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“Juanito”: a Mina de S. Domingos e Barreiro
Por Manuela Fonseca

“Juanito”: a Mina de S. Domingos e Barreiro<br>
Por Manuela FonsecaNuma dessas tardinhas a anteceder a pesca, Juanito teve súbita vontade de aprender a ler e escrever. Chegado a casa, verbalizou à mãe essa forma de saber e dignificação, tão arredada, ainda, do seu povo. A progenitora olhou para o rapaz, a fazer-se adulto, e pediu a Deus que o ajudasse nessas e nas outras tarefas.

(À Mariana Máximo Balseiro)

Uma rusga policial, na Andaluzia, na região de Huelva, tinha roubado o companheiro a Maria Ramos, Pepe del Sol, naquele Inverno de 1958.

No regresso de Portugal, o homem fora atingido por tiro certeiro – o que já acontecera com vários companheiros, contrabandistas, e voltaria a passar-se nos dois lados da fronteira. Nem todos os cuidados com que entravam no rio Chança ou o torneavam, junto à Corte do Pinto, no Concelho de Mértola, e Paymogo, no país daquele, evitavam os fatais encontros.

Após o funeral e os dias, primeiros, de inconsolável luto, a mulher, e os filhos, duas meninas, Maria, Cristina e um rapaz, catorze anos bonitos e desembaraçados, “Juanito”, dirigiram-se de carroça para Portugal, caminho, inverso ao de Pepe. Foi uma viagem cheia de sofrimento, principalmente para uma das crianças, ainda bebé.

O moço ajudou todas, corajosamente, como se fora o progenitor, durante aquele tempo de sobressaltos que nunca mais acabava. Providenciara os cobertores, a comida, pedida pelas crianças e escassa, abastecera os jarros com água, quando a encontravam, sem esquecer a mula que, ofegante, os levava como podia.

Com muitas dificuldades, lá chegaram à Corte, onde toda a gente calculou quem eram os forasteiros por saber, consternada, o que se passara, dias antes – e tanto temia por alguns dos seus.

Mulheres e homens, caridosos, tiraram-nos da carroça por uma hora, deram-lhes sombra, abrigo, água, migas e presunto aos mais velhos, leite às pequenas, sem esquecer o muar, extenuado, que parecia não aguentar muito mais.
Luís Sena (quando, quase duas décadas depois, eclodiu o 25 de Abril, ele já fizera a última viagem e, finalmente, a boa pessoa que todos nele tinham reconhecido, foi entendida como militante comunista), conduziu, num dos actos de solidariedade em que era pródigo, o veículo até à Mina de S. Domingos, a cerca de três quilómetros, em plena actividade laboral naquele tempo em que a extracção da pirite não parava e os comboios da mesma até eram muitos até ao Pomarão – no porto, os barcos esperavam para a transportar através do Guadiana e seguir, depois, outros caminhos.

Chegado o grupo, as pessoas acorreram ao Largo para ver a família sem o seu esteio. Sena disse às mulheres que chamassem os companheiros mais perto para se tratar da inesperada situação.

Aposentados e trabalhadores de diferentes profissões, na superfície, organizaram-se e, ainda que tementes, foram pedir aos representantes dos donos da Mina para a família andaluza ficar numa casa, há muito vaga e com um pequeno quintal, perto do Hospital, o que, com a admiração deles, foi aceite – mais uma vez a união fizera a força.

Os que tinham chegado, momentos antes, de Serpa, na “camioneta da carreira” – e que puderam fazê-lo – também ajudaram a levar os espanhóis, felizmente para perto.
Dos parcos recursos, as habitantes organizaram-se e levaram-lhes alimentos e roupa: “É para ‘atamancar’, Maria. Percebes?”

A mulher agradeceu-lhes, tratou das meninas, deitou-as e viu o animal ser limpo, alimentado e posto à sombra, junto do pessegueiro e das duas laranjeiras.
Ela e o primogénito fizeram a higiene e comeram o que a generosidade alentejana lhes levara.
E caíram num sono, entrecortado por pesadelos de ambos, onde viram a emboscada, os tiros e o desaparecimento do marido e pai. Pepe já não voltaria a dizer ao miúdo que lhe via a inteligência nos olhos e actos e, também, uns pelos a despontar-lhe no rosto; estava orgulhoso do rapaz.

A mulher, trinta e dois anos enérgicos, teve convite de duas inglesas para as ajudar nas lidas domésticas e levar as meninas com ela – algo pouco vulgar na época e, quiçá, ainda hoje.

Maria adaptou-se e as garotas também – as filhas juntavam-se aos pequenos de outra etnia, o que, na prática, dava razão aos teóricos e aos pedagogos que sabiam que o convívio e a educação levavam às relações, amistosas, entre pessoas de diferentes origens, sobretudo se habituadas a isso desde cedo.

Os ingleses nem sabiam o que dizer daquela ideia das suas mulheres, tão diferente da frieza que mantinham com as gentes da terra; encolhiam os ombros e fingiam esquecer a célebre falta de convívio deles com outrem – aqueles ciganos espanhóis eram algo de novo na Mina.

(Acerca da indiferença dos orgulhosos britânicos, os alentejanos comentavam, jocosos:
– Ora, ora, se não querem viver ao pé de nós, nem sequer no outro mundo, pois não vivam! Ao menos deixam-nos sossegados no nosso cemitério! E neste mundo! O nosso cinema sem eles é uma beleza!

Se os do Norte da Europa imaginassem a unidade hoteleira que, Democracia e décadas depois, seria instalada no principal edifício da sua Administração?!)
A Guarda Fiscal nunca importunou os andaluzes, verdade seja dita, na crença, verdadeira, da vida transparente que levavam. Que Deus tivesse Pepe em paz.

O rapaz começou a ser chamado para ajudar o aguadeiro, o que fazia com tanto cuidado que aquele lhe dava água em boa quantidade para a ter em casa.
Começou a soar que “Juanito” era solícito e chamavam-no para que desse “uma mãozinha” na pequena praça, a troco de comida para ele e os seus.

Desconfiadas, algumas vozes a intrigavam:

– “Bia”, o moço é cigano, vê lá se te engana nas contas…

– Pois, Hermínia, tal não acontece. E é por ser bom nelas que lhe peço para me ajudar, ora tu!

– “Blé Cardeira”, toma lá atenção, dás-lhe água e ele não leva mais sem tu veres?

– Não digas asneiras, Luís! Saiu-nos a sorte grande com o rapazito! Assim sejam os meus miúdos quando crescerem!

Se tinha algum tempo livre, o jovem mergulhava nas águas da Tapada Grande, pela qual – como tantos da Mina de S. Domingos e visitantes – tinha grande devoção. Fazia o que via: nadava e lavava-se como devia ser. Vinha para terra e deitava-se no chão, embevecido pelo aroma dos eucaliptos, a ouvir o minério a ser arrancado e conduzido pelas vagonetas. Pescava depois o muge(m) com um aparelho que tinha inventado. A mãe aprendeu, com as vizinhas, a fazer uma sopa com esse peixe que até a mais velha, comia, devagarinho, as espinhas amorosamente retiradas por Maria.

A mulher começou a fazer o prato para as patroas inglesas - o azeite sobre as batatas e as cebolas em camadas, salsa, muito poejo (ou, em alternativa, hortelã. Ambos poderiam ser substituídos por coentros), tomate, pimento, colorau e água que bastasse; acrescentado o sal, deixava tudo ferver bem e servia uma refeição excelente. E a sopa de ovos, abertos na água fervente com os condimentos que utilizava para o peixe, também as deliciava. Mais as migas e a açorda de bacalhau. As súbditas de Sua Majestade engordavam…

Numa dessas tardinhas a anteceder a pesca, Juanito teve súbita vontade de aprender a ler e escrever. Chegado a casa, verbalizou à mãe essa forma de saber e dignificação, tão arredada, ainda, do seu povo. A progenitora olhou para o rapaz, a fazer-se adulto, e pediu a Deus que o ajudasse nessas e nas outras tarefas.

Numa noite, houve espectáculo de saltimbancos, palmas para as piruetas, muita cor, gargalhadas. Até os parentes de fora, de vez em quando uns dias na casa dos seus, participaram na festa do terreiro, seguida de baile, com o tocador de acordeão, Joaquim, um dos mais folgazões dentro das galarias e “lá em cima”.
Mimi Horta, aposentada de dezenas de anos de ensino, matou um pouco a solidão, com a festa daquela noite; soube ali do gosto do moço em aprender e resolveu ser útil no que podia.

Com ela, os livros, os cadernos, as gravuras e o material de escrita que lhe ofereceu, Juan chegava à História, Geografia, Ciências, e, em prática bem organizada, a mestra levava-o, às vezes, nas “camionetas da carreira”, a Mértola, onde a fauna, a flora, o Guadiana e a memória de outros povos e tempos interessavam o cigano, cada vez mais entusiasmado, a traduzir o que via e sentia em composições que, pouco a pouco, lhe melhoravam as competências na Língua Portuguesa.

A Aritmética, a Geometria, o Desenho, para que tinha intuição e aptidões, ajudaram-no no dia do exame da quarta classe, o fato de um rapaz inglês, já numa Universidade do seu país, numas provas orais que provocaram palmas de muitos que a elas puderam assistir, a mãe e a mestra entre lágrimas.
Quatro anos feitos em dois e estava pronto para entrar na contramina e nela ganhar o sustento da família de forma mais regular, ainda que mais perigosa.

Juanito e Antonieta Ramião, origem étnica, ainda que afastada, idêntica à do rapaz, apaixonaram-se e o namoro foi levado muito a sério por ambos e as respectivas famílias – Maria voltara a sorrir e a recordar os primeiros tempos com del Sol. As irmãs gostavam de Antonieta e, às vezes, esquecidas as diferenças de idade, até brincavam com a jovem.

Em mais dois anos, apesar do trabalho, tão pesado e difícil – que lhe causou, bem como a outros colegas, um acidente que o pôs um mês no hospital e outro na recuperação, todo o pessoal clínico exemplar nos cuidados e dedicação, a Enfermeira Antónia Madeira, pelo porte e maneira especial de estar na vida, a ser tratada por todos por “mamã”, designação que bem se dava com as mulheres de África, Continente que lhe deixara vestígios e em quase toda a família, na pele e no cabelo.

No regresso ao activo, nem os maçadores turnos impediram àquele homem de fibra e coragem, a conclusão do quinto ano liceal, primeiro, a secção de Ciências, com a ajuda do Engenheiro Próspero, o Liceu Nacional de Beja a receber o primeiro cigano que a fazia, emoção pelo saber e o ar decidido de Juan Ramos.
A área de Letras foi cumprida com a ajuda da Dr.ª Ana Seguro que, após a aposentação, quarenta anos deixados num Liceu feminino de Lisboa, voltou à sua Mina, encanto de sempre. (Como nadava bem, aquela senhora já com uma certa idade!)

Promovido, passou, em 1965, para a área administrativa e casou com Antonieta. Um tempo a dois imaginado para sempre na Mina, com umas pequenas férias de Verão em Monte Gordo, hábito dos poucos da terra que conseguiam tê-lo. E haveria, claro, passeios ao Pomarão e na região, até poderem visitar Lisboa; afinal, conhecer a capital concretizou-se bem mais depressa do que alguma vez tinham idealizado.
Em 1966, a Mina, na sequência de boatos postos a circular pelos donos, os de que o minério estava a escassear, esquecida a fleuma, encerrou, sem a mais pequena consideração pelos trabalhadores, desempregados de um momento para o outro. Até os carris e as travessas da primeira linha de caminho-de-ferro que houve em Portugal, entre S. Domingos e o Pomarão, para o transporte da pirite, que depois seguiria pelo Guadiana, foram, selvaticamente, arrancados.

(Nunca serão punidos os que tanto têm lesado este Portugal de sacrifícios, repetidos, na História, para as classes trabalhadoras? Nunca mais?)
O irmão de Manuel Patrício vivia no Barreiro, tinha um sótão, e o clã Ramos veio para a vila-operária, temporariamente naquela divisão. “Zé” Patrício trabalhava na “União”, ou CUF (a Companhia União Fabril), e levou Juan para os escritórios da empresa.

Apertados, todos, no sótão e com os gases que não paravam, muito passaram os Ramos nos primeiros tempos.
– Que pesadelo! Para quem veio de sítio tão arejado, ai, ai! Eu que saía da contramina e tinha logo ar puro…
Vagou-se uma casa numa das ruas perto do Parque, hoje, “Catarina Eufémia”, então com o nome do ditador, e lá foram os Ramos – seis assoalhadas e um quintal para poderem estar e acolher o aumento da família, o que veio a acontecer alguns meses depois.

José António, nome em homenagem aos avós, foi grande alegria para todos, lágrimas e, finalmente, muitos sorrisos para Maria Ramos que ficou a tomar conta do pequeno com o emprego da nora, junto ao marido, e as matrículas das filhas na Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, de onde saíram cinco anos depois, com a conclusão do curso de Química.

Empregaram-se em Setúbal, casaram, despediram-se do Barreiro. “E depois do Adeus” delas, foi o da repressão – o 25 de Abril, o 25 de Abril da Liberdade, das boas expectativas, de euforia ímpar no Portugal contemporâneo chegou.
O cidadão barreirense João Ramos – que conseguiu que a mãe também passasse a ser nossa compatriota – ficava à vontade com a nova nacionalidade: tinha a certeza de não ir fazer guerra a povos de África.

Hoje, o Dr. João Ramos, sociólogo, passeia com os netos e os das irmãs na Avenida (“da Praia”) Bento Gonçalves, olha para as pessoas de etnia cigana que estão ali. Fixa esses irmãos – as mulheres aos beijos aos filhos mais pequenos, os maiores, desocupados, em tropelias à vista de todos e que ninguém ousa reprimir, ou referir-lhes.
E João Ramos sonha com tempos, outros, mais felizes, para eles e os outros cidadãos. Do Barreiro e do Mundo.
A vida da família Ramos deu azo a muitas narrativas, várias entrevistas para a Comunicação Social e trabalhos académicos; passou fronteiras.

(E eu, na simplicidade de contista, deixo-a assim aos estimados leitores. E, subitamente, desejo voltar, em breve, à Mina de S. Domingos e à Corte do Pinto maternas. De honradez e saudades.)

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

27.7.2012 - 20:03
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