contos
A Volta ao Mundo, num Livro
Por Alvaro Giesta
Barreiro
O mundo dos poetas. No nosso mundo os livros estão a acabar. Por isso precisamos de poetas para continuarem a dar vida aos nossos livros. A livros como eu…
A Volta ao Mundo, num Livro
Um dia, muito longínquo, passei por uma rua onde um homem mais velho que o tempo, que me pareceu um homem de respeito e sábio, guardava, com todo o carinho, sobre um pano de linho branco estendido no chão, meia dúzia de livros usados. Entre eles havia um que se destacava dos demais, exactamente pela falta de uso. Tinha as páginas envelhecidas pelo tempo. Amarelecidas, quais folhas de árvores no Outono, quase a caírem. Mas conservava de si o aprumo como se nunca tivesse sido usado nem folheadas as suas páginas.
E o velho homem, a que eu me atrevo a chamar “poeta”, tinha um porte de sábio e pensador. Como um daqueles vultos veneráveis do saber a que estamos acostumados nos livros antigos.
Não usava gravata nem fato vincado. Não! Cobria-lhe o corpo um fato de linho cor da neve, muito gasto pelo tempo mas limpo, sem máculas. Tinha efectivamente aspecto de sábio. Daqueles que vivem para a humanidade sem ligarem à fama. Barbas grandes e brancas cobriam-lhe meio peito. Mas muito bem cuidadas. Na cabeça uma boina preta, muito parecida à que usavam os pintores antigos, mas colocada direita. Escapavam-se dela as franjas do cabelo, em farripas brancas e raras. O olhar meditativo perdia-se no espaço longínquo, que deslizava com a rua até onde esta termina num largo cheio de passos apressados.
Ele, ao cimo daquela rua, numa esquina por onde entrava apenas uma nesga de sol coado por entre os prédios altos da cidade, meditava para além do tempo. E os seus livros, de páginas amarelecidas e intocáveis, pareciam meditar com ele.
Observava-o eu, de máquina fotográfica pendida do pescoço e à distância da largura da rua a que fiquei reduzido neste aproximar de observação demorada, quando o seu olhar interrogativo pousou no meu. Depois, um sorriso confiante que brotou daqueles lábios escondidos sob as brancas barbas e o bigode farto, encorajou-me a avançar.
- Sabes? Tenho aqui um livro que fala. Queres conhecê-lo?
- Um livro que fala? – perguntei surpreendido (este deve ser louco, comentei em pensamentos com os meus botões).
- Sim, um livro que fala. E gosta de falar com aqueles que pouco o lêem. E com aqueles que se sentem mais sozinhos e pensativos… queres perguntar-lhe?
Senti-me incomodado com a proposta do velho que há pouco me parecia um sábio, mas agora se assemelhava mais a um louco. Mesmo assim afoitei-me a perguntar-lhe:
- E que linguagem fala ele? Constrói frases perfeitas, como nós, os humanos?
- Pergunta-lhe, que ele responde. É um livro que poucos lêem e muitos ainda menos entendem. É um livro diferente, mas ao mesmo tempo igual aos outros. Fala de si dum modo diferente para quem o lê e permite que, a quem o lê, o interprete por si.
- Não percebo… como pode ser diferente e igual aos outros ao mesmo tempo? Duas coisas não podem estar e não estar no mesmo sítio ao mesmo tempo. Como pode falar de si e permitir que, quem o lê, o interprete por si?
- Pergunta-lhe… (insistiu o velho)
E, quase a medo, não fosse o livro transformar-se noutra coisa alquímica qualquer proveniente dos sonhos daquele louco, lancei a pergunta:
- Livro, é verdade que falas?
- Sim, falo. E estou triste porque quase ninguém fala comigo. Só os que pensam de maneira diferente dos demais, falam comigo. Muitos, quando me abrem mesmo sem me leram, dizem que não presto…
- Se calhar é por seres velho, muito velho… as tuas páginas, apesar de não estarem dobradas nas pontas, estão tão amarelas que nem apetece desfolhá-las. E cheiram a mofo…
- Não. Não é por isso. É que eu sou um livro diferente. Sou um livro vindo dum mundo diferente do dos outros livros. Por isso os homens, hoje, distraídos com outras coisas diferentes, passam por mim sem me ler. E se me olham, fazem-no com desdém…
- Um livro diferente?! – Interroguei sem perceber o livro.
- Sim. Diferente. Fizeram-me diferente, aqueles que também são diferentes, por viverem num mundo à parte dos que não perdem tempo a pensar e a escrever.
- Num mundo à parte?
- Sim. O mundo dos poetas. No nosso mundo os livros estão a acabar. Por isso precisamos de poetas para continuarem a dar vida aos nossos livros. A livros como eu…
Estou triste porque os homens não nos lêem e acabaremos por morrer aos poucos quando os poetas deixarem de nos escrever. Somos nós, os livros dos poetas, que levamos quem nos lê a dar connosco a volta ao mundo. A sonhar…
- Tens razão, livro!
Olha, eu também sou poeta por isso vou levar-te comigo e ler-te. Mas com uma condição: se me prometeres que, contigo, dou a volta ao mundo dos sonhos do poeta que te escreveu.
Alvaro Giesta, poeta
3.4.2012 - 12:18
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