, mas enquanto o fazem ele vai evoluindo e crescendo, pior. E depois há as maçãs podres que vão contaminando outras, porquê? Porque lhes deixam! |
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