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MEMÓRIAS DE UM AGENTE EM MACAU
Por António Manuel Fontes Cambeta

MEMÓRIAS DE UM AGENTE EM MACAU<br>
Por António Manuel Fontes CambetaFoi assim que passei a ser um Polícia e durante o tempo em que pertenci aos quadros da PMF vi e aprendi imensas coisas.

Tentei sempre ser um Polícia exemplar embora talvez nem sempre o tenha conseguido. Este é o dilema das pessoas sérias.

Em agosto de 1966 passei à disponibilidade em Macau, não regressando a Portugal com a Companhia de Caçadores 690 a que pertencia.

Decidi ficar em Macau, em virtude de a namorada que tinha em Portugal me ter trocado por outro amor, e fui trabalhar para uma agência de navegação que representava também vários produtos portugueses, o vencimento esse era muito menos de metade do que ganhava no exército como Furriel Miliciano, sem quaisquer regalias adicionais, mas era o primeiro passo de integração em Macau..

Foi uma experiência enriquecedora pois passei a tomar conhecimento "in loco" das realidades do território bem como das suas gentes para o que tive de aprender o dialecto cantonense.

Quando a oportunidade surgisse tentaria arranjar um emprego no Governo, para tal, e embora tivesse o Curso Comercial, matriculei-me no Liceu de Macau onde concluí o sétimo ano.

Nos primeiros dias do mês de dezembro de 1966 ocorreram vários tumultos de vulto em Macau, quando os comerciantes e serviços de transportes locais recusavam vender ou prestar serviços aos portugueses. Valeu-me nesta situação a minha namorada chinesa.

Tinha na altura vinte e dois anos e estes acontecimentos fizeram-me pensar maduramente no futuro.

Em maio do ano seguinte surgiu a oportunidade de ingressar na função pública, através das páginas do Boletim Oficial de Macau, onde era anunciado a abertura de concurso para o posto de Subchefe da Polícia de Segurança Pública

Reunindo todas as condições exigidas, enviei toda a documentação pedida, ficando aguardando a publicação no Boletim Oficial.

Fui chamado para frequentar um estágio de preparação, que frequentei durante um mês, três horas por dia.

Todas as matérias administradas eram já do meu conhecimento e como tal não tive qualquer dificuldades. Três antigos camaradas do exército, naturais de Macau, igualmente concorreram mas nenhum deles participou no est;ágio, não queriam dar-se a esse trabalho e eles lá sabiam o porquê...

Na noite anterior ao dia do concurso, esses meus antigos colegas me pediram que nos encontrasse/mos no restaurante Belo, sito na Avenida Almeida Ribeiro, afim de lhes dar umas lições sobre as matérias que iriam sair no concurso, e de boa fé o fiz.

Chegado o dia do concurso, que era constituído por três provas, uma escrita, outra pratica e a terceira oral, todas elas me correram da melhor forma e como tal esperava uma óptima classificação.

Isso não veio a acontecer porque fiquei colocado no décimo sétimo lugar, como se pode ver nos Avisos e Anúncios Oficiais, publicado em Boletim Oficial no. 24 de 17 de junho de 1967, havendo na altura somente dezasseis vagas.

Vim a saber mais tarde ter havido fraudes nas provas afim de beneficiar agentes de primeira classe da PSP e os meus ex-camaradas do exército!...

A razão era bem simples. Os agentes da PSP que tivessem concorrido por duas vezes e ficassem reprovados no terceiro concurso, ou foi o caso de alguns, passavam compulsivamente para a reforma.

Os meus ex-camaradas, que tinham até sido meus alunos no exército, ficaram classificados em décimo segundo e décimo quinto lugares, pelo "mérito de saberem jogar futebol"!

Não satisfeito com a classificação, através de um advogado tentei recorrer dos resultados do concurso, passado pouco tempo este declinou representar-me, bem como a alguns agentes da PSP, alegando fortes pressões vindas de instâncias superiores!

Juntamente com alguns agentes da PSO, também lesados no concurso, decidimos reclamar junto do Comandante da PSP, informando-o da fraude que existira no concurso, pois para além do dinheiro pago por vários agentes para terem boa classificação, vários menbros do júri não tinham comparecido nas provas práticas.

E por isso a maioria dos agentes concorrentes, que pouco ou nada sabiam e com apenas a quarta classe, apesar das provas desastrosas, como ficou provado na prova escrita, ficaram à minha frente e iriam ser promovidos em breve a Subchefes!

O Comandante, concorcando em parte comigo, disse-me que em breve iria ser aberto outro concurso e que nessa altura me daria uma vaga.

Esta resposta teve o condão de me irritar esclarecendo-o que estava ali para reclamar do concurso e não para pedir quaisquer favores, vinha somente pedir para se repor a verdade.

O concurso tinha a validade de dois anos, como mandava a lei, durante o primeiro ano foram promovidos a Subchefes dezasseis dos concorrentes, incluindo os meus dois ex-camaradas de armas.

O próximo a ser promovido seria eu, tendo ainda esperanças que isso viesse a acontecer.

Cheguei até a ser assediado por um Chefe da PSP que desejava reformar-se, se isso se verificasse a hipótese de eu entrar como Subchefe era bastante grande. Contudo o tal Chefe queria que eu e um outro Subchefe que também seria promovido a Chefe, lhe pagassemos cada um, a quantia de duas mil patacas!

Como se tratava de uma quantia exorbitante para a época, recusámos a oferta ficando aguardando a nossa vaga.

Ainda havia esperanças que entretanto se dissioaram quando o Boletim Oficial veio publicada uma Portaria anunciando que devido à má situação económica do Território, ficavam suspensas as entradas e promoções na Administração Pública.

Esta Portaria estava ferida de ilegalidade porque revogava um Decreto-Lei!

Tudo isto prova que naquela época tudo era possível fazer-se em Macau...

Quem fosse justo e andasse dentro da legalidade, acabaria certamente por ser prejudicado, como ocorrera no meu caso. Se o advogado tivesse aceite a causa que o solicitei, o caso seria enviado para o Tribunal de Moçambique e as coisas levariam anos a serem resolvidas, facto esse que o causídico, pressionado pelas estâncias superiores recusou-se a seguir com o caso.

Passado um ano a situação financeira do Território já estava mais desafogada, sendo necessário preencher os quadros das polícias, tornou a ser aberto concurso para Subchefe da PSP, concurso esse que não quis participar, decidindo submeter-me às provas de acesso para agente de segunda classe da Polícia Marítima e Fiscal, tendo ficado sido classificado em primeiro lugar.

Nunca mais pensei na PSP embora tivesse cárias oportunidades para poder concorrer novamente. A primeira experiência tinha sido tão negativa que me desinteressei completamente, mas vim a saber que o Chefe da Secretaria da PSP, um Comissário, devido aos fraudes no concurso a Subchefe a que me submeti e a um concurso de agentes de segunda classe para primeira classe, foi condenado a uns anos de prisão e expulso da PSP, porém a verdade desses mesmos concursos nunca foi reposta.

Foi assim que passei a ser um Polícia e durante o tempo em que pertenci aos quadros da PMF vi e aprendi imensas coisas.

Tentei sempre ser um Polícia exemplar embora talvez nem sempre o tenha conseguido. Este é o dilema das pessoas sérias.

Enfim, no entanto no computo geral, nem tudo foi negativo, embora tenha sido muitas vezes prejudicado devido às alterações havidas nos regulamentos sempre que cocorria a um posto superior.

Contra todos os regulamentos e leis em vigor desempenhei as funções de Adjunto e de Comandante de Divisão, funções essas que só podiam ser desempenhadas por um Comiss;ário Principal.

Isto não é um lamento mas apenas um desabafo, pois felizmente a pensão que recebo é suficiente para poder levar umna vida desafogada.

Podia ser melhor, mas para uma pessoa não ambiciosa no que diz resoeito à parte monetária chega para se ir vivendo.
Haja saúde.

Nos episódios seguintes irei relatar algumas passagens interessantes, vividas como Polícia, podendo os prezados leitores tiraram as suas conclusões.

António Manuel Fontes Cambeta

NOTAS BIOGRÁFICAS

Natural de Évora, filho de humilde sapateiro, estudou na Escola Comercial e Insdustrial de Évora onde concluu o Curso Geral de Comércio, trabalhou vários anos na firma Titan em Évora, com a idade de 19 anos alistou-se como voluntário no exercito e tirou o Curso de Sargentos Milicianos em Tavira, sendo depois destacado para Aveiro onde ministrou uma recruta, sendo mobilizado para o ultramar, seguindo para Évora onde foi formada a companhia de Caçadores 690, seguiu depois para Extremoz onde ficou cerca de 4 meses, de lá embarcou numa automotora e seguiu para Lisboa onde embarcou no navio India, rumo a Macau, tendo feito escala em Luanda, Lourenço Marques, Nacala e Singapura antes de atracar em Hong Kong.

Prestou serviço como Comandante Militar da Ilha da Taipa durante cerca de uma ano passando depois para o quartel da Ilha Verde em Macau, onde a seu pedido passou à disponibilidade em Agosto de 1966, tendo ficado em Macau, e isto devido à moça que namorava, o seu primeiro e único namoro uma portuguesa o ter trocado, ficou triste e meteu-se nos copos, tendo baixado ao hospital, onde conheceu aquela que é a sua esposa já fez 44 anos, e por Macau e pelo Oriente ficou, Reformado desde 1992, vai vivendo entre Macau e a Tailândia. Gosta de escrever. A sua escrita, por ter passado muitos anos naquela zona do globo onde o português é uma língua morta, snete os efeitos dessa vivência.

Agora, aqui no Rostos, vai editar alguns textos que são as MEMÓRIAS DE UM AGENTE EM MACAU. Memórias essas que começaram a ser publicadas pelo Jornal Tribuna de Macau e agora partilha nas nossas páginas.
As aventuras de um português no mundo.

29.7.2012 - 12:22
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comentários

nome: kira
comentario: é como muita alegria que te vejo por aqui, no jornal mais lido do distrito de setubal e não só, o rostos.pt. a tua imensa vivencia por essa ásia, onde me recebeste principescamente há anos, vai dar aos leitores histórias de encantar. sê bem-vindo, toi cambeta. abraço. gama
nome: Diogo Santos
comentario: Já não se sabe, ou não se quer, escrever em português! Depois, a culpa é do A.O.... Uma publicação, qualquer que seja, tem (será mesmo que tem?) obrigações de pugnar pela Língua! E não me venham cá com cantigas, começando por ignorar os comentários de quem se preocupa com isso...

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