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cultura
João Tordo - Vencedor do Prémio José Saramago
Escolheu Santiago do Cacém como um dos cenários para a obra que lhe deu o prémio
O escritor João Tordo que escolheu Santiago do Cacém como um dos cenários para a obra que lhe deu este prémio, o romance “As Três Vidas”, editado pela QuidNovi.
Procuramos saber mais um pouco sobre a obra e questionamos o jovem escritor.
Entrevista com João Tordo
1- Porque a escolha da cidade de Santiago do Cacém como local para parte do cenário do romance?
Na realidade a “cidade” em si só aparece no princípio, depois a narrativa decorre numa quinta nos arredores de Santiago. Escolhi Santiago porque, quando andava a fazer investigação para o livro, passei alguns dias a viajar de carro pelas principais cidades do Alentejo e, quando cheguei a Santiago – era um dia de enorme calor em Agosto e a cidade estava deserta – senti que era precisamente ali que o protagonista da história deveria começar. Não sei se foi essa sensação de que, naquela tarde, visitava uma cidade que se escondia do calor, ou as voltas que, depois, dei pelas ruas de Santiago; mas também os campos em redor me seduziram, toda a atmosfera medieval do Castelo, as ruas íngremes que a ele conduzem. Depois de escrever o romance e de ele ser publicado tornei a visitar Santiago do Cacém e a sensação foi a mesma: continuo a ver o protagonista chegar à estação numa noite fria de Novembro e a albergar-se numa pequena pensão.
2- Disse que quando escolheu Santiago veio visitar alguns locais. Quais os que visitou e com que impressão ficou?
Bom, eu ia à procura de uma casa em particular, mas não sabia qual era essa casa. Queria que fosse a casa onde pudesse viver um homem já velho que escondesse alguns segredos do mundo. E encontrei-a em Santiago: é um palacete muito próximo do Castelo, junto da estação de rádio Miróbriga, que se encontra coberto de heras. Tenho algumas fotografias do lugar. Foi essa casa que, depois, “transplantei” na imaginação para uma herdade nos arredores de Santiago do Cacém, e que é a casa onde decorre metade da história do livro. Também visitei a biblioteca e o museu municipal mas acabei por não os incorporar no livro. Há uma Praça que aparece descrita, a Praça do Conde Bracial, por onde o protagonista passa a certa altura – o lugar também me ficou na memória por ter a cruz de Cristo apontada aos céus. A minha impressão de Santiago do Cacém foi, uma vez mais, a de uma cidade quase “fantasma” naquelas tardes de Agosto, onde as pessoas se refugiam do calor dentro das casas, o que para mim é um ambiente muito sedutor.
3- Disse no dia em que recebeu o Prémio José Saramago, que o galardão lhe traz uma responsabilidade acrescida, pelo facto de passar a estar associado a "um dos maiores nomes das letras da actualidade, a nível mundial". Sente-se agora “pressionado”?
Não. Sentir-me-ia pressionado se o meu primeiro romance tivesse sido um sucesso enorme, e o segundo, e por aí adiante. Mas só este terceiro, um ano depois de ser publicado, ganha algum mediatismo. Assim fui aprendendo a dosear as expectativas e a perceber que a pressão ou o sucesso são coisas que interessa aos políticos e aos concorrentes do Ídolos - para um escritor, serve o reconhecimento para ficarmos mais próximos dos leitores e para podermos ter condições financeiras de continuar a escrever, mas não serve para passarmos a vida a receber palmadinhas nas costas ou a ser bajulados a torto e a direito. Nem para subir as expectativas a níveis irrealistas. Os escritores vivem sempre na medida exacta do seu fracasso, que, romance após romance, se torna mais notório. Escrever é fracassar.
3- Como descreve o livro que lhe deu o prémio, o romance "As Três Vidas", editado pela QuidNovi?
Hum, é complicado. Acho que é um romance de mistério que vai beber um pouco aos livros de aventuras (da Enid Blyton ao Arthur Conan Doyle ao Edgar Allan Poe) e que, depois, tem um lado metafísico mais vincado, sobretudo na relação intelectual de um rapaz muito novo com um homem mais velho que lhe vai mostrar o lado mais obscuro das coisas. É uma viagem de autodescoberta do narrador através da vida de um outro, de alguém que está no final da sua existência enquanto ele está apenas no princípio. E também é uma história de amor, da paixão por uma rapariga chamada Camila que sonha ser funâmbula (andar sobre cordas bambas) na herdade alentejana do avô, o tal homem mais velho. O livro corre 30 anos da história do narrador e um século da história das diferentes guerras que assolaram o mundo. É uma teia complexa, um puzzle por decifrar.
Biografia:
João Tordo nasceu em Lisboa, em 1975, num ambiente artístico. É filho do cantor Fernando Tordo e de Isabel Branco, ligada ao cinema e mais tarde à moda.
Em 2004, publicou o seu primeiro romance, "Os Homens sem Luz", a que se seguiu, em 2007, "Hotel Memória".
Instituído pela Fundação Círculo de Leitores com o apoio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas - Ministério da Cultura, o galardão celebra a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998 ao escritor José Saramago.
Com periodicidade bienal, o prémio tem um valor pecuniário de 25 mil euros e visa "promover a divulgação da cultura e do património literário em língua portuguesa, através do estímulo à criação e dedicação à escrita de jovens autores no domínio da ficção, romance ou novela em língua portuguesa por escritores com idade até 35 anos".
Texto CMSC
15.3.2010 - 20:33
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