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Inferências - Barreiro
«O que é de todos por todos deve ser decidido»

Inferências - Barreiro<br>
«O que é de todos por todos deve ser decidido»<br>
A definição de uma estratégia para este território da Quinta de Braamcamp e envolventes não é uma matéria exclusiva do PCP/CDU e do PS.
Esta matéria como se dizia, nos finais do século XX - «o que é de todos por todos deve ser decidido».

Por motivos de saúde, praticamente desde o princípio de Fevereiro que andei um pouco afastado das vivências do quotidiano da cidade. Fui acompanhando os acontecimentos pelos filtros das redes sociais. Um mundo virtual, que, de facto, espelha as ditas «percepções» do sentir cidade.
A temática da Quinta de Braamcamp foi uma matéria que fui acompanhando, porque considero este assunto como sendo o “nó górdio”, que vai marcar muito da estratégia de desenvolvimento da cidade e seu futuro.

Depois da ETRI, nos finais do século XX, que abriu o caminho para gerar uma nova visão, forma de pensar e projectar o território da antiga CUF – situação que só nos últimos doze anos começou a ganhar forma com a sua abertura ao tecido urbano – agora, neste começo do século XXI, a definição de uma estratégia para o território que vai de Alburrica, Mexilhoeiro e Quinta de Braamcamp, incluindo a estação Fluvial do Barreiro- Mar, o desatar deste nó, os conceitos urbanísticos que sejam definidos, irão marcar a cidade que queremos ser no contexto da área metropolitana de Lisboa.

Tenho registado que em torno deste assunto tem vindo a gerar-se um debate centrado num conflito partidário que coloca em confronto as duas forças politicas com mais presença na vida do concelho, aquelas, de facto, em torno das quais ao longo dos anos o eleitorado opta por escolher quem gere os destinos do concelho. Na realidade, a base eleitoral do concelho, de esquerda, divide-se entre o PCP/CDU e PS. São estas as forças políticas que marcam a alternância.

Mas, a definição de uma estratégia para este território da Quinta de Braamcamp e envolventes não é uma matéria exclusiva do PCP/CDU e do PS. Esta matéria como se dizia, nos finais do século XX - «o que é de todos por todos deve ser decidido».
Reduzir esta reflexão estratégica sobre o concelho e a cidade a um conflito PCP/CDU versus PS, retira aos cidadãos espaço de escolha e debate de ideias.
A Quinta Braamcamp foi adquirida pelo município, ela pertence aos munícipes barreirenses, não é uma propriedade do PCP/CDU, força politica que protagonizou a sua compra, nem é propriedade do PS, que gere nos dias de hoje a gestão municipal.

Nunca ninguém na campanha eleitoral, nem o PCP/CDU, nem o PS, colocaram aos eleitores o cenário de venda da Quinta de Braamcamp.
Apresentaram-se visões. E diga-se, nunca foi descartado, nem pelo PCP/CDU, nem pelo PS, o cenário de naquele território serem realizados investimentos em parceria com privados.

Por isso não vejo qual é o drama de serem projectados investimentos privados, nem nunca senti, por parte do anterior executivo municipal qualquer problema de “dogmas ideológicos”, como também não o vejo no actual executivo municipal.
Afinal, isto dos “dogmas ideológicos”, por vezes, parece que é uma carapuça que só se pretende aplicar ao PCP/CDU. Sim, é isso, os outros não têm «dogmas ideológicos», esses, o que têm são “verdades ideológicas”. É diferente.

Enquanto o debate sobre a Quinta de Braamcamp se mantiver nestes domínios, com artimanhas de estéreis confrontos ideológicos, quem vai perder sempre, são os barreirenses e o Barreiro.
«O que é de todos por todos deve ser decidido». A Quinta de Braamcamp não é para uso de comunistas, de socialistas, de sociais democratas, de bloquistas, de democratas cristãos – que também existem, mesmo sem ter assento na Assembleia Municipal, ou outros sem opções politicas partidárias, mas com opções de cidadania, homens e mulheres que gostam de viver aqui, neste canto à beira tejo plantado.
A Quinta Braamcamp é estruturante para o futuro.

No debate que assisti ontem, na reunião da Câmara Municipal do Barreiro, registei como muito positivas duas intervenções – de Bruno Vitorino (PSD) e Rui Lopo (Os Verdes) – estas posições podem ser o ponto de partida para uma ampla reflexão, aberta, sem dogmas, com seriedade para de facto abrir caminhos.
A discussão percebi não está fechada. É um caminho que a partir de agora vai ser percorrido, como disse, e bem, Rui Braga (PS).

A discussão só se aprofundará se forem colocados de lado os “esqueletos ideológicos”, porque esses desvirtuam o debate de ideias e colocam apenas o foco num objectivo – debater a Quinta de Braamcamp como uma tema que será decisivo para conquistas eleitorais.
Este é o erro do debate – o foco estar nas eleições.
O foco do debate tem que estar na estratégia, na definição de visão para o território e o seu impacto nas envolventes, como sublinhou Bruno Vitorino.
O foco tem que estar, igualmente, nessa reflexão, colocada por Rui Lopo, que contestou a «VENDA INTEGRAL” – ou seja, deixando em aberto o debate, sobre se será necessário a venda total da Quinta de Braamcamp para atrair investidores, sem dogmas, nem verdades ideológicas.
Deve o município abdicar de ter, no futuro uma decisão sobre aquele território, sem ter que obrigatoriamente negociar com um investidor privado. Vamos criar naquela zona do concelho uma outra Baía do Tejo, só que em vez de ser do estado é de um privado.
São matérias a reflectir. Um debate que deve ser salutar, próprio de cidadãos de uma cidade livre e emancipada, que sempre se orgulhou de arregaçar as mangas trabalhar e não aceitar caciquismos, em suma, uma discussão interpartidária e entre políticos que querem o melhor para o futuro do Barreiro.

O esforço que foi feito nos últimos anos, desde Pedro Canário, Emídio Xavier e Carlos Humberto, para comprar e colocar aquele território no domínio público, tendo todos eles legado este património aos barreirenses, aproximando a cidade do rio, merece um debate que abra caminhos de futuro, e não ser um instrumento de confronto entre os barreirenses e um conflito de gerações. Tal como disse, Bruno Vitorino – este processo deve unir-nos a todos.

Então, que se desenvolva um Plano Urbanístico que envolva a Quinta de Braamcamp e as suas envolventes, que se discuta, que se promova o debate público – este é o legado mais importante da actual geração às futuras gerações.

É uma falácia dizer-se que não se pode ficar a discutir mais 15, 20, 25 ou 40 anos, sobre o que se quer para este território, ou até mesmo que, ou aproveitamos esta «janela de oportunidade», ou estamos perdidos.
A verdade, sem dogmas, é que compra da Quinta de Braamcamp não foi há décadas, concretizou-se em Dezembro de 2016 e janelas de oportunidade não faltarão. Uma pérola como esta na AML vale mesmo milhões.

O que me interrogo é o que faz correr para sua venda, sem que exista uma definição estratégica e a definição do seu papel no fazer cidade? Ou, até mesmo o seu enquadramento no falado “corredor do Tejo e Coina”?
Por mim, sou defensor que - «o que é de todos por todos deve ser decidido»!
Sem dogmas e sem estigmas!

António Sousa Pereira

07.03.2019 - 16:00

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