colunistas
Topadas e trambolhões
Por Jorge Fagundes
Barreiro
Raro será o dia em que, homens e mulheres (e aqui a questão do género nem sequer se põe), seniores (assim se chamam agora os velhos) ou júniores, não dão valentes topadas naqueles monstrozinhos. E, topada aqui, topada ali, muitos se desiquilibram e é cá cada trambolhão!
A Avenida barreirense hoje conhecida como Alfredo da Silva começou a vislumbrar-se em Janeiro de 1913 quando a Câmara decidiu abrir um arruamento que ligasse a Rua Miguel Pais à, então, chamada Rua Nova da Recosta (actual Rua Dr. António José de Almeida).
Em Setembro de 1914 essa nova artéria, mercê de uma oferta de terrenos, chegou à Rua Elias Garcia. E por aí se quedou devido à existência de vários prédios e quintais impeditivos da sua continuação até à Rua Miguel Bombarda.
Em reunião camarária de 27 de Novembro de 1914, em homenagem à Bélgica, país invadido pelos exércitos alemães, foi deliberado atribuir-se ao novo arruamento o nome de Avenida da Bélgica.
Em 1946, demolidos, que foram, os prédios que tal o impediam, esta Avenida ligou-se à Rua Miguel Bombarda, ficando com um novo visual: um separador central, arborizado, e duas faixas de rodagem, uma ascendente, outra descendente.
Em Outubro de 1956 foi retirado o separador central, por o mesmo dificultar o movimento dos autocarros dos TCB, e a Avenida foi rebaptizada como Alfredo da Silva (estes elementos constam do Arquivo Municipal do Barreiro).
De 2005 até aos dias de hoje, uma vez mais o visual da Avenida foi alterado e, como sempre acontece, objecto de muitos prós e de muitos contras. Notável, notável mesmo, terá sido a controvérsia àcerca da largura da respectiva faixa de rodagem e, daí, a momentosa questão: os autocarros, ao cruzarem-se, chocam-se ou não se chocam? Com a pompa e a circunstância devidas, através de conferência de imprensa num conhecido café local, o problema ficou resolvido: mais meio metro de largura. Medida, mesmo assim, alvo de algumas críticas, mas que o decorrer do tempo mostrou ter sido sábia: ainda não houve choque de autocarros.
Com a escolha das árvores, novas discussões surgiram e, pelo menos em relação a uma delas, só os nossos bisnetos terão voto na matéria: sendo de crescimento lento, consta que atingem trinta metros de altura!
Mas, tal como as dores de dentes, as coisas não ficaram por aqui, haja em conta as opiniões a favor e contra a largura dos passeios. Sim, com tanto espaço desperdiçado, onde vou estacionar o meu automóvel? Numa primeira fase, e fiando-se na quase total ausência de actuação policial, vá de arriscar em cima dos passeios. Mas, de extremo a extremo, logo surgiram aqueles inestéticos pilaretes, ainda por cima fabricados em material sem nenhum interesse sucateiro!
Aqui e além, os criadores do novo visual da Avenida, ao lembrar-se que as casas comerciais precisavam de espaço para cargas e descargas de materiais, lá desanexaram dos passeios uns bocaditos para o efeito. O pior é que ali só cabem , à justa, duas viaturas das mais pequenas do nosso parque automóvel e, à brasileira, cadê os outros?
É fácil, é barato, não dá milhões, mas é ver cada camião, dos bem pesados, escapar-se por onde é possível e abancar em cima dos passeios!
Mesmo assim, apesar da exiguidade dos locais para cargas e descargas, por períodos de quinze minutos (que ninguém controla), então se é só para ir beber uma bica ou para ir ao banco, estão mesmo a calhar para estacionar o veículo particular. A princípio até dava para avançar sobre os passeios, mas não demorou muito tempo para surgirem uns curiosos obstáculos, uma vez mais em material não comerciável, e, pelos vistos, inspirados naqueles blocos de partida utilizados em certas provas de atletismo.
Em boa verdade, e em relação aos automóveis, resultaram mesmo: não podem ir para cima dos passeios, e quando o automobilista não conhece os cantos à casa, ao abrir as portas, vá de bater nos blocos.
Porém, os inventores desta adaptação do material de partida dos velocistas não previram o que , desde então (e até quando senhores, até quando?) passou a suceder. Raro será o dia em que, homens e mulheres (e aqui a questão do género nem sequer se põe), seniores (assim se chamam agora os velhos) ou júniores, não dão valentes topadas naqueles monstrozinhos. E, topada aqui, topada ali, muitos se desiquilibram e é cá cada trambolhão!
Nalguns casos com condução garantida ao Hospital para tratamento das várias mazelas. E logo agora que as taxas moderadoras viraram foguetões!
A propósito, um amigo meu que, por afazeres profissionais, viveu em Macau alguns anos, confidenciou-me que esta questão das topadas e dos trambolhões na Avenida Alfredo da Silva seria, naquelas orientais paragens, motivo de apostas entre os chineses, como segue: escolhida a presumível vítima, estava achado o motivo das apostas: por um lado, topada ou trambolhão; por outro lado, queda ou não queda.
Jorge Fagundes
18.5.2012 - 22:05
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comentários
| nome: |
Jorge Amaral leitão |
| comentario: |
Casualmente vim dar a esta página e encontrei um artigo do meu velho amigo e colega, Jorge Fagundes. Com exceção do bigode, estás na mesma. Um grande abraço |
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