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Inferências – Barreiro
Quais as marcas dos mandatos autárquicos? (II)

Inferências – Barreiro<br>
Quais as marcas dos mandatos autárquicos? (II)Emidio Xavier, teve o mérito de abrir vários dossier’s que, sem dúvida, foram marcantes, e, ainda são nos dias de hoje, sendo referências que foram continuadas e desenvolvidas no pensar e fazer Barreiro

Depois das notas, no artigo anterior, sobre os mandatos de Helder Madeira e Pedro Canário, façamos agora uma reflexão sobre o mandato de Emídio Xavier.
Em primeiro lugar, referir que foi o primeiro presidente da Câmara, eleito após o 25 de Abril, que não é natural do Barreiro, e, até hoje, assim continua, porque de facto foi o único “não autóctone” a exercer o cargo.

Emídio Xavier sentiu a sua eleição de forma inesperada, mas, pode dizer-se que foi uma vitória fruto de um trabalho politico que teve como base uma ampla discussão de temas sobre o concelho, um trabalho politico de envolvimento de sectores sociais diversos, para além, muito para além do PS. Um trabalho politico que tinha na sua essência colocar em debate uma visão de cidade, um projecto para o concelho. Uma abordagem das potencialidades do território no contexto da AML.
Um trabalho que, diga-se, teve por trás a criação de condições politicas fruto da liderança de Aires de Carvalho que, na verdade, soube unir e criar um “dique de contenção” ao nível interno de forma a conter ambições. O seu falecimento afectou todo o processo de consolidação politica – o dique rebentou – e, então, Emidio Xavier ficou com dois meninos nas mãos o PS e a CMB, misturando-se, de facto, muitas vezes, as lutas internas com a gestão autárquica. Foi aquilo que se viu…

As propostas eleitorais de Emidio Xavier eram visionárias e inovadoras. Colocou, por exemplo, a temática do Turismo como uma força dinamizadora da vida económica local, num tempo, em que ainda Lisboa começava a abrir as portas a esse futuro. Daí o projectar-se a marina na zona do Rio Coina.
Lançou o repto propondo a desconcentração de serviços regionais ou mesmo ministérios para o Barreiro, dando ao território da Quimiparque uma utilização de ligação à cidade e afirmar-se como continuidade do centro da cidade.
Foi o tempo da Quimiparque promover o Masterplan. O ambicioso projecto imobiliário e de implantação de serviços ou indústrias não poluentes.
Emidio Xavier, tal como os seus antecessores, encontrou uma autarquia com debilidades financeiras e, seguiu as politicas que já eram prática corrente de pedido de empréstimos e de orçamentos inflacionados. Só que as receitas baixaram. As urbanizações começavam a entrar em retrocesso e com menos receita geram-se desequilíbrios.

A gestão de Emídio Xavier de maioria relativa contou a solidariedade de Mendes Costa, eleito pelo PSD, mas esta relação nunca foi pacifica para certos sectores do PS. O PSD era combatido como “inimigo” e não como um aliado.
Por exemplo, Mendes Costa , através do seu pelouro, geriu a concretização de umas das obras mais importantes do mandato de Emídio Xavier, a abertura da avenida que liga Casquilhos à Quinta da Lomba. Uma via estruturante e com visão de futuro. Um investimento de 690 mil euros.
Quando da abertura desta via, em vez de se valorizar a obra estruturante a nova via geradora de mobilidade e fluidez alternativa de trânsito a obra que tinha dimensão, optou-se por inaugurar os 400 metros de ciclo via. Coisas.
Na Urbanização dos Loios foi feita uma das maiores e melhores intervenções, no centro do bairro, com criação de zonas verdes, estacionamentos, passeios, onde não existiam, uma obra do pelouro de Mendes Costa, não foi inaugurada, nem sequer foi noticia. Enfim.

O mandato de Emidio Xavier abriu no terreno o dossier POLIS, aceitando que fosse feita uma redução do espaço de intervenção que estava planeado pela gestão de Pedro Canário , criaram-se as condições para avançar com a primeira fase da obra, o prolongamento da Avenida da Liberdade.
Emidio Xavier inaugurou o AMAC – Auditório Municipal Augusto Cabrita, obra que estava lançada por Pedro Canário.
Outra marca do seu mandato foi a construção da Passagem desnivelada da Recosta, pondo ponto final à situação que condicionava o trânsito e o acesso ao Terminal Rodo- Ferro-Fluvial.

Foi inaugurada a escola do Ensino Básico dos Fidalguinhos, o Centro Comunitário do Lavradio – que já vinha do mandato de Pedro Canário.
Uma intervenção nos passeios da Avenida Alfredo da Silva, com calçada portuguesa, visando a qualificação do espaço público, é, outra das marcas da gestão de Emidio Xavier.

Outra matéria inovadora, dando passos decisivos para abrir a agenda da Mata da Machada na vida local, foi a criação do Centro de Educação Ambiental da Mata da Machada.

No mandato de Emidio Xavier arrancou a construção da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, nos Fidalguinhos.
Outro investimento que começou a ser projectado na sua gestão foi a Urbanização do Campo das Carvoarias, onde, posteriormente, nasceria o Forum Barreiro.

Uma das marcas politicas de grande importância nesta primeira gestão socialista foram os debates inovadores em torno da revisão do Plano Director Municipal, ou, até da elaboração do Plano Municipal do Ambiente.
Neste mandato acabaram as barracas no concelho do Barreiro, com a finalização dos realojamentos de famílias na Quinta da Mina, na Cidade Sol, que começou na gestão de Pedro Canário. Uma situação que gerou um problema sociológico e alguma conflitualidade.

Foi o tempo do nascimento da Feira Pedagógica, de gestação de um novo conceito de Festas do Barreiro, assumindo um tema anual e a vertente de Festas de Nª Srª do Rosário, assim como a criação da zona de Tasquinhas, e, a MEI – Mostra Empresarial e Institucional, agora, pomposamente dita BARRIND.
Foi o tempo da criação da UTIB – Universidade da Terceira Idade do Barreiro.
Foi o tempo da criação do Espaço J, inicialmente no espaço da antiga Biblioteca Municipal.
Foi o tempo da Ilustrarte, uma iniciativa que acabou perdida porque, afinal, nunca se encontrou com as estratégias da “vida cultural municipal”, vivida pelos serviços autárquicos.
Foi o tempo da implementação do conceito «Barreiro Cidade Desportiva», que ficou pelo caminho em gestões seguintes, mas, que, na verdade, era uma matéria merecedora de uma ampla reflexão.

Foi o tempo em que chegaram, ao nível da Higiene Urbana os Moloks e as Ilhas Ecológicas, foi o tempo de ruas floridas e um grande empenhamento no embelezamento dos espaços públicos.

E, por fim foi o tempo de arranque da SIMARSUL que foi o pontapé de saída para a construção da ETAR.

Estas, são algumas das marcas da gestão liderada por Emídio Xavier, que falhou em termos de comunicação, de relação com a comunidade, que se perdeu em guerrilhas internas, não se sabendo muitas vezes onde começava a CMB e acabava o PS e vice versa.
Havia um mundo real e um mundo imaginário, essa dicotomia, culminou com a apresentação, em véspera de eleições do projecto «Cidade do Cinema».
Apesar de uma ideia força de Emidio Xavier ter sido – “o melhor do Barreiro são os barreirenses”, o diálogo com a população foi pouco eficaz.
Entretanto, talvez um ano antes das eleições Carlos Humberto, que seria o candidato que lhe retira a presidência, andou pelo terreno, falando com as pessoas e instituições, fazendo um trabalho de formiguinha, enquanto o PS fazia um trabalho de cigarra, que, na verdade, sendo útil, em politica de cidade não é tudo – é preciso falar e fazer.
Ou por outra, é preciso ter visão e projectar futuro, mas, não esquecer de fazer cidade quotidianamente.

Emidio Xavier, teve o mérito de abrir vários dossier’s que, sem dúvida, foram marcantes, e, ainda são nos dias de hoje, sendo referências que foram continuadas e desenvolvidas no pensar e fazer Barreiro – o dossier da ligação do Barreiro ao rio; o dossier das potencialidades do território da Quimiparque/ Baía do Tejo; o dossier da importância do desporto na vida económica e social do concelho; o dossier do Turismo; o dossier da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina.
São tudo temas em aberto, portas de futuro.
Emidio Xavier deu contributos para a importância de se pensar um projecto de cidade, contando para tal, neste caso, com o saber de Luis Pedro Cerqueira. Mas, na verdade, quase tudo ficou ao nível da percepção.
Emidio Xavier era muitas vezes um bombeiro de piquete, com constantes saídas de emergência a apagar fogos. Faltava-lhe o suporte de retaguarda de Aires de Carvalho.
E, como se costuma dizer a CDU não ganhou as eleições, foi o PS que perdeu.

Um dia em conversa com Emidio Xavier disse-lhe: “Saiu-lhe a sorte grande ter pedido as eleições”.
Ele sorriu…

António Sousa Pereira

Nota – Em próximo artigo abordarei os mandatos de Carlos Humberto que, desde já sublinho, foi o presidente da Câmara Municipal do Barreiro que, neste anos de Poder Local, mais contribuiu para levar as agendas do Barreiro aos governos – quer do PSD/CDS, quer do PS - motivando o Poder Central para colocar o Barreiro na agenda de desenvolvimento da AML e do país.

30.09.2018 - 16:07

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