colunistas
Quem os meus filhos beija…
Por Nuno Banza
Barreiro
E assim, hoje decidi escrever estas linhas para tornar público um sincero e muito justo agradecimento às auxiliares, enfermeiras e pessoal médico do serviço de neonatologia do Hospital do Barreiro.
Por tudo o que, à luz dos olhos daqueles que escolhem o que é digno de ser conhecido por todos, este episódio seria certamente apenas um breve intervalo na vida de mais uma família comum, decidi partilhar este conjunto de coisas simples.
Foi sempre mais fácil conseguir quem nos ajude a estar contra do que a favor. É da natureza humana. As conversas sobre os pormenores sórdidos da vida de alguém, são normalmente muito mais populares do que os detalhes de condutas corretas e respeitadoras, ou simplesmente normais. Quando alguém falha, isso é um excelente tema de conversa. Já quando alguém faz algo bem feito, é preciso que esse feito seja mesmo algo de excecional para que tenha lugar de destaque e nos ocupe algum do tempo de conversa com elogios.
No dia-a-dia das famílias, no trabalho, na vida social e nas diferentes interações que mantemos uns com os outros, somos normalmente estimulados pelas coisas más que acontecem – quase sempre por culpa dos outros – a reclamar, dizer mal, criticar, ao mesmo tempo que somos levados a encontrar de imediato duas ou três razões para o erro, a falta, ou mesmo até apontar a conduta correta que deveriam ter seguido. Mas raramente nos ocupamos de acontecimentos quem têm o final desejado, o desfecho correto ou mesmo até aquele que é o mais normal e aceitável. Nesses casos, tendemos a menorizar a sua importância e quando muito, lá soltamos um “Obrigado!” às vezes seguido do epíteto “”Só podia ser assim!” ou, não raras vezes, do “Não fizeram mais do que a sua obrigação!”.
Ao longo da vida, aprendi que muito mais importante do que a crítica motivada pelo erro – também importante se e quando adequada – é o reconhecimento do esforço e o agradecimento sincero e humilde pelo cumprimento de uma tarefa ou um dever. Estou convencido de que a parte mais importante de qualquer ação é a motivação! E há poucas coisas mais motivadoras do que vermos o nosso esforço e empenho serem reconhecidos!
Em resumo, motivamo-nos facilmente para dizer mal, mas raramente perdemos tempo a dizer bem ou com elogios mesmo que justos! E isso está errado!
E assim, hoje decidi escrever estas linhas para tornar público um sincero e muito justo agradecimento às auxiliares, enfermeiras e pessoal médico do serviço de neonatologia do Hospital do Barreiro.
Não fizeram nenhum milagre, é verdade! Não consigo descrever nenhum facto digno de chamar a atenção de nenhum jornal da noite em nenhum canal de televisão, que lhes pudesse trazer os célebres 15 minutos de fama – não, isso não aconteceu!
Porque o amor e carinho com que acolheram o meu filho de 17 dias, vítima de uma doença súbita e em sérias dificuldades, não o achariam, mesmo os editores mais atentos, merecedor de destaque!
Porque a dedicação, a atenção e o cuidado com que acolheram pais fragilizados e em desespero, fazendo-os sentir quase como se fossem acolhidos por membros da família mais próxima, não desperta o interesse do cidadão consumidor de notícias frescas!
Porque a disponibilidade permanente, o profissionalismo, o cuidado extremo e o amor que colocam em todas as maldades necessárias, inerentes à condição das crianças doentes, e que não raras vezes lhes arranca lágrimas que engrossam os rios soltos pelos pais em aflição, não chegam a ter a importância de qualquer assalto ou novo recurso judicial apresentado por qualquer arguido cuja vida de luxo enche as páginas das revistas de cordel!
Porque a criatividade de transformar um pedaço de cartolina numa borboleta, que pousa num berço e trás consigo o nome escolhido para cada criança, diferente de todos os outros e seu por direito – ainda que pequenos, um dia serão grandes – não se comparam aos milhões que jorram de coleções que enchem museus e justificam revistas dedicadas!
Porque a simplicidade do calor do colo e do mimo, que transborda dos seus braços e enche a pequena sala onde se fazem crescer gigantes, com persistência, alegria e amor, sem nada pedir em troca, não se descreve de forma a que possa ter o necessário sensacionalismo, indispensável a um título digno de maiúsculas a negro!
Porque num cenário de grandes dificuldades, a motivação que transforma uma caixa de pastilhas num eficiente organizador de material que facilita a coisa mais importante – os cuidados de saúde prestados às crianças – seria apenas interpretada, porventura, como uma forma simplista de resolver um de muitos problemas e por isso desinteressante!
Por tudo o que, à luz dos olhos daqueles que escolhem o que é digno de ser conhecido por todos, este episódio seria certamente apenas um breve intervalo na vida de mais uma família comum, decidi partilhar este conjunto de coisas simples. Que se para outros – aqueles que escolhem o que é importante para ser público – isto não passaria de uma lista de banalidades, quero dizer-vos que para nós, todo o vosso trabalho, o carinho, o amor e a dedicação que, sem reservas nos deram, durante os 10 dias que habitámos a vossa fantástica pequena casa e fomos acolhidos na vossa maravilhosa família, ficarão para sempre marcados na nossa memória!
Porque vocês conseguiram com simplicidade, algo de extraordinário – que o tempo permita que as boas recordações que nos ofereceram, se sobreponham e apaguem as más memórias deste intervalo!
Porque o vosso dia-a-dia é tão importante para tantas famílias e tantas crianças, não poderíamos deixar de partilhar o nosso profundo agradecimento pelo fantástico trabalho que, longe das luzes, das câmaras e dos palcos, nos intervalos das vidas de cada família, pudemos testemunhar! Porque a vida segue dentro de momentos!
Nuno Banza
3.4.2012 - 2:55
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comentários
| nome: |
Maria Pires |
| comentario: |
Desejo sinceramente que o seu filho esteja melhor. Também o meu filho, na altura com 3 meses e hoje com 22 anos, teve um tratamento excelente no Hospital do Barreiro, numa situação de urgência. Tenho também todo o respeito e admiração por todos os profissionais que lidam com a vida humana. Gostei da redacção simples e sentida com que escreveu este artigo. E estando no palco ou na sarjeta temos todos pés de barro... que estes momentos, nem sempre fáceis, nos ensinem a ver a vida como ela é na realidade e para que os nossos actos sejam tocados pela verdadeira dimensão humana. Muitas felicidades! |
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| nome: |
Isabel ferreira |
| comentario: |
desejo de todo o coraçao que tudo corra pelo melhor,nao sabia, apesar de um destes dias o ter achado muito triste, mas pensei serem outras as razoes.Força e coragem, tudo vai resolver-se, Deus é grande, um beijinho |
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