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Por dentro dos dias – Barreiro>
Há vida, muita vida numa cidade…

Por dentro dos dias – Barreiro><br>
Há  vida, muita vida numa cidade… “Sabe, eu leio o Rostos há muitos anos, todos os dias. Durante o dia trabalho e há noite vou ao Google para ler as noticias. As noticias do Barreiro, que lá encontro são do Rostos. Por isso todos os dias o que sei do Barreiro é pelo Rostos”, disse-me ela.

Hoje, pela manhã, sentei-me na esplanada, para tomar o meu café e, calmamente, saborear o meu cachimbo, enquanto lia poemas e textos das duas edições de ORPHEU. Apeteceu-me reler, após, ontem à noite, na RTP 2, ter partilhado o documentário sobre Mário de Sá- Carneiro.
Vou lendo e desdobro o meu pensamento em recordações. Imagino os barcos da minha infância a sair na barra do Guadiana e um navio vermelho a rasgar as ondas do Tejo, saindo do Porto do Barreiro. Imagino D. Quixote, vestido de ganga azul ou cinzenta. Leio e divirto-me.
Um homem, que desconheço, perguntou se podia sentar-se ao meu lado, para fumar um cigarro. Ali esteve. Fumou, fazendo-me companhia. Por fim, disse-me : “Posso dizer-lhe uma coisa”. Respondi que sim. Ele comentou: “Sabe, o mundo da mulher hoje é muito perigoso. Noutro, tempo não”. Olhei os seus cabelos, brancos como os meus. Sorri. Ele levantou-se e seguiu seu caminho. Ele lá sabe.
Chegou uma amiga minha. “Há tanto tempo que não te via!”, comentou.
“Eu sabia que vinhas aqui hoje e sabia que te ia encontrar”, respondi. Dei-lhe um abraço e um beijo. O marido ao seu lado, sorriu e disse-me: “Estás um homem”. Uma amizade que se perde na memória do tempo, que vivi e fiz desta a «minha terra» - Lavradio.
A Cila lá estava nas suas leituras. No Café, os clientes de todos os dias. Um ritmo de vida. Depois há os ausentes, aqueles que o tempo vai levando. Quando chego, ali, pela manhã para comprar o pão quentinho matinal, costumo dizer : “Bom Dia!”, rasgando o silêncio.
«Isto demora muito. É que eu não gosto de esperar», acrescento.
Esta zona, aqui nos Loios, acho interessante. É como um pequeno «centro Comercial». Há vida. Um nicho económico, num bairro dormitório. Tenho pensado que no Barreiro, há dispersos nichos desta natureza, espalhados em diversos recantos do concelho, são estes espaços que dão a dimensão do conceito «concelho-cidade». Deviam todos eles ser motivo de avaliação – o que contam em postos de trabalho, em dimensão económica na vida local e que contributo dão para que exista vida e quotidiano activo no concelho. Devia existir um levantamento das actividades especificas e promove-las, divulga-las, potenciando na comunidade e no concelho. Dar a dimensão da força endógena da cidade.
Mas nem tudo resiste. A livraria fechou e sinto um vazio, a ausência matinal do jornal. Vejo as noticias na net ou televisão. Mas falta esse cheiro diário e o ‘saborear’ as páginas impressas.>

Há dias, fui cortar o cabelo, aqui, junto à minha porta, tinha por hábito ir a outro lado. Decidi começar a ser cliente na vizinhança. Foi a segunda vez que lá fui. Estava sentado. Entra uma senhora com uns quadros de bordados. Vinha feliz. Mostrava o seu trabalho, realizado em aulas da UTIB. Perguntei se a professora era a Brásia. Ela responde que sim. Então, na próxima aula pode dar-lhe um beijo meu. Identifiquei-me.
A cabeleireira, então perguntou-me : “O senhor é do Rostos?”. Esclareci que sim.
“Sabe, eu leio o Rostos há muitos anos, todos os dias. Durante o dia trabalho e à noite vou ao Google para ler as noticias. As noticias do Barreiro, que lá encontro são do Rostos. Por isso todos os dias o que sei do Barreiro é pelo Rostos”, disse-me ela.
Senti, afinal, que o trabalho que realizo diariamente, com muita paixão, vale a pena. Aliás tenho consciência dessa realidade. Mas, assim, num encontro inesperado conhecer uma leitora de anos, com a qual me cruzava regularmente, é gratificante.
Ah, é verdade, também um destes dias, uma empregada de caixa de um minimercado, voltou-se para mim e disse-me : “Ei conheço-o. Vi a sua fotografia, não sei onde. Ah, já sei foi no facebook do Rostos”.
Dou comigo a reflectir sobre estes micro acontecimentos e penso como, na verdade, há mais vida que a vida que alguns pensam que uma cidade é, mexe, ou tem, porque vivem, todos os dias, enterrados nessa epopeia que os afasta do mundo real. Principalmente os políticos, esses, por vezes, acham que a informação é politica e que deve existir para servir os políticos.
Estes pequenos registos, levam-me a pensar que há vida, muita vida numa cidade e fico satisfeito por sentir que o Rostos contribui para dar vida e rostos à cidade. E faz parte dessa vida, do quotidiano das pessoas que vivem e fazem a cidade.
Bom, por hoje fico por aqui, vou continuar a ouvir estes sons melódicos de Beethoven - Silêncio - que escuto ao escrever esta crónica …amanhã regresso.

António Sousa Pereira

27.04.2016 - 23:01

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