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Inferências - «Habemus Terminal»!
«Gostava de ver, no Barreiro, um Porto a sério»

Inferências - «Habemus Terminal»!<br>
«Gostava de ver, no Barreiro, um Porto a sério»<br>
É por isso, apenas por isso, que hoje o Barreiro, vai ser transformado na Mitrena de Lisboa. Pior. Porque a Mitrena de Setúbal, é um Porto multimodal, com projectos de futuro, que não colide, em nada, com outras dimensões da cidade, nem com a sua qualidade de vida.

No ano de 2015, entrevistei Ramalho Nascimento, uma personalidade que conhece, por dentro e por fora, a realidade portuária do Barreiro, um perito, que desenvolve a sua actividade no Barreiro, desde os tempos do Porto da CUF, quando tinha mais de 300 postos de trabalho directos, até, aos dias de hoje, naquele, que é, agora, o Porto da Atlanport, onde existem um pouco mais de uma dezena de postos de trabalho directos.

Essa entrevista foi, para mim, sempre uma referência, quando se tratava de reflectir, ou escutar as conversas em torno dos projectos de aumento da capacidade portuária no Barreiro.
Recordava as palavras, daquele senhor, especialista na matéria que, nas vivências da realidade, integrava os quadros de gestão de topo, de um porto a funcionar, aqui no Barreiro, gerido pelo maior grupo de actividade portuária em Portugal.

Outra nota, que tinha na minha mente, era uma conversa que foi promovida pelo Grupo de Reflexão Barreirense, ligado ao Partido Socialista, onde se questionou : uma actividade como esta é, ou não compatível com o Barreiro? Temos ou não temos modelo de desenvolvimento para o Barreiro?
Nessa conversa, considerou-se necessário reflectir sobre o “modelo de desenvolvimento” que se pretendia para o Barreiro e se, a vinda do porto, iria contribuir para esse desenvolvimento.
Referia-se, então, que era “possível construir um Terminal de Contentores no Barreiro”, mas, estava em aberto as dificuldades que podiam existir ao nível de infraestruturas – rodoviárias e ferroviárias.
Igualmente, ali, foram colocadas dúvidas sobre os impactos ambientais, questionando-se, se o Terminal de Contentores seria uma solução, ou se, seria o agravar dos problemas no Rio Tejo, não como um problema do Barreiro, mas um problema da região.


Estas eram reflexões que colocava na minha mente, ao escutar Ministros, Secretários de Estado, Bastonários, Autarcas, engenheiros, doutores, todos os que comentavam e teorizavam em torno desta temática.
E, foi, assim que senti a evolução do conceito, inicialmente, falava-se em Terminal de Contentores do Barreiro, depois começou a falar-se em Terminal Intermodal, um conceito acarinhado pela APL e pela CMB. Um modelo?! Uma visão?!

A questão central era pensar um modelo de cidade, um projecto de cidade, e, de que forma, a actividade portuária acrescentava cidade à cidade.

Hoje, após todos os debates que acompanhei e, até, moderei, sobre esta matéria da actividade portuária, continuo a pensar que o problema do Barreiro, no seu pós-industrialização é, que, até aos dias de hoje, não foi capaz de pensar um projecto de cidade. Que cidade quer ser na região? Que cidade pode ser na região?

Foram lançadas achas, especulações, visões, essas que foram nascendo, sempre, no calor das lutas pelo poder, no ser poder, no querer tomar o poder. Depois, ponto final. Tudo começa de novo. Do nada, porque não há nada, apenas experimentação.
Gostei de um dia, numa entrevista, registar aquela frase do então candidato à presidência da Câmara, agora presidente, Frederico Rosa, que não era o Barreiro que tinha que se adaptar à estratégia do Terminal, mas era o Terminal que tinha que se adaptar à estratégia do Barreiro. Aplaudi. Subscrevi.

E, de facto, o que acontece a uma cidade que se digladia em torno de lutas de conveniência, resta-lhe viver em torno de circunstâncias de conveniência. Porque não sabe o que quer ser, nem para onde vai…está, vai indo…!

Por fim, quem pensa a região, quem pensa o país, olha para um território que está nesta margem – um potencial – e vê, imagina, como pode dar a este espaço alguma utilidade para a capital do país, no âmbito de uma estratégia nacional, que quer valorizar Portugal como plataforma atlântica. É natural.

É por isso, apenas por isso, que hoje o Barreiro, vai ser transformado na Mitrena de Lisboa. Pior. Porque a Mitrena de Setúbal, é um Porto multimodal, com projectos de futuro, que não colide, em nada, com outras dimensões da cidade, nem com a sua qualidade de vida.
O Terminal de Contentores do Barreiro vai ser isso, e, apenas isso, uma plataforma de transição de cargas e descargas, com barcaças a transportar para a margem sul. Cá estaremos para ver quando chegarem os estudos de mobilidade.

E, nos dias de hoje, quem ousar estar contra este «modelo», que não significa estar contra o Terminal, está feito – “é um velho do restelo”, era a favor, agora é contra. Incoerência. Não foi o projecto que mudou. Foram os «Velhos do Restelo», que estavam aziados, e, agora, estão com diarreia.
É assim, tudo se resolve facilmente, primeiro reduzindo os debates e os confrontos de ideias a “doses de azia”, ou, agora mais recentemente, com outra dimensão mais profunda, regista-se, que o debate de ideias, já está no patamar das “doses de diarreia”.
Ninguém liga, até, ao facto de novas realidades que emergem na região, mesmo, no plano imobiliário, na atracção de empresas de serviços, que pode ser uma alavanca para repensar o revitalizar e requalificar todo território do Barreiro, até mesmo, o nascer do nosso Parque das Nações. Visões!

Quando escutei Bruno Vitorino, na reunião de Câmara até pensei que ia votar contra, o mesmo quando escutei o discurso da CDU. Só o “executivo socialista”, estava convicto que este projecto faz parte do seu projecto de cidade e da cidade do século XXI.
Mas, enfim, lá foi aprovado o parecer favorável ao Estudo Impacto Ambiental, com um – “sim-sim”, com «‘sim’» e com um «nim». Tudo está bem, quando acaba em bem, afinal, o Terminal vai ser uma das «âncoras» do novo modelo de cidade pós-industrial.

Voltando, às reflexões iniciais, sublinho o que era o discurso da APL, da CMB, do Governo do PSD/CDS-PP, a defesa inequívoca e convicta, não de um Terminal de Contentores do Barreiro, mas, sim de um «Terminal Multimodal do Barreiro».
Um Terminal que, como defendia Ramalho Nascimento, “a ser construído”, deveria servir “para todo o tipo de cargas”, porque se for só dedicado a contentores não via nele sustentabilidade – “porque só movimenta produtos acabados”. Talvez, por esta razão, agora, os grandes interessados são os chineses. Lá tem que ser.

E, nesta fase, após o fim do período do estudo de impacto ambiental, com a aprovação do Parecer Positivo, por parte da Câmara Municipal do Barreiro, numa reunião com uma animada discussão, que, sem dúvida – vai servir de memória futura.
A posição do executivo municipal é favorável ao Terminal de Contentores do Barreiro – com os votos favoráveis do PS e PSD, e, a abstenção da CDU.
O assunto está encerrado. Habemus Terminal!

Recordo, ainda, na tal entrevista a Ramalho Nascimento, que citei, é dito que o Porto da Atlanport tem contrato até 2025, e, que tem, ou tinha, um programa de investimentos, para aumentar a capacidade, recuperar as infraestruturas e equipamentos.
Pelo que se observa nos desenhos do Estudo de Impacto Ambiental, este porto vai continuar a manter a sua a actividade, em paralelo com a instalação do Terminal de Contentores do Barreiro.
“Gostava que se desenvolve-se um Porto a sério no Barreiro, mas tem que ser mais que um Porto de Terminal de Contentores, tem que ser um Porto Multimodal. Se for multimodal tem pernas para andar ”, afirmava Ramalho Nascimento, nessa entrevista, aqui fica, para memória futura.
“Gostava de ver, no Barreiro, um Porto a sério”. disse, Ramalho Nascimento. Registe-se.

Não sei se estou contra, nem sei se estou a favor. Começo a pensar que me é indiferente. Já vou viver pouco futuro. Tentei. Entrevistei. Comentei. Agi. Participei em debates. Tudo sempre com a ideia de ajudar a fazer Barreiro, um Barreiro que tinha que se reencontrar com um novo projecto de cidade.
Continuo a pensar que nós, barreirenses, naturais ou aqui residentes, que fizemos desta terra a nossa terra, fomos incapazes de pensar, discutir e fazer Barreiro, conceptualizar um modelo de cidade. Muita parra e pouca uva. Muitos culpados e poucos actores.
Fomos incapazes de largar amarras e construir uma nova cidade que, crescesse nesta sua pequena dimensão territorial, da Barra-a-Barra até Coina. Um território lindo. Um laboratório do fazer cidade.
Optámos sempre por fazer Barreiro com a memória da CUF, com o território da CUF. É isso que, talvez, vamos ter no século XXI. Hoje, como no passado a CUF, mais uma vez, o Tejo vai sendo aterrado.
Que lindo foi o Masterplan!
Que lindo o Plano de Urbanização do Território da Quimiparque e zonas adjacentes!
Que lindo que era o Terminal rodo-ferro- fluvial no território da Baía do Tejo.
Que linda a marina na zona do Terminal Ferro-rodo –fluvial, ali no Coina, que afinal, vai avançar no Seixal.
Que linda aquela estação ferroviária – estilo estação oriente – na zona do Lavradio!
Que lindo o cluster de artes criativas?
Tudo lindo…uma visão! Cansei-me de filmes.

Porque, afinal, digo-vos, mesmo com todas estas conversas – só vendo! Vamos lá ver se ainda vivo para ver. Talvez.
Para já, isto tudo, que se diz e escreve, é, sem dúvida, o politicamente correcto. Depois dos processos eleitorais veremos. Tudo depende dos chineses.

Afinal, para manter o clima em suspense, foi sempre mais fácil arranjar um bode expiatório. É sempre mais fácil, assim, tudo se resolve, seja pela azia ou pela diarreia. Agora está mais ao nível da diarreia.

Entretanto vamos adiando o Barreiro. Uma cidade sem projecto de cidade. Uma cidade sem estratégia.
Uma cidade que se autoflagela. Uma cidade onde o maior empregador é o estado.
Uma cidade envelhecida, que vive à conta do estado. Uma cidade de filhos e netos de comunistas, socialistas e anarquistas, que acusam os pais e avós de todos os males do mundo.
Uma cidade que vive à sombra do que foi, de saudades e recordações. Que lindo que era o Barreiro, com milhares de postos de trabalho e milhares de pessoas nas ruas nestes dias de natal.
“É Nataaal É Nataaal”, ainda escuto aquela voz do ceguinho, ali, na Rua Miguel Bombarda, no meio de uma azáfama enorme de gente.

Uma cidade destruída no seu tecido empresarial ferroviário, químico, metalomecânico, sem que fossem criadas alternativas.
Uma cidade cujo comércio foi destruído pela crise da desindustrialização e, hoje, a culpa, é o Forum Barreiro, apontado como o causador dos males do comércio local. Haja um culpado, tudo se resolve.
Uma cidade que há dez anos atrás era uma das que tinha dos mais elevados índices de licenciados na AML, e, até, um dos mais altos índices de poder de compra per capita, e, hoje, é um dos concelhos, no país, com mais baixo índice de poder de compra «per capita».

Uma cidade onde, apesar de tudo, há homens e mulheres resilientes, que lutam, sonham e acreditam…nós vamos conseguir!
Está a nascer um Barreiro novo. O meu desejo é que sejam felizes!
«Habemus Terminal»! Feliz ano novo!

António Sousa Pereira

09.12.2018 - 19:08

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