colunistas
O Oráculo Sibilino
Por Pedro Estadão
Barreiro
Assim, o "conhece-te a ti mesmo", surge como pedra angular do pensamento político que precisamos para o nosso país. Ele é a base do raciocínio que deve ser feito para se definir de uma vez por todas qual é o nosso propósito no mundo enquanto nação.
Quem, na Antiguidade Clássica, fizesse a peregrinação ao Templo de Apolo, em Delfos, subiria a encosta do monte Parnasso em busca de uma profecia. Chegado aos pórticos do Oráculo, encontraria a inscrição: Conhece-te a ti mesmo. Este ensinamento foi uma das ideias fundadoras do pensamento Socrático e consequentemente, é uma das pedras basilares da cultura Greco-Romana da qual deriva o formato da estrutura cultural europeia-mediterrânica dos nossos dias. Como todas as ideias básicas, este conceito mantém a sua validade passados mais de dois milénios e, à semelhança de tudo o que é basilar, é frequentemente esquecido, por se pensar que já está assimilado. Temos, porém, o dever de revisitar estas ideias fundadoras, para que se mantenham vivas, senão, corremos o risco de passar a vida a re-inventar o que outros já disseram ou fizeram antes de nós, desperdiçando assim tempo e recursos valiosos.
A falta de sentido de propósito, voltas e contra-voltas, apostas perdidas em processos de tentativa e erro, e a geral pobreza de coordenação dos recursos do nosso país, nas últimas décadas, parte também, em minha opinião, do esquecimento destas verdades originais. Numa linguagem futebolística, dir-se-ia que o famoso rendilhado do meio campo sem consequências maiores do que a própria beleza dos passes, por falta de percepção de que o objectivo é rematar à baliza, foi elevado ao estatuto de forma de estar dos nossos governos da era democrática. a falta de um claro e definido propósito nacional, transversal e universal, condenou-nos à mediocridade de todos os 3 ou 4 anos nos termos que re-inventar e voltar a procurar novos objectivos, que, para além de incertos têm sempre sido parcelares. A tendência banalizou-se de tal forma que é elevada a estatuto de grandeza com a regularidade dos periodos eleitorais. Este fenómeno reforça-se de cada vez que se juntam assembleias de peritos e mentes brilhantes em estados-gerais e foros de debate, com o fim de produzir um programa de governo local ou nacional que pareça original, como se a originalidade fosse garantia de vitória eleitoral ou a salvação da pátria dependesse de uma qualquer eureka parida num momento de rara genialidade de um dos nossos prosadores políticos.
Não quero induzir o leitor a pensar que já está tudo inventado, porque sei que há muito ainda por descobrir e muitas "novas e maviosas cousas" que nos esperam no futuro, mas verifico que há elementos que são básicos, e, por básicos que são, devem sempre ser tidos em mente, quando nos debruçamos sobre um qualquer novo empreendimento. Assim, o "conhece-te a ti mesmo", surge como pedra angular do pensamento político que precisamos para o nosso país. Ele é a base do raciocínio que deve ser feito para se definir de uma vez por todas qual é o nosso propósito no mundo enquanto nação. Essa definição é necessária, urgente e não creio que deva ser posta nos termos do Quinto-Império do Pessoa ou elaborada de forma poética ou fantasiosa: deve, isso sim, ser apresentada de forma realista, simples e compreensível. A partir do momento em que esse alvo colectivo esteja determinado, teremos a almejada coerência dos processos de decisão e poderemos, a partir do conhecimento que temos de nós próprios, como povo e como organização social, caminhar tranquilamente em direcção a um futuro radioso. Até lá, enfrentaremos o custo desta permanente experimentação política e social que, infelizmente para nós, tem tido os resultados que temos observado e sentido na pele.
Não sou eu que vou apontar o caminho, aliás, neste aspecto, como Sócrates de Atenas, "só sei que nada sei", porque, como português que sou, sinto-me perdido no mundo por não saber o que é que nós representamos, qual é a nossa ideia para o mundo e o nosso rumo colectivo. Sinto que é importante deixar a semente desta angústia na mente de todos os leitores porque a ideia do ser colectivo que é Portugal tem de partir de um reencontro connosco próprios e de uma reconciliação com a nossa história colectiva que está para ser feita há demasiado tempo e este caminho também é pessoal e interior em cada um de nós. O estado de espírito que nos move tem que partir dos indivíduos e da sua forma de agir e decidir no dia-a-dia e, para que isso aconteça, é essencial uma mudança de mentalidade em relação à capacidade que cada um de nós tem, de participar na mudança do mundo que nos rodeia. Isto implica que, aqueles que, como eu, acreditam esperançosamente na possibilidade de sermos melhores, façam esforços adicionais para acabar com o alheamento e a abstenção que começa a dominar a nossa sociedade. O inverso será permitir que novas e perversas formas de tirania se instalem e nos roubem a felicidade que almejamos.
Penso que está na hora de regressar às bases e pensarmos seriamente que tipo de nação queremos ser e que tipo de país queremos ter. Quanto mais adiarmos esta reflexão, mais nos perderemos em zigue-zagues políticos e económicos, que apenas servem aqueles que aproveitam para lucrar com a confusão generalizada.
Pedro Estadão,
30 de Junho de 2012
Bar-Le-Duc, Lorena, França
30.6.2012 - 14:51
imprimir

Partilhar:

PUB.

comentários
| nome: |
Henrique Silva |
| comentario: |
Continuo apreciador do Rostos e seguindo á distancia, os acontecimentos. Assim faz o senhor Pedro Estadao. Aprecio e muito, a forma como estando longe, ele incentiva a reflexao e induz a vontade de idealizar o país, que amamos. Longe mas afinal perto, mesmo se a terra do Duque de Lorena, é pouco conhecida dos portugueses, a menos que como eu, nela tenhamos vivido há 40 anos, quando era mais importante que hoje. |
|
| nome: |
nataniel mendes de castro |
| comentario: |
sou um estudioso dos escritos judaico e cristaos, mas falta- me o livro dos oraculos sibilinos com versao em portugues. quando será publicado tal tesouro. |
|

envie o seu comentário

PUB.


Pesquisar outras notícias no Google

|