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Por dentro dos dias – Barreiro
Pensar o tempo em que o Tejo era uma «rua da vila»…

Por dentro dos dias – Barreiro<br>
Pensar o tempo em que o Tejo era uma «rua da vila»…Há uma grande diferença do tempo em que a viagem de barco no Tejo, era fazer do Tejo uma rua da vila e, aquilo que é a realidade actual, onde , a viagem no Tejo é como percorrer um «túnel silencioso», que liga as duas margens…

Por vezes, em certas narrativas (gosto mais de narrativas que de percepções, porque ao menos na narrativa toca-se a linguagem, nas percepções fica-se só no sentir), mas, dizia, nos tempos de hoje, quando se quer valorizar a centralidade no Barreiro, escuta-se muitas vezes, de forma serena e convicta, aquela afirmação: “O Barreiro está a 15 minutos de Lisboa”.

Sim, teoricamente é esse o tempo que, por via fluvial, demora a viagem entre Lisboa e Barreiro, e, vice-versa. Sim, teoricamente, porque na prática para poupança de custos de combustível, todos sabemos que o tempo é superior, e, para além disso, o tempo não começa na viagem, começa no tempo de espera, no número de carreiras, frequência e regularidade, diferente ao longo do dia e da semana para os fins-de-semana, depois, a acrescentar, a viagem não termina no cais, prolonga-se pelas ruas da cidade, e, no caso do Barreiro, de há muito somos uns privilegiados, porque contamos com os TCB’s, mesmo com as suas insuficiências e lacunas, que, afinal, acabam por ser um custo no orçamento municipal que vale muito, mesmo muito e, foi, certamente um dos factores que mais contribuiu para evitar uma maior sangria de população, no período pós-industrial.

É por isso que quando se diz que Barreiro está a 15 minutos de Lisboa, eu prefiro que se diga o tempo real da travessia fluvial, que normalmente se situa mais próximo dos 25 minutos. Porque de nada serve viver de ilusões, ou querer mudar a vida por passos mágicos. A realidade é o que é, é vida.
Eu, até sou do tempo que a viagem demorava 30 minutos. Era um tempo que a viagem era feita e quando dávamos por nós já se estava a atracar na outra margem.

Era um tempo que o pessoal conversava no barco. Existiam tertúlias, de jogos de cartas, de beber cerveja, de conversa politica, de fumadores, de fazer crochet, de trocas de livros ou discos.
Era um tempo que muitos se apaixonavam nos barcos e rasgavam caminhos para a vida. Era um tempo onde, até, os amantes cruzavam as pernas a sorrir para o lado, porque os bancos estavam frente a frente, e, quase sempre todos metiam conversa com todos. O barco era assim, como um «largo da vila», ou uma «jangada da vila», a navegar diariamente entre as duas margens. A vida das ruas continuava nos barcos, conversava-se, sorria-se, coscuvilhava-se, beijava-se, a vida tinha um sabor humano. Olhava-se olhos nos olhos.

É verdade, não havia telemóveis, nem tablets. Hoje a viagem que demora os tais “15 minutos” parece mais longa, não há espaço para conversar, viajamos todos de costas uns para uns outros. Ninguém se olha nos olhos. E todos se dedicam aos likes. A viagem perdeu os sorrisos entrou na modernidade, o mundo virtual. A viagem é feita de silêncio.
No outro tempo, no tempo em que eu viajava no barco, pelo Tejo, havia um silêncio que era mais forte que a repressão, que nos calava, antes do 25 de Abril, e, ali, escutavam-se palavras que eram mais, muitos mais que sons de uma terra virada para o protesto, eram palavras de esperança. Uma esperança que se esfumava na desindustrialização – no Barreiro e em Lisboa. Sim, porque a desindustrialização não foi só no Barreiro, também se sentiu em Lisboa. Só que em Lisboa, nasceu o Parque das Nações, e, no Barreiro, ainda surgiu a Quimiparque, que se tornou uma bolsa de resiliência, evitando que se transformasse em absoluto num espaço fantasma.

Nesse tempo, dessas viagens de 30 minutos de barco, Lisboa olhava para o Barreiro e via aquela nuvem de fumo a marcar a paisagem, por isso, o Barreiro ficou marcado por essa mancha de trabalho e milhares de postos de trabalho a marcar a sua paisagem e a sua vida.

Hoje, muitas vezes, quando olhamos para Lisboa, ao fim da tarde, somos nós que vimos aquela mancha de «smog», as fumaças da poluição, fruto de milhares de carros que entram na cidade e podiam não entrar, se existisse melhor e mais eficaz serviço público de transporte fluvial e ferroviário. Se existisse a TTT do Tejo, ligando Barreiro a Lisboa, por via ferroviária e colocando, de facto, em verdade, o Barreiro a 10 minutos de Lisboa e dentro da sua linha de Metro.
Penso em tudo isto, quando escuto aquele frase, feita de ilusões e marketing, mas eles lá sabem o mundo que constroem nas suas cabeças, eu apenas penso, e como penso, interrogo-me. Isso, apenas isso.

É que Lisboa não está a 15 minutos. Lisboa está ali, mesmo ali, nós olhamos e vemos.
Mas, depois, sentimos que Lisboa está, na verdade além, sim além, no outro lado.
Lisboa quando olha para o Barreiro, não diz: o Barreiro está ali, nem sequer pensa, ou se incomoda que o Barreiro esteja a 10, 15 ou 25 minutos. O Barreiro para Lisboa ainda continua a estar além, e quem para cá viver, e começam a ser muitos, vem com saudade de Lisboa, porque em Lisboa está tudo, tal como dizia o poeta – “pelo Tejo (que é de Lisboa) vai-se para o mundo”.

O problema é que o Tejo continua a ser de Lisboa e enquanto o Tejo for apenas o rio de Lisboa, nós continuamos a estar além, na outra margem, o outro lado – a margem sul.
A margem sul é cada vez mais, o Barreiro, Seixal, Moita e um pouco Sesimbra.
É isso, o que fica para além – Barreiro, Moita, Seixal e Sesimbra.

Lisboa quando olha para Almada, não diz que Almada está além, diz Almada está ali – Almada é ali, está aqui, a 10 minutos, é por isso que não é preciso fazer muito esforço para colocar diariamente milhares de turistas de Lisboa, ali, em Cacilhas.
E, Almada abraça Lisboa, faz parte de Lisboa, e, pelo que me consta, um destes dias, nos próximos anos, até a Costa da Caparica vai começar, para Lisboa, a estar ali, mesmo ali, pois, já se fala que pode arrancar o túnel pelo Tejo, que vai ligar a Trafaria a Algés. Pois, e, de facto, se assim for a Caparica fica mais dentro de Lisboa que Cascais. Força, Inês Medeiros!

Alcochete e Montijo, que em tempos estavam também além, desde que foi construída a Ponte Vasco da Gama, deixaram de estar além, para Lisboa, já estão ali, um ali da outra Lisboa, aquela que nasceu no Parque das Nações. Se não tivesse sido a crise da troika, Montijo e Alcochete, hoje, eram mais, muito mais, uma complementaridade dessa Lisboa renovada, porque estão ali...

Mas, enfim, está aberta a porta ao futuro. E esse futuro, daqui a uns 60 anos ( pelos vistos) vai ser, inevitavelmente, o Aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete, para dar dimensão a Lisboa, aqui, nesta cidade aeroportuária. Até lá, fica essa transição dita BA6, mas isso faz parte do país que somos. Gastamos. Falimos. Recomeçamos.

E tudo, de facto, tudo isto, a propósito do Barreiro estar a “15 minutos de Lisboa”.
Porque afinal, há uma grande diferença do tempo em que a viagem de barco no Tejo, era fazer do Tejo uma rua da vila e, aquilo que é a realidade actual, onde , a viagem no Tejo é como percorrer um «túnel silencioso», que liga as duas margens…

António Sousa Pereira

03.10.2018 - 15:28

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