colunistas
Unicornio Azul
Por Pedro Estadão
Estive para escrever sobre muitas coisas, mas não escrevi sobre nada, por falta de esperança, de inspiração ou de confiança na utilidade de tanta palavra jogada fora... Não sei. Sei que me apeteceu escrever sobre uma série de animais mitológicos e acabei por não ter paciência nem sequer para isso...
"Mi unicornio y yo
hicimos amistad
un poco con amor
un poco con verdad.
con su cuerno de añil
pescaba una canción,
saberla compartir
era su vocación"
Silvio Rodriguez
Há uma série de dias que ando para escrever qualquer coisa. A verdade é que não me consigo focar num tema... À distância que me encontro e a meio da época tôla dos jornais, volta a parecer que não se passa nada em Portugal: como é habitual, os cães ladram e a caravana passa. Cada vez que o nosso Governo toma uma e outra e ainda mais outra decisão incompreensível, ofensiva ou até imoral, levanta-se um burburinho que passado uns dias não mais parece que um suave lamento, à moda do mais genuino lirismo do nosso povo.
Estive para escrever sobre o curioso caso do doutor da mula ruça, mas a vontade depressa me passou... Ao fim de duas linhas percebi que não era novidade; que a nossa história, desde tempos bastante antigos se encontra cheia de exemplos similares e igualmente asquerosos; que já Eça e Camilo se haviam debruçado sobre o mesmo tema com bastante mais talento que o que eu seria capaz de impôr sobre esta página; que, simultaneamente, o meu amigo Nuno Santa Clara acabara de publicar neste mesmo espaço do "Rostos" a sua opinião, que anulava completamente tudo o que eu tivesse a dizer sobre o caso; que há coisas que não devem merecer mais do que uns instantes da nossa atenção, porque desviam os nossos olhos do essencial. Não escrevi mas estive para escrever que o Ministro Relvas se transformou no alívio cómico de uma situação de alta pressão... Que foi promovido a potencial bode expiatório e simultaneamente, a tragicomédia da sua vida política passou oficialmente a ser a válvula de segurança deste Governo. Chegado o momento certo, creio que haverá remodelação e ai, será disparado o último cartucho desta história agridoce que se presta ao grande serviço de cobrir os nossos olhos de nevoeiro.
Estive para escrever sobre o curioso caso do Presidente francês que teima em cumprir as suas promessas eleitorais... Também já não seria novidade, mas o caso era certamente merecedor de umas linhas. Pareceu-me banal escrever sobre um evento que é uma raridade mas que devia ser a verdadeira regra; pareceu-me degradante ter que anotar numa folha de papel que as promessas que se fazem aos eleitores são para ser cumpridas; pareceu-me que ninguém prestaria atenção. Creio que pensei que seria demasiado fácil dizer que o homem reduziu os ordenados dos políticos e que voltou a colocar a idade da reforma nos 60 anos e que se presta a retirar os militares do seu país do Médio Oriente e que se prepara para introduzir reformas importantes na educação e na cultura ou ainda que voltou a colocar um rosto humanista na Europa, tornando-se o porta-estandarte da esperança de que o mundo pode ser ser melhor se nos preocuparmos em primeiro lugar com as pessoas. Mas não escrevi, porque ainda espero para ver quem é que o vai acompanhar nesta luta para humanizar e desfinanceirizar a política... Conto os dias que passam até à queda da senhora Merkel, à espera que surja alguém capaz de reverter a onda e voltar a transformar a Europa num espaço de esperança na Solidariedade e Fraternidade entre os povos.
Estive para escrever sobre o curioso caso do colapso das economias espanhola e italiana e das soluções bizarras que têm sido encontradas... Nada de novo por aqui, a diferença de tratamento que se dá a uns casos e a outros está relacionada directamente com a espectativa do resultado. Seria certamente pouco adequado da minha parte, apontar que em Portugal, a caravana passa, e, em Espanha, "no pasará!"; que ao longo dos anos nos transformámos nuns frouxos que admitem tudo o que vem de fora; que nos habituámos a ser esfolados de couro e cabelo, para parecer, lá fora, que somos uns gajos porreiros; que nos preocupamos mais com o aspecto exterior que com pôr a nossa casa em ordem e viver dignamente; que no caso dos Bancos fajutos deviamos ter feito nem mais, nem menos que os islandeses e deixá-los cair, pura e simplesmente, doesse a que doesse. Perdi a vontade de escrever sobre isto porque já estou farto de chover no molhado e de perceber que, nos dias que correm, pouco importa o que se diz ou o que se escreve... Falar é bonito, mas no fim, poucos estão dispostos a fazer alguma coisa para mudar a situação. Não me sinto sobressaltado com a necessidade de dizer mais nada sobre isto porque sei que em Portugal, acaba tudo em águas de bacalhau.
Estive para escrever sobre o curioso caso da Síria e do sátrapa que se verá, um destes dias, a responder pelo genocídio do seu próprio povo, sobre a curiosa abstenção da comunidade internacional em se envolver a sério na solução do problema; sobre o crescimento da influência do Irão na liderança do mundo árabe; sobre a delicadeza da situação no Egipto e na Líbia; sobre a ligação que todas estas situações têm entre si e as hipocrisias que estão à frente dos negócios estrangeiros Europeus e Americanos. Não seria nada de novo e o interesse seria equivalente, por isso, não escrevi que o facto de o Irão ser o principal interessado na revolta Síria não justifica que se deixem matar milhares de pessoas inocentes, nem escrevi que a influência dos negócios árabes nas economias alemã e inglesa os faz piar baixinho; nem sequer escrevi sobre a conversa que ouvi, entre duas sumidades parlamentares euro-lusitanas que comentavam entre si "ainda bem que não estamos na delegação porque a viagem é uma seca e não iamos lá fazer nada". Não escrevi sobre nada disto, mas fiquei convencido que o clima de descrença na capacidade que temos de participar na mudança, ou mesmo de fazer a diferença, está instalado. Guitarra toca baixinho, que alguém pode escutar...
Estive para escrever sobre muitas coisas, mas não escrevi sobre nada, por falta de esperança, de inspiração ou de confiança na utilidade de tanta palavra jogada fora... Não sei. Sei que me apeteceu escrever sobre uma série de animais mitológicos e acabei por não ter paciência nem sequer para isso... Os unicórnios já não existem, não sei se alguma vez existiram, mas há gente que continua a insistir que são reais, mesmo quando é evidente que o animal não passa de um burro com uma corneta de plástico colada no meio dos olhos. Por isso, decidi não escrever esta crónica.
Pedro Estadão, Bar Le Duc, Lorena, França
29 de Julho de 2012
29.7.2012 - 20:32
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comentários
| nome: |
tininha |
| comentario: |
e ainda bem que não escreveu... Pedro ;) |
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| nome: |
Henrique Silva |
| comentario: |
Por muito mal que andem as coisas, a soluçao nao seria cruzar os braços ou mandar à lixa o que for. A Esperança nunca se deve perder. Decerto a Crise, já afeta metade dos países ou mais, decerto este Sistema está no ultimo em quanto a decencia. Decerto, há que esboçar antes de ser tarde, novas alternativas adaptadas às realidades e sentimentos sociológicos atuais. Decerto, que há argumentos de envergadura para considerar injusto tudo o que está a suceder aliás, de soluçoes e perspetivas muito incertas. Decerto, poderao surgir fatores desestabilizadores e de falsas promessas. Seja como for, ainda bem que escreveu e oxalá volte a fazë-lo, sem desânimos nem baixas de auto-estima. Afinal, nao fui só eu que o li. |
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| nome: |
Maria de Fátima Monteiro |
| comentario: |
Adorei,bendita falta de assunto que te acometeu. |
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| nome: |
Jorgete Teixeira |
| comentario: |
Ainda bem que decidiu não escrever sobre todos estes assuntos, tão prementes, inquietantes e desesperantes...Estou certa que muita gente se identificará com esta posição de impotência perantes tais desacatos num país, e num mundo, cada vez mais difícil de entender... e que decidiu, egoisticamente, não partilhar connosco... |
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