opinião
FLEXIBILIDADE SÉNIOR
Por Maria Jose Santos*
Barreiro
Assumindo ser verdade que o avançar da idade nos torna cada vez mais fiel às nossas convicções, devemos assumir também que esta mesma experiência cumulativa nos dota de melhores condições para tomar a decisão correta na hora certa.
Tenho destacado aquilo que observei nestes últimos tempos, estudando quem envelhece: com o avançar da idade, cada qual vai ficando mais parecido consigo mesmo e com mais peculiaridades em relação aos demais.
Esta afirmação nada mais é do que outra forma de dizer aquilo que muitos já ouviram de um idoso sábio: “o tempo não cura, apura.”
Ambas reflectem uma tendência natural de que as convicções individuais se afirmam no transcorrer da vida, o que reduz a probabilidade de grandes mudanças de atitude por aqueles que já tiveram tempo suficiente para definir as suas preferências. Muitos chamam erroneamente esta atitude de teimosia.
Discordo: teimosia é a insistência no erro ou naquilo que tem nenhuma possibilidade de dar certo. Muitos idosos, ao contrário, insistem em continuar naquilo ou com aquilo que lhes satisfaz há anos. Não concordam, com suas razões, em trocar o conhecido favorável pelo inusitado que lhes poderá criar mais problemas do que bem-estar.
Sempre tentei entender, na prática quotidiana, as razões e os motivos da aceitação ou da recusa de cada mudança proposta: das trocas de medicamentos à de morada, passando pela dos eletrodomésticos ou da cor dos cabelos, sempre há motivos bastante razoáveis para que sejam aceitas ou refutadas.
Uma importantíssima condição, porém, não pode ser menosprezada: quando a mudança se faz necessária, há que
insistir para que seja implementada, apesar das preferências e opções individuais.
Quem está sem condições adequadas para continuar a conduzir o seu automóvel deve abdicar desta actividade, mesmo que isto seja sua principal fonte de prazer, em prole da segurança individual e coletiva. Da mesma forma, quem tem necessidade de auxílio para as atividades de vida diária, básicas ou instrumentais, deve aceitar a ajuda de quem possa fazê-lo, seja um familiar ou um funcionário contratado para este fim.
A manutenção da individualidade decorre muito mais da capacidade individual de adaptação aos limites do que da plena autonomia e independência. Inúmeros são aqueles que, pelas dificuldades em se adaptarem às suas novas condições funcionais, vivem em conflito com o mundo que os cerca, em constante embate com aqueles que, na maior parte das vezes, querem apenas contribuir para a sua qualidade de vida.
Nestes casos, cabe a todos deixar bem claro quais são os motivos da sua opinião e, principalmente, ampliar a flexibilidade das possibilidades de consenso. Esta é a melhor maneira pela qual conseguiremos criar um ambiente favorável ao envelhecimento, respeitando as particularidades de cada um sem comprometer o prazer e a segurança nesta fase da vida.
Assumindo ser verdade que o avançar da idade nos torna cada vez mais fiel às nossas convicções, devemos assumir também que esta mesma experiência cumulativa nos dota de melhores condições para tomar a decisão correta na hora certa.
Maria Jose Santos*
*Licenciada em Psicologia, Graduada em Medicina Legal e Psicologia Criminal e Comportamentos Desviantes
Nota - Crónica editada no âmbito do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e Solidariedade entre Gerações
5.7.2012 - 0:13
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