opinião
O milagre do Velho Lobo do Mar
Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Ora, a verdade é que Vasco Moscoso de Aragão nunca navegara. Simplesmente, na tertúlia que frequentava, todos tinham um título académico: o doutor Fulano, o engenheiro Sicrano, o comandante Beltrano. Só ele, Vasco Moscoso de Aragão, não tinha título. Não que fosse marginalizado; mas doía-lhe que tratassem os seus congéneres por Dr. Fulano, Eng.º Sicrano, Comandante Sicrano, e a ele por “Senhor” Aragão (mais brasileiramente por “Seu” Aragão).
Jorge Amado foi o escritor de língua portuguesa que teve tudo – o sucesso, o reconhecimento internacional, a adaptação das suas obras ao cinema e televisão, e mesmo uma ternura por ele (é o termo!) de todos os cultores da língua lusitana. Apenas lhe faltou o Prémio Nobel de Literatura, vá o diabo saber porquê.
Há obras suas que são quase epopeias; outras que podem ser consideradas panfletárias; outras podem ser consideradas glosas sobre temas já tratados; mas em todas há a marca do génio.
E o génio é isso: não é necessário um grosso calhamaço para conseguir uma obra-prima. Basta aquela marca especial, aquele grão de loucura, para que o resultado seja um marco na literatura.
Ora, Jorge Amado escreveu muito. E uma das mais deliciosas obras que escreveu foi “ O Velho Lobo do Mar”, ou “O capitão de Longo Curso”, publicado em 1961. Obra menor, dirão alguns; obra importante, digo eu, sobretudo aqui e agora.
A “estória” refere-se a Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, reformado de muitas (alegadas) aventuras trágico-marítimas, que ele dizia ter vivido nos sete mares, das quais guardava na sua casa muitas recordações, compostas por aquilo que os cínicos chamariam fancaria diversa, ou outros, mais eruditos, chamariam bric-à-brac.
Ora, a verdade é que Vasco Moscoso de Aragão nunca navegara. Simplesmente, na tertúlia que frequentava, todos tinham um título académico: o doutor Fulano, o engenheiro Sicrano, o comandante Beltrano. Só ele, Vasco Moscoso de Aragão, não tinha título. Não que fosse marginalizado; mas doía-lhe que tratassem os seus congéneres por Dr. Fulano, Eng.º Sicrano, Comandante Sicrano, e a ele por “Senhor” Aragão (mais brasileiramente por “Seu” Aragão).
Então, um seu amigo oficial de marinha (verdadeiro) propôs-lhe uma boa solução: fazer exame para capitão de longo curso (com o compromisso de jamais navegar a sério), e a partir daí poder ser legitimamente chamado de Comandante Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso.
Dito e feito, e até ao exagero: apesar das promessas de benevolência nos exames, Vasco Moscoso de Aragão preparou-se intensivamente, e passou com brilho todas as provas, tendo-lhe sido reconhecidas as habilitações, e concedido o tão almejado título.
O problema é que, na terra natal, toda a gente o conhecia, e não o levava a sério; daí emigrou para outras paragens, onde o seu título não seria contestado. Aí se estabeleceu, com a sua larga coleção de objetos variados, que comprovavam a sua vivência em mares dantes navegados, mas inegavelmente exóticos.
Até que um dia, um navio entrado naquele porto esquecido teve um problema: a doença do comandante. Na aflição, alguém se lembrou de Vasco Moscoso de Aragão, ilustre lobo-do-mar, glória daquelas paragens. E lá foi ele requisitado par levar a bom porto a nau desamparada.
Claro que o nosso herói declarou desde início que não pretendia interferir na manobra do navio: estava ali por uma imposição legal, a tripulação estava mais que capacitada para navegar, e ele estaria apenas a fazer figura de corpo presente.
E assim foi. Mas, à chegada ao porto de destino, o malvado imediato teve uma ideia diabólica: foi pedindo orientações sobre atracagem, com indicações sobre as âncoras, orientações sobre os cabos, especificações sobre as amarras. E o Capitão de Longo Curso, para não se comprometer, foi dizendo a tudo que sim. Âncoras duplicadas, amarras triplicadas, cabos sobrepostos: foi gargalhada geral no porto, ao ver aquele disparate. Vasco Moscoso de Aragão retirou-se mortificado, com a reputação arruinada.
Mas o destino tem coisas estranhas: nessa noite, contrariando todas as previsões, desabou naquela terra um temporal medonho. Garraram navios, naufragaram e afundaram muitos deles. Menos o navio solidamente fundeado e amarrado pelo nosso Comandante. No dia seguinte, as forças vivas locais, acompanhadas por muito povo, foram homenagear o Velho Lobo do Mar – o único que soubera prever aquela catástrofe.
Que tem isto a ver connosco, aqui e agora?
Várias lições:
• Fazer um curso, só para ter um título, não é fenómeno novo;
• Quando se tira um curso nesses moldes, só por milagre se acerta;
• Uma calamidade pode ser uma boa oportunidade; não foi o terramoto de 1755 que catapultou o Marquês de Pombal?
Extrapolando para o caso Relvas, restaria esperar por uma catástrofe…
Se tal não acontecer, talvez lhe reste mudar de poiso, levando consigo os diplomas, como fez Vasco Moscoso de Aragão; aliás, a emigração tem vindo a ser muito recomendada.
Nuno Santa Clara
18.7.2012 - 12:42
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comentários
| nome: |
kira |
| comentario: |
Que maravilha de texto. Só espero que o Relvas emigre para bem longe e acione o seu estatuto de doutor em relvas. Pode ser jardineiro ou apanhador de erva para os Coelhos. Um abraço e obrigado. |
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| nome: |
Pedro Estadao |
| comentario: |
Caro Nuno, desculpa se näo me dirijo a ti pelo titulo, mas a amizade dispensa-nos desses formalismos. Comento so para te dizer que, de todos os escritos teus que li até hoje, este foi o que mais me agradou pela simplicidade e pela força da ideia, quer dizer: o melhor. Aproveito para mandar cumprimentos para a familia e um grande abraço, Pedro Estadao (emigrante acidental) |
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