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Por dentro dos dias - Barreiro
Há dez anos o espaço murado da fábrica abriu-se à cidade.

Por dentro dos dias - Barreiro<br>
Há dez anos o espaço murado da fábrica abriu-se à cidade. <br>
Há pessoas que não gostam de evocações da memória. Outras não gostam de citações de nomes que fazem parte da memória. Enfim. Eu não vivo com a memória, porque ela é tudo o que já não existe, mas, não duvido que a memória dá-me consciência de todo o tempo que vivi. Sou feliz com as memórias que me ensinaram a ser o que sou, a descobrir-me neste presente, nesta cidade.

Pronto, cá estamos em 2019. Uma década que está a findar. Os anos cruzam-se no vento que sopra por dentro da memória. O tempo, marca da eternidade, essa, de onde partimos e para onde vamos, navegando no silêncio, melodicamente. É vida.
Hoje, pela manhã, fui deitar os meus olhos nas águas do Tejo. Gosto de mergulhar meus pensamentos nas ondas. O rio. O mar. A fonte da vida. Um mistério. A distância. O silêncio. As gaivotas. A cidade na outra margem. No meu tempo de criança, na margem do rio, todas as manhãs, olhava o outro mundo, outra língua, outra gente. Nuestros hermanos.

Depois de percorrer as margens do Tejo. Encontrei, ali, junto à Igreja de Nª Srª do Rosário, o velho pescador – Má Raça – tisnado de ondas solares nos olhos. Um sorriso único.
“Bom ano”, comentámos. Apertamos as mãos. Apertar aquelas mãos é sentir o Barreiro nas suas raízes. O rio. O mar. Gente que faz história, porque a história escreve-se quando se inscreve na vida, nas memórias e estórias, não quando se diz, apenas porque se diz, que fez-se história. O mal de algumas pessoas é que acham que a história, todas as histórias, ou estórias, começam no dia que eles inventam, ou pensam que inventam, futuro. Muitas vezes, ignoram, por narcisismo provinciano, que nós, todos nós, escrevemos a história sobre a história que herdámos. Fazer história, é muito diferente de inscrever na história. Fazer história pode limitar-se apenas, a fazer o tempo que somos, como um rio que se faz todos os dias. Inscrever na história, é marcar o tempo. Dando vida, fazendo vida. Perspectivando futuro, que também é muito diferente de percepcionar futuro. Criando. Transformando. Como diria, talvez, o velho das barbas, fácil é interpretar o mundo, o difícil é transformar.
“Um ano de cada vez, não é preciso pressa”, disse-me o Má Raça. Concordei. Sorri. Ele ficou encostado na esquina, para sentir a energia do sol.

Lá fui, sentindo aquela brisa do norte matinal a tocar a pele. Frio. Olhei o Tejo. Sempre o Tejo.
Encontrei, passeando junto à muralha, uma amiga, que, vive aquele tormento de caminhar pelos dias numa luta constante pela vida. Tragicamente. Dolorosamente.
“Não podemos desistir”, disse-lhe. “Isto vai”, diz ela, sorrindo. “Tem que ir”, comentei.

Dou uma volta pela cidade. Vou ao Forum Barreiro. Ali tomei o meu primeiro café de 2019. Encontrei a Cristina. Trocamos breves palavras e os tradicionais votos de bom ano novo.
Regresso. Passo pela Alameda da CUF, ali, na Rua da União, vou olhando a obra de VILHS, uma obra que marcou o começo do ano 2018.
Eu tenho este imenso defeito de ter memória. E quando passo pelas ruas, sinto a memória de tudo que se inscreveu naqueles lugares.
Há pessoas que não gostam de evocações da memória. Outras não gostam de citações de nomes que fazem parte da memória. Enfim. Eu não vivo com a memória, porque ela é tudo o que já não existe, mas, não duvido que a memória dá-me consciência de todo o tempo que vivi. Sou feliz com as memórias que me ensinaram a ser o que sou, a descobrir-me neste presente, nesta cidade.

Percorro a Alameda. Recordo os muros. Quando percorria aquele espaço, recordava que, afinal, foi inaugurado, ontem, em Março de 2018.
Dou comigo a pensar que este ano faz dez anos, apenas dez anos, que o território da Quimiparque deu o seu primeiro passo para ligar a «fábrica» à «cidade», com a abertura do atravessamento rodoviário entre o Barreiro e Lavradio. Um sinal que abria as portas a uma realidade inovadora, do ser cidade, do ser comunidade. A fábrica de muros, findava seu tempo. O espaço murado abriu-se à cidade.
Estas são marcas, que estão inscritas no território, que fazem história, porque rasgam os caminhos de outra história por construir.
Este acontecimento, histórico, sim histórico, o segundo passo do pós industrialização – o primeiro foi a luta contra a ETRI – marcou a abertura da fábrica à cidade, faz este ano 2019, dez anos. Afinal, apenas dez anos.
É assim que se faz história. Inscrevendo marcas nas memórias da cidade, essas marcas que contribuem para abrir portas ao futuro.
Olho a paisagem e penso, enfim, só quem não quer ver é que não vê, esta realidade, que prova na prática, sem “teorias cool”, de facto, o Barreiro mesmo nestes tempos de troika, de luta e resiliência, não parou no tempo, transformou-se e, de facto, mudou tanto nos últimos dez anos.
Dou comigo a pensar sobre este tempo vivido, neste tempo, que marca o começo de mais um ano, o fim de uma década, que anuncia outra década.
A vida não pára, mas, hoje como ontem, há velhos do restelo que teimam em parar o tempo, por dentro do tempo querendo negar as mudanças, apenas, interpretando.
É mais fácil. Difícil é transformar!
Afinal, foi só há dez anos que o espaço murado da fábrica abriu-se à cidade.

António Sousa Pereira

01.01.2019 - 20:13

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