colunistas
Pequeno e periférico
Por Pedro Estadão
Barreiro
Nunca nos esquecemos da utopia, que construimos no nosso íntimo, daquilo que é a nossa terra natal e é ai que nos chocamos com a realidade porque para nós, Portugal é o país do sonho, a Terra do Nunca para onde a fada madrinha nos leva com pózinhos de perlimpimpim, o local que seria perfeito para viver se ao menos as coisas fossem diferentes. Dentro de cada português que vive no estrangeiro há um país que não existe, que nunca existiu, que talvez nunca venha a existir e que se chama Portugal.
"Cada vez gosto mais de ser português e cada vez tenho mais orgulho no meu país. É-me insopurtável ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico». Para mim, Portugal é central e muito grande."
António Lobo Antunes
Gosto da minha terra, do sol que brilha quase todos os dias do ano, do mar que nos alimenta o corpo e a alma, da diversidade e beleza das paisagens que nos fazem sonhar. Gosto das gentes da minha terra: lutadoras, alegres, solidárias, aventureiras, poéticas... A "lonjura da distância" abre-me os olhos para as coisas boas da minha terra, que é uma aldeia global, cheia de maravilhas inexploradas e de recantos de uma beleza insólita. Sei que as coisas estão más por ai, e sei que nas épocas más, as pessoas têm dificuldade de se lembrar de coisas boas, foi por isso que desta vez decidi escrever sobre o que nos distingue como povo, em lugar de mais um raciocínio fútil sobre como é que as coisas seriam se não fossem assim. Creio que está na hora de, apesar de todas as complicações, pensar nas coisas boas que fazem de Portugal um local único, especial e exemplar, que seria um dos melhores países do mundo para viver, se a vida política não fosse tão mal frequentada. E está também na hora de pensar o que é que, como povo, nos distingue dos outros.
O nosso país é quase milenar e a sua geografia, já havia sido destacada como província e unidade administrativa no tempo do Império Romano, há mais de 2000 anos, (reparem que, para além de Portugal, apenas existem mais dois paises com esta característica: a Itália e Israel). Em Portugal existe o centro de culto megalítico mais antigo do mundo. Por Portugal passaram os Fenícios, os Gregos, os Cartagineses, os Romanos, os Vândalos, os Suevos, os Visigodos e os Árabes, que se foram adicionando às gentes locais e que deram origem a uma das línguas mais ricas do mundo. A situação estratégica singular permitiu aos nossos antepassados achar os contornos do mundo, ligando-nos a civilizações longinquas como a Indiana, a Chinesa e a Japonesa. Por todos os continentes deixámos marcas da nossa estética singular e exemplos das nossa excepcional capacidade de adaptação e integração em culturas que nos são completamente alheias, Portugal foi a primeira aldeia global, a partir de meados do Séc. XVI. Impelidos pela miséria e falta de recursos naturais que nos são congénitos, demos o mundo a conhecer-se a si mesmo. Sobrevivemos ao reinado Espanhol e recuperámos, com sucesso, de um dos maiores desastres naturais de sempre, em 1755. As Invasões Francesas, para nós, foram um soluço. Finalmente, tivémos artes de passar incólumes por duas Guerras Mundiais, o que, em grande parte, preservou a nossa paisagem arquitectonica e nos tornou, mais uma vez, o alvo de migrações de gentes de outras terras. A nossa extraordinária capacidade de aceitar a diferença permitiu a integração de toda esta gente numa cultura única.
Ao contrário da maior parte das grandes cidades do mundo não existem, nas nossas grandes cidades, quarteirões habitados por descendentes de nacionais estrangeiros que ainda falam a língua dos antepassados. Existem no nosso país Indianos, Chineses e Russos, mas não existe em Lisboa Little Bombay, Chinatown ou Little Odessa. A língua portuguesa absorve tudo, é uma esponja cultural, o português é uma mistura pan-genética da humanidade. Pessoa dizia que "o povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo." E depois, veio a segunda metade do Século XX e os portugueses voltaram a espalhar-se pelo mundo até ao ponto em que três quartos das pessoas que podem reivindicar a cidadania nacional vivem, não em Portugal, mas espalhados pelos cinco continentes, da Sidney à Nova Iorque, de São Paulo ao Luxemburgo, de Paris à Cidade do Cabo, por todo o lado existem portugueses, discretamente, envolvidos nas culturas locais, integrados de uma forma que mais povo nenhum do mundo consegue fazer, matizando as culturas locais sem chocar e sem se fechar em guetos ou nos famosos quarteirões étnicos do mundo. Em parte alguma existe uma Little Lisbon porque o português é um cidadão do mundo e em toda a parte encontra afinidades com a sua própria cultura, que refina, quando pode, sem sentir a necessidade de criar um espaço estéticamente seu, porque, afinal de contas, o mundo é português e o português contém dentro de si, o mundo.
A nossa afectação cultural, quando acontece, é ao contrário, estamos habituados a absorver, mais do que a dar. É fácil encontrar um chalet suiço em Portugal, duvido que exista uma casa alentejana na Suiça. Os estrangeirados têm sido, ao longo da nossa história, dos maiores contribuintes para a literatura, a música e as artes plásticas do nosso país. Atravessámos modas e admirámos os grandes impérios dos últimos dois séculos, por isso, existem em Lisboa, Avenidas construidas ao estilo de Paris e no Porto, palacetes ao estilo Inglês, de todo o lado nos vêm as influências artísticas e culturais e nós, porque nos está na massa do sangue, tudo absorvemos e integramos, sem perder nunca a nossa singularidade e as nossas características próprias. Ficamos, muitas vezes, embevecidos pelas culturas que nos são alheias, consumimos tudo o que vem de fora, e não percebemos que isso acontece porque está gravado em nós, a ferro quente: o português, para se completar, precisa de se imbuir na diferença, de saber o que se passa à sua volta, de estar mergulhado nas vogas e modas do mundo.
Tenho amigos, (do tipo real, e não do tipo virtual) , espalhados por toda a parte do globo que me relatam com tristeza que fazemos mal o nosso marketing, que, por exemplo, os brasileiros se estão a marimbar para Portugal, que na Bélgica não se ouvem notícias dai, que na América nem sequer sabem que isso é um país, e, no entanto, existem portugueses em todos estes lados, e em quantidades apreciáveis... Creio que é normal que isto aconteça porque, à falta do próximo terremoto, no nosso rectangulo, desde há muito tempo, que poucas coisas se passam que sejam realmente dignas de registo. O nosso centro de gravidade há muito tempo que deixou de ser Portugal e passou a ser o Mundo, e ai, passamos despercebidos porque nos integramos e envolvemos. Nunca nos esquecemos da utopia, que construimos no nosso íntimo, daquilo que é a nossa terra natal e é ai que nos chocamos com a realidade porque para nós, Portugal é o país do sonho, a Terra do Nunca para onde a fada madrinha nos leva com pózinhos de perlimpimpim, o local que seria perfeito para viver se ao menos as coisas fossem diferentes. Dentro de cada português que vive no estrangeiro há um país que não existe, que nunca existiu, que talvez nunca venha a existir e que se chama Portugal. Mesmo os que juram a pés juntos nunca mais voltar, porque estão completamente integrados e nada têm que os ligue ao rectângulo mágico não percebem que eles próprios são o produto acabado daquilo que é o português, porque eles são o barco que cortou as amarras e que leva lá dentro, por sina do destino, todas as qualidades e os defeitos das gentes nascidas entre o Minho e o Guadiana.
Pedro Estadão
Bar Le Duc, Lorena, França, 18.08.2012
18.8.2012 - 12:47
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comentários
| nome: |
paulo silva |
| comentario: |
gostei muito continua do teu cunhado paulo |
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