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Inferências
A Quinta de Braamcamp não é um território abandonado
. O proprietário é a CMB

Inferências<br>
A Quinta de Braamcamp não é um território abandonado<br>
. O proprietário é a CMBAfinal, o Barreiro na sua história teve três patrões – o da CP/ferroviários, o da CUF, e, o da expansão urbana - a Construção Civil.
Hoje, infelizmente, está reduzido ao patrão estado…mas, pelos vistos, a opção que está de novo na agenda dos políticos locais é apostar no regresso do patrão construção civil.

É necessário começar por referir que, se existe o tema Braamcamp, hoje, na agenda politica local, deve-se à coragem de tomar decisões, mesmo com criticas – eu fui dos que critiquei, por considerar que o Barreiro tinha outras prioridades, nomeadamente a resolução dos problemas da sua rede de abastecimento de águas, do seu sistema de saneamento, até, o estado da rede viária.

Falei sobre isto com Carlos Humberto, anterior presidente da Câmara, que, objectivamente, defendeu que a ligação da cidade ao rio era um potencial de grande importância para o desenvolvimento. Aceitei as opções. Percebi. Era, afinal, dar continuidade ao trabalho que vinha a ser realizado, no âmbito do programa REPARA, com a construção dos passadiços e, até a compra de parcelas de terrenos e património em Alburrica, agora, com esta decisão da compra da Quinta da Braamcamp, alargando essa visão para outro espaço do território, numa linha de continuidade e valorização da zona ribeirinha.

Sei que estava tudo em aberto, mas, feita a compra, concretizado um negócio que levou alguns anos, era necessário reflectir, dialogar com a população, abrir o dossier, avaliar caminhos e opções.
As eleições autárquicas foram ganhas por outra força politica, que defendia visões para o território – a roda gigante está na memória. Enfim, o importante era criar uma visão.

Depois, conquistado o poder, torna-se pública a opção de venda, e, até ao dia de hoje, não conheci argumentos plausíveis sobre as razões dessa opção. Nunca entendi a ligação ao conceito de cidade que se projecta. Existe uma ideia central adquirida e, portanto, sobre essa opção, pelos vistos, não há nada a fazer, antes pelo contrário, o que se faz é gerar correntes de opinião, de forma a tornar irreversível esta opção e colocá-la na opinião pública como uma espécie de “galinha dos ovos de oiro”, que vai criar emprego e vai atrair uns milhares de turistas. Portanto, quem não estiver de acordo, é porque não tem visão de futuro.
Criam-se contextos que não correspondem à realidade para induzir opiniões. O que considero mais grave é apontar-se a ideia de um espaço ao abandono. Iludindo a realidade.

Na última reunião da Câmara Municipal do Barreiro, os vereadores da CDU e o vereador do PSD, questionaram sobre um estudo de opinião promovido pela autarquia, nomeadamente que gostavam de conhecer as perguntas feitas através do dito inquérito. Foi referido que oportunamente o dito e os resultados seriam divulgados.

E, na verdade, no dia seguinte, já circulavam nas redes sociais algumas perguntas e os resultados das percentagens às respostas, veiculadas pelo Partido Socialista.
Isto é de bradar aos céus. É apenas, e só, uma falta de respeito por quem foi eleito, com os votos dos barreirenses, que representam – a CDU- 11.448 eleitores; o PSD – 3.912 eleitores. O PS que venceu com a maioria relativa obteve o apoio de 12.913 eleitores.
O desrespeito institucional não é pelos vereadores da CDU e PSD, é pelos eleitores, é pelos cidadãos que elegeram aqueles autarcas.

Afinal, cada vez mais de se confunde guerrilhas politicas partidárias com o funcionamento do órgão municipal.
Fiquei perplexo. Mas, de facto, cada vez, fico mais apreensivo e nada me espanta. Acho que, nos dias de hoje, tudo é permitido, desde que sirva para estimular o conflito partidário – tácticas e politiquices.

A politica local está a atingir o nível da vulgaridade, do diz que diz-se, das provocações sem respeito, as ofensas veladas, num casino politico onde, afinal, a roleta do fazer politica, gira em torno do apanágio da palavra democracia – de bons e maus democratas. Sim, e depois há, também. o culpado de tudo - o mensageiro.

Li com atenção, aquelas perguntas divulgadas e os resultados. Até pensei, sem outra informação complementar, se estas perguntas me tivessem sido feitas, certamente, era capaz de responder sim, porque, de facto, considero que aquele território é uma mais valia para o concelho. Eu, certamente, estaria nos 90% que concorda que a requalificação é uma mais valia para o Barreiro e para a zona ribeirinha. É natural.
Igualmente, considero essencial a requalificação urbana da zona ribeirinha. Obviamente.

O que me indignou naquelas perguntas foi aquela nota, relativa à recuperação de uma vasta zona do território de 21 hectares - HOJE ABANDONADOS. O que está abandonado não é de ninguém. Está degradado, e todos sabemos as razões.
Um dia em tempos idos, num debate filosófico, com um amigo, eu dizia-lhe, que as perguntas trazem, sempre, dentro de si as respostas.
E, neste caso, isso é óbvio, se os territórios estão HOJE ABANDONADOS, só alguém sem nexo, e sem visão, pode estar contra a requalificação e venda – 5% habitação e 95% para zonas desportivas e espaços verdes.

O problema de fundo, a questão politica central, sem qualquer dimensão de avaliação partidária, apenas no pensar politicamente a polis, a verdade é que aqueles territórios HOJE NÃO ESTÃO ABANDONADOS. HOJE SÃO PROPRIEDADE DO MUNICIPIO DO BARREIRO.
Aliás, sabemos que deixaram de estar abandonados quando foi assinado o Contrato Promessa de Compra, em 8 de Fevereiro de 2016. A assinatura da escritura foi em 19 de Dezembro de 2016. Desde estas datas pela acção politica liderada por Carlos Humberto, deixaram de estar abandonados.
Desde estas datas é que foi possível começar a pensar uma estratégia. Desde essas datas que não estão ao abandono.

E, já agora, que se saiba foi feita uma candidatura para uma primeira intervenção de limpeza do espaço e recuperação do território de forma a permitir a sua fruição. Essa candidatura não avançou. Dizem porque impedimentos atrasos do Tribunal de Contas e porque a correção da candidatura era negativa em termos de custos. Não se deixou cair, foram as exigências do Tribunal de Contas que levaram à queda. Mas, diz-se, até, que se tivesse caído a candidatura e avançado uma nova, então, seria mais benéfico.
Então, se assim era, porque não caiu mesmo e avançou uma nova? Porque, talvez, já estava decidido o que está decidido. Sim, não é vender, é alienar.

Nunca esquecer, e isso deve ser dito à população, aos inquiridos, que aquele território já não está ao abandono e, de facto, o seu estado actual de degradação, deve-se, em primeiro lugar à a falência da empresa, depois ao declínio do imobiliário.
Recordo que, mesmo que em tempos idos, se pretendeu avançar com construção do que era possível urbanizar. Isso, recordo, foi defendido na gestão de Emídio Xavier. Não avançou porque o mercado imobiliário já estava em ruptura.
Não avançou isso, nem tanta coisa – a TTT, o Masterplan, a Cidade do Cinema, o POLIS, e tanta coisa ficou pendurada.

Hoje, repito, a Quinta de Braamcamp não está ao abandono, está degradada, o que é muito diferente, mas, tem um proprietário – Câmara Municipal do Barreiro. Que não sabe o que fazer do que recebeu do anterior executivo. E a única opção que vê, e aponta como caminho é a venda. Ponto final.

Repetir, para que conste e faça fé, aqueles territórios estiveram, em sequência da falência dos seus proprietários e processos de insolvência, sem soluções, sem opções, até, mesmo, sem qualquer viabilidade de construção. O mercado imobiliário viveu nos últimos anos das crises mais dramáticas. Não sabem que existiu a troika?

Degradaram-se. Incêndios. Roubos. Sim, era uma propriedade privada ao abandono e a degradar-se. O municipio agiu para lhe dar qualidade e dar qualidade de vida à zona ribeirinha.

Aqueles territórios são hoje parte integrante de uma visão de aproximar a cidade do rio, como foi feito em Alburrica. – onde também foi necessário comprar parcelas privadas, para se chegar ao que hoje chegou e fruir com qualidade a zona ribeirinha.
Sobre Alburrica, Braamcamp, Mexilhoeiro, Clube Naval, não devia ser colocado o carro à frente dos bois, nem induzir respostas, nem fugir de uma amplo debate público, em torno da revisão do PDM, ou na construção de um Plano de Pormenor.
“A precipitação tudo destrói, porque é cega”, disse Tito Livio. Esta é a frase de hoje no jornal «Público». Fica o registo.
O problema é que o executivo municipal na sua maioria PS- PSD, apontam a venda como a melhor solução. E, para além da venda, até ao momento, não se percebe o conceito estratégico.

A CDU está contra, e, não diz quais as suas opções concretas. Fala, e, todos sabemos, hoje, pelas campanhas de rotular as suas posições politicas tudo o que vem da CDU, são considerados comportamentos de aziados. A CDU está estigmatizada, mas tem posições justas, que são aquelas que enquanto força politica tomou a decisão de comprar a Quinta de Braamcamp.
Se alguém tem autoridade moral para levantar a voz sobre esta matéria é a CDU. Mas, as correntes de opinião geradas e induzidas nas redes sociais, levam muitos a considerar que age porque tem azia, ou não tem visão, ou é retrograda.
E, na prática, hoje, quem defende posição verosimilhantes à CDU, fica na mesma rota de classificação mental.
O nível da discussão, conduz a estes contextos.

Faz lembrar aqueles tempos quando quem criticava a autarquia, era logo rotulado de reaccionário. Hoje quem critique recebe logo o rótulo de comunista.
Procura-se colar toda a gente ao PCP. Já gora, por acaso, ontem, estive a falar com um socialista, que me disse discordar das opções do executivo municipal. E sei que há mais. Se calhar, fazem parte dos tais 200 que, generosamente, são referenciados, como os críticos existentes. E se fossem 200, não merecem ser ouvidos?

O PSD exige uma definição estratégica, a ligação do território ao centro da cidade, e, tem opções, até naturais pela solução de venda apontada, porque vai de encontro à sua visão ideológica dos mercados.
Mas, de facto, está nas mãos do PSD, que as decisões que venham a ser tomadas sobre esta matéria, tenham por base com alguma visão estratégica. É o voto charneira.

A esquerda da geringonça aqui no Barreiro não funciona, aqui, a esquerda é incapaz de dialogar, e vive uma luta fratricida.
O PSD, cada vez mais, está a sentir que este conflito permite-lhe construir o seu futuro. Não me admira nada, que nas próximas eleições, pela primeira vez suba fortemente e, se calhar, entre na luta pela presidência. Já nada me admira no Barreiro. Se calhar até merece.

Voltando ao inquérito, o que registo da leitura das perguntas divulgadas, é que, qualquer uma delas contêm dentro de si os sinais que induzem a resposta, directa ou indirectamente.
A Quinta do Braamcamp não pode ser mais apenas uma “obra” para dar nas vistas, não pode ser uma matéria de uma decisão casuística. Não pode ser um mero negócio que prevê 5% de habitação.

A polémica a preto e branco sobre o vender ou não vender. É uma falsa polémica.
Não há qualquer inconveniente que se pense a venda de alguma parte. Eu não tenho. Porque não, se isso viabilizar outros projectos.
O problema não é polémica vender versus não vender, isso é para desviar o sentido do debate principal. O problema é de saber porque existe a opção de vender tudo. Isso origina que o municipio não vai ter qualquer decisão futura sobre aquela parcela do território, só terá com o acordo com o proprietário. E os acordos blindados ´desblindam-se´ em Tribunal, basta um qualquer acontecimento que coloque em causa o acordado. O proprietário tem direitos inalianáveis.

A polémica dos bons e maus, dos que estão contra e os que estão a favor. Os que querem o bem e os que querem o mal. É outra falsa questão.
Uma cidade não se constrói para socialistas, nem para sociais democratas, nem para comunistas, nem para bloquistas. A cidade é de todos, é construída para todos. O que for feito de bom beneficia todos, o que for feito de mal prejudica todos.

Interrogo-me. Porquê um campo de futebol? Só para diversão. Destinado à competição? Quantos lugares? Que estacionamento vai ser necessário? Que acessos vão ser construídos?

Um amigo, um destes dias, perguntava-me: ´Estás com o grupo Não vendas a Braamcamp´?.
Respondi não estou com grupo nenhum. Estou na defesa do melhor para o Barreiro.
Quero perceber. Quero entender. E, na verdade, há muita coisa confusa neste processo. Inquéritos. Falta de debate. Ilusões. Falsas polémicas. Excesso de politiquice. Falta uma liderança que motive o diálogo entre opções.
O que tenho assistido é uma constante barragem de propaganda, de marketing, de conversas a preto e branco, sem debate de ideias, nem de futuro.

A Quinta da Braamcamp está na agenda politica autárquica porque o executivo anterior tomou a decisão histórica de comprar aquele território.
Carlos Humberto teve um papel de referência, com base num pensar cidade e fazer cidade. Pensamento que hoje não vejo ser equacionado.

O actual executivo recebeu uma herança…e agora, por vezes parece querer deitar fora o menino conjuntamente com a água do banho. O menino lá dentro – é um menino chamado potencial - ambiental, económico e cultural.
O mais certo é o actual executivo ficar na história como aquele o que tomou a decisão histórica de vender a Quinta de Braamcamp. Vendeu está vendido.

Afinal, esta decisão, já o disse, é uma decisão que vai ser, sem dúvida, a porta que abre o caminho para a linha condutora e ideias-força para elaboração da estratégia de revisão do PDM. Não está aqui em causa a Quinta de Braamcamp, está aqui em causa a estratégia para o desenvolvimento. O resultado final é que vai anunciar o futuro.

Um concelho de expansão urbana, ou um concelho que se quer requalificado e revitalizado, que recupera estrategicamente os milhares de fogos que estão por construir e os outros que estão fechados. Um concelho centralizado na «vila», ou um concelho de sitios e lugares.
O futuro deste território de 36Km 2 vai começar naquilo que forem as decisões do processo Braamcamp!

Afinal, o Barreiro na sua história teve três patrões – o da CP/ferroviários, o da CUF e, o da expansão urbana - a Construção Civil.

Hoje, infelizmente, está reduzido ao patrão estado…mas, pelos vistos, a opção que está de novo na agenda dos políticos locais é apostar no regresso do patrão construção civil.
É isso, já se vêem gruas no Barreiro!
E, certamente, em breve existirão gruas na Braamcamp.
É o futuro anunciado. Construa-se!

António Sousa Pereira

14.05.2019 - 19:30

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