contos
Por um Portugal de Todos
Por Manuela Fonseca
Barreiro
Uma tarde de aprendizagem acerca do muito que há por fazer neste País e em cada um de nós.
Uma tarde de palavras, sábias, cada um dos ilustres oradores no seu estilo – pessoal, social, político, filosófico, literário –, uma enorme sala embevecida no que transmitiam.
Já não vai ao Porto há mais de cinco anos e meio. Na última vez teve a companhia, saborosa, desportiva e gentil do filho mais velho, em excursão organizada pelos “Dragões de Lisboa” para um Porto-Benfica que teve emoção, aflição e incerteza mesmo até ao fim, como um grande drama futebolístico deverá ser – Bruno Moraes, chegado jovem do Brasil, apoquentado por graves lesões, nunca foi o jogador de área de que o Futebol Clube do Porto necessitava. Mas, nessa noite, na substituição de um colega, no termo da partida, apontou um, belo e já inesperado, que deu o triunfo à equipa da casa, perante a alegria de quase cinquenta mil, entre os quais Teresa, e a tristeza da minoria, onde Pedro se incluía, na onda sonora do majestoso Estádio.
Foi um prélio que deu o mote ao futuro vencedor da Primeira Liga – Ricardo Quaresma, possivelmente na sua melhor forma de sempre, levou a melhor o duelo, extraordinário, com o guarda-redes Quim que, anos depois, campeão, voltou ao Braga, talvez em momento menos apropriado para sair de um Clube pelo que tanto fez.
Quando se trata do Barreirense, a unanimidade com os seus rapazes é perfeita: “Sim, temos que subir de Divisão”, “Claro, toca a avançar para um campeonato federativo”.
“Terceira Divisão” nunca é expressão pronunciada…
“Mãe, sabes quantos demos hoje?...”, “Vamo-nos habituando ao Campo da Verderena; quando fazes o mesmo e vens com a gente?”
Nunca mais a convencem por ter medo de levar uma bolada que a prejudique, em recinto tão exíguo.
Também receia um desfecho menos agradável...
Quanto aos chamados Três Grandes”, cada um deles é preferência de cada qual, a seguir ao principal da sua terra.
João, marido e pai, desde sempre adepto do Sporting, já foi associado das duas principais agremiações da terra; a primeira foi deixada por não poder ver, em pleno fascismo, os agentes da G.N.R. a cavalo, os animais estimulados por eles para a colocação das patas acima das pessoas, ou mesmo ao lado delas.
E apoiou, a quota irrepreensivelmente paga, a 2.ª Liga do Barreirense, efémera, na época de 2005-2006.
Teresa encaminha os pensamentos para o Porto-Cidade, em 2004, ano em que ela e João apanharam, depressa (só tinham sabido do evento poucos minutos antes do arranjo, à pressa, dos sacos de viagem, indispensáveis para uma saída de poucos dias.
Aviso aos filhos, algumas instruções dadas à colaboradora doméstica e ida, rápida, para o autocarro e daí para o barco, a caminho de Lisboa, e novo autocarro até Santa Apolónia para a chegada, poucas horas depois, à Capital do Norte e de Teresa se maravilhar, com sempre, com as duas margens do Douro que o comboio mostrava de maneira soberba – para ela, na tradição ferroviária que tão bem preservava, só esse transporte tinha a competência de apresentar assim a Serra do Pilar, a granítica beleza de Gaia e Porto.
Deixada a ferrovia, uma “francesinha”, previamente saboreada em Campanhã, claro, ritual que André, o rapaz mais novo, já tomou como seu.
Pouco depois, entre a assistência, lugar em pé – e por gentileza dos que perceberam que o casal tinha feito um bom par de quilómetros e se colocaram atrás dele –, a presença, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, nos Jardins do Palácio de Cristal, de um momento único e sublime da política portuguesa dos tempos de Liberdade: um conjunto de palestras, extraordinárias, promovido pela Cooperativa Árvore.
Mestre José Guimarães, visto de cima, traços em várias folhas feitos a negro, por dedos criativos e hábeis, enquanto os convidados davam o melhor deles próprios, ou não fossem as eméritas figuras de Maria de Lourdes Pintasilgo, José Saramago, Miguel Veiga.
(Que saudades de dois deles! Ainda bem que Veiga está cá!)
Uma tarde de aprendizagem acerca do muito que há por fazer neste País e em cada um de nós.
Uma tarde de palavras, sábias, cada um dos ilustres oradores no seu estilo – pessoal, social, político, filosófico, literário –, uma enorme sala embevecida no que transmitiam.
Teresa tinha perguntado ao companheiro, após o fim da sessão, enquanto lanchavam: “ Para quando Portugal, João?”
Ele olhara, apenas para ela e meneara os ombros, os olhos longe, talvez na guerra colonial que os menos afortunados financeiramente, como ele, foram obrigados a fazer, trágicas décadas antes.
Uma situação que tanto mal fez – e talvez ainda o faça – aos Portugueses e aos Povos Irmãos que a ditadura tinha resolvido agredir, mais sistematicamente, nessa horrível altura.
Três dias no Porto, instalados numa Residencial impecável, no coração da cidade, parte do “Porto Sentido” – que Rui Veloso e Carlos Tê nos ofereceram, em perenidade –, inesquecível e hospitaleiro.
Refeições, fartas e muito em conta, ali perto, ou por onde passavam, confeccionadas com os segredos das gentes do Porto.
Um deles é, por certo, o de provocar o apetite a qualquer momento…
Comeram como só no Norte e no Alentejo acontece, cheios de prazer.
Viagens, diversas, de autocarro – compraram um conjunto de bilhetes com desconto – para o passeio à Foz, a passagem perto do Estádio do Bessa, o conhecimento de Serralves e as suas riquezas (como lhe admiraram a estrutura, os espaços, as várias Exposições, a síntese entre pintura e fotografia de uma delas), todo o trabalho de Siza Vieira, naquele branco que reverbera.
Passeios, ao acaso, um pouco de receio, à noite, na zona da Sé, à vontade entre a Rua de Santa Catarina e o Coliseu, com os cartazes de anúncio de um espectáculo de um cantor de cuja voz e reportório não gostavam, um intérprete portuense a entrar ao mesmo tempo e João, hilariante sem querer, certamente em acto falhado, a enganar-se e a dizer, pejorativamente, o nome do criador que chegava…
A ida ao Teatro Nacional de S. João – o “Alfa” oferecia significativo desconto, através de pequenos papéis nesse sentido –, em excelente encenação de Ricardo Pais, diferente, ousada, o guarda-roupa onde o branco sobressaía, talvez na amenização da tragédia, Mais um Hamlet – afinal, espectáculo único, síntese de várias Artes, excelente nas marcações, no jogo de luzes, na música interpretada, belo desempenho de todos, João Reis e Luísa Cruz, sem ofensa para os restantes, inesquecíveis.
À saída, João tinha-lhe dito, em tom jocoso: “Pelo silêncio aqui em redor, o teu FCP perdeu…”
(O Sporting acalentava esperanças no título.)
Na ida para o Teatro havia muita gente à frente de televisores, em espaços de lazer, pronta para a contenda desportiva.
Teresa já o sabia, através de um pequeno rádio portátil que, terminada a peça, sintonizara, disfarçadamente, e, calada, fingiu não ouvir o companheiro.
Assim se passara, com um clube vizinho, modesto e brioso que, mesmo assim, não afastou os portistas da rota do título.
Nesse ano, o Futebol Clube do Porto até seria outra vez Campeão Europeu, que Teresa, eufórica, comemorara, no Barreiro, no carro da nora, no abraço e beijo a Paulo Pardana, amigo bem mais jovem, antigo aluno, que era um sobrinho adoptado, José Mourinho sempre referido por todos eles.
Mourinho que, no Bairro do Liceu [de Setúbal] vira, há décadas, bebé, ao colo do cuidadoso pai, o excelente guarda-redes com o mesmo apelido.
Devido a um problema de saúde que João pretendia que ela lembrasse menos e Teresa tentava afastar de pensamentos compulsivos, fora muito sensível aos Hospitais de Santo António e S. João acerca dos quais, quiçá paradoxalmente, estava sempre a informar-se.
A austeridade, beleza e imponência da Torre do Clérigos deixaram, mais uma vez, a mulher sem palavras
E fê-la recordar os passeios, em miúda, à região da Invicta com os progenitores e a tia materna, o pai interessado na Praça do Bolhão, no calçado que se vendia no Porto, as visitas demoradas, à estação de S. Bento, os cumprimentos aos colegas ferroviários, o brilho nos olhos ao ver locomotivas, a mãe e Bárbara extasiadas com tudo o que as rodeava.
Só se zangaram com o marido e cunhado, numa das praias de Matosinhos, ele a nadar, como de costume, em ondas bem grandes que ultrapassava, com categoria, perante a aflição e gritos delas e a estupefacção da filha.
(Teresa-menina achava tudo natural no progenitor e bem feito por ele.)
Na véspera da partida, João tinha perguntado a uma senhora, depois de saída, apressada, da Igreja de Santo António das Antas, quando oravam por intenção dos filhos (um possível meliante assediou-os e amedrontou-os, sós no templo), sem nada que impedisse a visibilidade do Estádio do Dragão do local onde se encontravam:
– Vamos bem por aqui para o “Dragom-e”, se faz favor?
A portuense olhara, desconfiada, para Teresa que abanara a cabeça e olhara para o marido com um ar aborrecido.
Andaram por toda a parte exterior do Estádio, obra monumental que, por um pouco, os silenciou.
Ela comprou (mais) um cachecol, viram Campanhã, mesmo à frente – aquela filha, neta, bineta, bisneta e trineta de maquinistas eufórica e orgulhosa por, dentro dela, animizar a importante estação.
Foi-lhes permitido olhar bem para as bancadas, a partir do topo Norte, e o dragão, altivo, na parte superior, exterior, era uma graça.
Pelo menos para Teresa.
– Este é o melhor, o mais bonito!
O marido riu-se e não se conteve:
– Visto pelo teus olhos, “isentos e azuis”, com te diz, e bem, o Rui Madeira, talvez…
Saíram do Estádio a sorrir.
À despedida do Porto, já em Campanhã, uma técnica da CP, na bilheteira, perguntara a Teresa:
– Conhecemo-nos de onde?
E a barreirense, depois de fitar a jovem durante uns momentos:
– Ah! Lembro-me de si, ainda nas Antas; às vezes venho ver jogos ao Porto.
– Com as pessoas de Lisboa?
E sem deixar Teresa responder:
– Lá é que se quer ver quem é portista!
Vocês são gente de coragem!
Despediram-se como se se reencontrassem dali por uns dias.
O “Alfa” já corria e deliciava o casal, ao deixar tão bela região.
– Marido, estes dias que bons foram!
Quanto às conferências…
– São para e por um Portugal de todos.
Contactaram com os filhos, através dos telemóveis, como acontecia várias vezes por dia.
O casal encostou as cabeças e sonhou com um País (bem) melhor.
Que quis ver quando, em Janeiro do ano seguinte, foi, numa visita de estudo, com um grupo de docentes e estudantes de Educação Visual e Tecnológica da Escola Superior onde Teresa exercia, a de Setúbal (em edifício também premiado e da lavra do Arquitecto Siza) encontrar-se, em Serralves, com parte da obra de Paula Rego e também visitar o Museu Soares do Reis.
Comer muito bem com os companheiros.
À portuense e à portuguesa.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos
14.5.2012 - 12:26
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Manuela Fonseca |
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Agradeço aos leitores, comentadores e a quem recomendou este trabalho.
Bem hajam. |
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