Saltar para o conteúdo
Colunistas

Por António Matias LopesA quem pertence a pergunta sobre o desemprego no Barreiro?

Há uma pergunta que me chega com uma regularidade que já deixou de ser coincidência: o que fazer ao desemprego no Barreiro? Fazem-ma como quem pede a um médico um diagnóstico à distância, na expectativa de que a experiência internacional em regeneração urbana e a proximidade a este território me tenham dado, nalgum momento, uma resposta que ninguém, nestes últimos nove anos, foi capaz de dar.

10 min de leitura
Por António Matias Lopes A quem pertence a pergunta sobre o desemprego no Barreiro?

Por Jornal Rostos

Devo, por honestidade, devolver a pergunta a quem tem o mandato, os orçamentos e o dever político de lhe responder: ao Governo e ao presidente da Câmara Municipal do Barreiro.

Não é fuga. É rigor. Confundir quem observa uma cidade com quem a governa é o primeiro sintoma de uma esfera pública que desistiu de exigir contas a quem as deve prestar. E, no entanto, compreendo por que a pergunta acaba sempre a bater à porta errada. Porque, do lado de quem devia responder, o silêncio tem sido a política mais consistente dos últimos nove anos.


Para perceber a dimensão do que está em causa, é preciso recuar. O Barreiro não é uma cidade qualquer a braços com o desemprego; é uma cidade que foi, durante quase um século, a capital industrial do país, moldada pela CUF e por uma cultura operária que lhe deu identidade, orgulho e uma estrutura social inteira, bairros, coletividades, clubes, sindicatos, um modo de vida organizado em torno da fábrica. Quando essa fábrica se apagou, não desapareceu apenas emprego: desapareceu o eixo que organizava a vida coletiva da cidade. É esse o fenómeno que descrevo, no trabalho de investigação que desenvolvo sobre a erosão dos centros urbanos, como uma centralidade dissociada, uma cidade que continua a ocupar um lugar central no mapa, na história e na memória coletiva, mas cujas funções económicas, sociais e simbólicas se dispersaram ou se esvaziaram. O Barreiro não perdeu o lugar; perdeu a função que justificava o lugar. E é essa dissociação, não a falta de betão novo, que está na raiz do desemprego estrutural que hoje o atravessa.

É por isso que a pergunta que me fazem tem, quase sempre, um pressuposto errado: o de que a solução é técnica, uma questão de engenharia de projetos, quando é, antes de mais, uma questão de decisão política sustentada no tempo. Não vi, nem no discurso nem na ação do executivo camarário, uma preocupação estruturada com este problema. Vi, isso sim, uma outra prioridade, mais fotogénica e infinitamente menos exigente: a produção de imagem.


Chamo-lhe a instagramização do executivo, a vontade, pouco contida, de transformar cada intervenção urbana em conteúdo de exibição de poder, como se o problema do Barreiro fosse estético e não estrutural. Como se dezenas de hectares de território devoluto, patrimónios industriais por reconverter e uma população que envelhece sem alternativa de emprego qualificado tivessem todos a mesma solução: reconfigurar o ADN da cidade através da imagem, rua a rua, inauguração a inauguração. Já aqui escrevi sobre a intervenção na Miguel Bombarda e sobre o modo como uma requalificação de espaço público pode ser tratada como acontecimento simbólico em vez de resposta a uma necessidade estrutural. O mesmo padrão repete-se noutras áreas da governação local: vi o executivo empenhar-se em decisões desportivas de visibilidade mediática imediata, o vereador do desporto a proclamar "colar o Barreiro a Lisboa", enquanto um clube com o significado histórico do GD Fabril, símbolo vivo da cultura operária que fez esta cidade, continua votado ao abandono, ironicamente no mesmo período em que a autarquia assina proclamações de princípios sobre os "Valores Fundadores do Desporto". Há aqui uma economia simbólica, no sentido em que Sharon Zukin a descreve: cria-se capital de imagem para consumo político imediato, enquanto o capital real, o que gera emprego, retém população qualificada e atrai investimento produtivo, continua por construir. É ainda o que Pierre Bourdieu chamaria capital simbólico convertido em capital político sem nunca passar pelo capital económico que uma cidade como o Barreiro precisa antes de tudo o resto.


Os números, quando existem e são publicados com rigor, não deixam margem para ambiguidade retórica: uma população que envelhece a um ritmo superior à média da região de Lisboa, uma taxa de atividade económica que não acompanha a qualificação crescente de quem sai das escolas e universidades do concelho, um tecido empresarial que continua dependente de sectores de baixo valor acrescentado, e um território industrial vastíssimo, heranças da CUF, das antigas instalações químicas e metalúrgicas, que continua, décadas depois, à espera de um projeto de reconversão à escala do problema. Nenhuma fotografia de inauguração resolve isto. Resolve-se com o que continua por fazer: diagnóstico publicado, plano com prazos, orçamento afeto e responsáveis identificados.

Regeneração urbana a sério não se mede em fotografias de inaugurações. Mede-se em capacidade instalada: quantas empresas se fixaram, quantos postos de trabalho qualificado foram criados, que reconversão houve do património industrial em ativo económico, que estratégia territorial articula o Barreiro com o Arco Ribeirinho Sul e com a centralidade metropolitana que se está a redesenhar a sul do Tejo. É esse o tabuleiro onde se joga o desemprego, não no filtro da fotografia da última cerimónia.


Vale a pena olhar para os casos que estudo e que já aqui tenho trazido como referência, não como modelos a copiar mecanicamente, mas como demonstração de que a reconversão de bases industriais é possível quando há estratégia sustentada no tempo. Bilbau não se refez com uma escultura de titânio: o Guggenheim foi o resultado visível de um plano de trinta anos, o Bilbao Ría 2000, que articulou reconversão portuária, descontaminação de solos industriais, nova rede de metro e atracão deliberada de investimento antes de qualquer inauguração fotogénica. Hamburgo, na HafenCity, precisou de mais de duas décadas de planeamento paciente, faseado em quarteirões sucessivos, para transformar 157 hectares de docas obsoletas na maior operação de regeneração urbana da Europa, sem nunca sacrificar o processo à pressa de um mandato eleitoral. Gante recuperou o seu centro histórico através de décadas de política de mobilidade e de habitação que devolveram população residente ao núcleo urbano antes de pensar em turismo. Bolonha fez da reabilitação do património e da economia do conhecimento universitário o eixo da sua reconversão pós-industrial. San Sebastián combinou requalificação da frente marítima com uma estratégia cultural e gastronómica de escala internacional, mas sempre ancorada num tecido produtivo local que a autarquia protegeu e qualificou.

Nenhum destes casos se resolveu num mandato, e nenhum se resolveu com produção de imagem. Resolveram-se com continuidade estratégica entre executivos sucessivos, algo que o Barreiro nunca teve a oportunidade de experimentar, porque cada ciclo político parece começar do zero simbólico, sem herdar nem devolver um plano de fundo.

O que separa estes territórios do Barreiro não é vontade individual nem falta de talento local, é a existência de instrumentos institucionais dedicados e estáveis. Bilbau criou uma sociedade de capitais públicos dedicada exclusivamente à regeneração, com mandato técnico blindado da alternância política. Hamburgo fez o mesmo através da HafenCity Hamburg GmbH. O Barreiro, por comparação, gere o seu território industrial devoluto dentro da estrutura genérica dos serviços municipais, sem uma agência de desenvolvimento local com mandato, orçamento e prazos próprios, capaz de negociar diretamente com investidores, gerir os fundos de Portugal 2030 e do PRR disponíveis para reconversão de território industrial, e prestar contas publicamente sobre metas de emprego criado, não sobre metros quadrados de calçada requalificada. Sem esse instrumento, qualquer plano fica refém do calendário eleitoral, e é exatamente essa refém que explica a repetição do ciclo: promete-se regeneração, entrega-se imagem, e o problema estrutural transita, intacto, para o mandato seguinte.


Há ainda uma dimensão que a produção de imagem tende sistematicamente a esconder: a fuga de população qualificada. Uma parte significativa dos jovens que o concelho forma, nas suas escolas secundárias, nos cursos profissionais, nos que seguem para o ensino superior em Lisboa ou em Coimbra, não regressa, precisamente porque não encontra no território um mercado de trabalho à altura da sua qualificação. É um duplo custo: o Barreiro paga a formação e outros territórios colhem o retorno produtivo. Nenhuma estratégia de regeneração é séria se não incluir, como eixo central e não como nota de rodapé, a criação de emprego qualificado capaz de reter esta geração. Sem isso, o esvaziamento demográfico e funcional que descrevo como centralidade dissociada apenas se aprofunda, e a cidade perde, geração após geração, a massa crítica de que precisaria para se reinventar a partir de dentro.

E, ao contrário do que a inação sugere, o Barreiro tem hoje uma janela de oportunidade territorial que raramente se repete. A construção da Terceira Travessia do Tejo, ligando Chelas ao Barreiro, e a centralidade que o novo aeroporto do Montijo vai imprimir a toda a margem sul, criam um potencial de atracão de investimento e de emprego qualificado que qualquer cidade europeia gostaria de ter à sua porta. É precisamente nesta janela, que se mede em poucos anos, não em décadas, que a diferença entre um executivo estratégico e um executivo de imagem se torna mais visível. Aproveitar esta centralidade emergente exige negociação ativa com o Governo, articulação metropolitana séria, capacidade de atrair investimento privado para o território industrial devoluto e uma estratégia de qualificação da população local para que o emprego criado não passe ao lado de quem já cá vive. Nada disto se resolve com uma rua bonita fotografada ao pôr-do-sol.


Fica por isso a pergunta que devolvo ao executivo camarário, e que é afinal a única que interessa: que Barreiro querem entregar ao próximo executivo? Uma cidade cuja imagem foi tratada, mas cuja base económica continua por reconstruir, e cuja janela de oportunidade territorial se fechou por inação? Ou uma cidade que, nestes nove anos, tenha finalmente colocado o desemprego, a reconversão industrial e a qualificação da população no centro da agenda, e não como pano de fundo de uma narrativa de poder? Não peço promessas novas, já ouvimos suficientes. Peço três coisas concretas, mensuráveis e verificáveis por qualquer munícipe: um diagnóstico público e atualizado do desemprego e do território industrial devoluto; um plano de reconversão com prazos, orçamento identificado e responsáveis nomeados; e uma agência ou estrutura dedicada, com mandato técnico que sobreviva à alternância política, capaz de negociar investimento e prestar contas sobre metas de emprego, não sobre metros de calçada requalificada.

As pessoas que me perguntam pela solução merecem mais do que a minha experiência a título privado. Merecem um executivo e um Governo que assumam publicamente que o problema existe, o meçam com dados, e apresentem um plano com prazos e responsáveis, não mais uma imagem. Devolvo, por isso, a pergunta a quem a deve responder primeiro. Mas deixo também aqui um compromisso, não como substituto de quem governa, mas como barreirense que não se resigna ao silêncio: se este executivo continuar, como até aqui, incapaz de apresentar essas respostas, estarei disponível para colocar ao serviço da cidade a experiência que construí em quatro continentes na regeneração de territórios com o mesmo desafio, a reconversão de bases industriais em novas economias urbanas. Não para ocupar o lugar de ninguém, mas porque uma cidade não pode continuar a ficar refém do tempo de quem não tem soluções.


António Matias Lopes-Investigador Urbano- FEUC/CES

Setembro 2026

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção