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Estar no «mapa» e fora do «mapa», eis a questão: municipalização!
Jazz no Parque versus Barreiro Rocks

Inferências<br>
Estar no «mapa» e fora do «mapa», eis a questão: municipalização!<br>
Jazz no Parque versus Barreiro Rocks Se o Barreiro fosse colocado no mapa do Jazz, só, e apenas, por promover o “Jazz no Parque”,. então, é porque não existia uma cultura de jazz no Barreiro, nem história, nem memória.

Este fim-de-semana decorreu o festival «Jazz no Parque», uma iniciativa que, pelo que foi possível registar, atraiu público quer do concelho, quer da região. Sem dúvida que o Barreiro, de há muito, merecia ter no seu calendário de eventos um projecto direcionado para o Jazz.

Várias vezes defendi essa ideia e considerava que, pelo trabalho que era realizado em torno da Escola de Jazz do Barreiro, justificava-se pensar na realização de um festival que contribuísse para dar mais visibilidade ao importante trabalho formativo que ali era realizado, com projecção nacional e colocando o Barreiro como uma referência.
O facto de existir um festival no Seixal, outro em Palmela, mais me entusiasmava para defender a implementação de um projecto no Barreiro.

Por vezes, foi referido que as dificuldades financeiras não o permitiam, porque eram muitos os compromissos, e, até, foi-me dito que o orçamento municipal na área da cultura e do desporto estava, em grande parte, cativo de protocolos e contratos-programa.

Este ano, pelos vistos, finalmente existiram condições financeiras para dar o pontapé de saída para erguer de raiz um festival de jazz. Ele aí está «Jazz no Parque», uma iniciativa daquelas integram os eventos promovidos pelo município, um projecto municipal, tendo Jorge Moniz, um barreirense, que foi um fruto da Escola de Jazz do Barreiro, um nome que é, na verdade, uma referência nacional do Jazz, que contribuiu para colocar o Barreiro no «mapa» do Jazz, neste caso, aqui e agora, a exercer a missão de Curador do Festival. Um selo de qualidade.

Portanto, este Festival «Jazz no Parque», não nasce do nada, não surge como varinha mágica, que gera um evento cosmopolita, ele, pode dizer-se não é uma semente agora lançada, é um fruto colhido de um trabalho com duas décadas, de formação de criadores e de públicos.
Não se pode ignorar, por exemplo, o papel do Be Jazz, no manter viva a chama do jazz na vida da cidade. Ou da Cooperativa «Os Corticeiros». Enfim, outras estórias.

Este festival nasce porque, na verdade, nos dias de hoje porque, fruto das decisões do orçamento zero de Manuela Ferreira Leite, das imposições da troika e da gestão rigorosa das gestões de Carlos Humberto, finalmente a autarquia tem condições financeiras que nunca, repito nunca, teve em outros mandatos, quer da CDU, quer do PS. Ainda bem.
Fiquei feliz quando soube que esta ideia se iria concretizar e, até, saudei o Jorge Moniz, logo que tive conhecimento, pois, sabia que ele sonhava com a realização de um evento desta natureza, para colocar, ainda mais, o Barreiro no mapa do Jazz.
Sim, porque o Barreiro já lá estava no mapa do jazz, pela sua escola, pelo seu filão, pelos seus protagonistas.
Há pessoas que ignoram que o Barreiro de há muito que está no mapa de muita coisa, só que em terra que não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
Se o Barreiro fosse colocado no mapa do Jazz, só, e apenas, por promover o “Jazz no Parque”,. então, é porque não existia uma cultura de jazz no Barreiro, nem história, nem memória.

É que o Barreiro há muito, mesmo há muito que está no mapa que do jazz, quer de outras realidades, faltava-lhe é recursos e promover projectos de escala, que o façam ser mais e ambicionar mais, valorizando o seu potencial e criatividade.
O Barreiro está de parabéns com a dinamização deste projecto ‘Jazz no Parque’.
Afinal, nunca vi tanta divulgação em televisão, rádio e jornais, mesmo de outros projectos que já se afirmaram como uma referência nacional e internacional, caso do OUT:FEST ou do Barreiro Rocks. Só que estes são projectos que nasceram e cresceram com o suor da sociedade civil, de gente que faz coisas por amor e não tem á sua disposição os recursos do erário público. Mantiveram-se com a energia de gente que tem na génese a cultura do Barreiro, o fazer por amor e gozo.

Pelo que sei, as verbas em torno do «Jazz no Parque» foram muito superiores aos 40 mil euros, divulgados pelo presidente da Câmara, pois seria interessante saber os valores dos custos indirectos de recursos humanos da autarquia, de direitos de autor e outros.
Talvez, no final, vá lá para os 50 mil ou, como alguém dizia, upa,upa.
Na verdade, nada se faz com qualidade sem verbas, e, mais a mais, neste caso sendo um festival com entradas gratuitas, todos os custos são suportados pelos impostos dos barreirenses.

Mas, entretanto, o Barreiro como referi tem outros projectos, outros festivais, esses como salientei, funcionam há décadas, com muito trabalho voluntário, com muita paixão, com muito amor, e, refiro de novo especificamente dois casos – Barreiro Rock’s, que nasceu numa parceria, entre a sociedade civil e associativa – Hey Pachuco – na gestão autárquica liderada por Emidio Xavier, PS, embora já existisse anteriormente pela carolice dos seus promotores.
E, também o OUT. FEST, promovido pela associação OUT.RA, igualmente, reconhecido ao nível nacional e internacional e apoiado por diversas entidades, entre as quais o municipio.

Estes dois eventos de dimensão nacional e internacional, são já uma referência e contribuem para dar visibilidade criativa ao Barreiro. São um exemplo da resiliência e do querer da sociedade civil, daqueles que fazem por amor e paixão.
Por várias vezes, sublinhei que pela resiliência estes projectos mereciam mais apoio da autarquia e, mais que serem considerados projectos de ‘iniciativa privada’ deviam ser enquadrados em politicas de promoção da cultura e do do fazer cidade.

O Barreiro ganhava e ganhava a autarquia porque potenciava o voluntariado e dava a estes projectos uma dimensão inserida numa visão inovadora do pensar e fazer cultura, na qual o municipio é motivador e abraça este projectos como seus, com raíz na história da comunidade.
O Barreiro Rocks pelo que foi dito pelo presidente da Câmara, receberia um apoio na ordem dos 5 mil euros, nas gestões CDU, e, agora o apoio é de 15 mil euros – “triplicamos”, disse.
De referir que para além dos 5 mil euros, a gestão CDU dava apoio ao aluguer do espaço, e diversos apoios logísticos, e, a gestão PS também mantinha esses apoios.

Se comparamos com o investimento do ‘Jazz no Parque’ o apoio da Câmara Municipal do Barreiro ao «Barreiro Rocks«, são trocos.
Foi-me dito que o «Barreiro Rocks» cobra bilhetes à entrada, daí que o apoio fique nos 15 mil euros. Comecei a rir, mesmo a bom rir.
Então, se a autarquia designasse o Carlos Ramos, como «Curador» do Barreiro Rocks e desse todo o apoio que deu ao ‘Jazz no Parque’, também o «Barreiro Rocks« seria, certamente de entradas gratuitas e, igualmente, poderia apostar num cartaz de mais alto gabarito, acima da sua já elevada qualidade. Teria condições para ser mais cosmopolita e também com mais qualidade. A qualidade tem custos, obviamente.

Perante tudo isto, percebo que a associação Hey Pachuco, tenha decidido bater com a porta e encerrar este capítulo da história do Barreiro. Sim, o ‘Barreiro rocks’ já se inscreveu na história do rock do Barreiro, que tem grandes tradições, e, contribui para colocar o barreiro no mapa internacional. Um público que o ‘Barreiro Rocks’ atraia anualmente às dezenas, era oriundo de Espanha.
O Barreiro estava no mapa, há décadas, através de um projecto feito com muito voluntariado, profissionalismo e paixão.
Percebo a desistência! Ser poeta todos os dias, como dizia José Gomes Ferreira, também cansa. E há uma hora de dizer basta.

E, chegamos a questão central deste assunto, não se trata de concordar ou discordar do ‘Jazz no Parque’, até pelo que foi dito, pelo presidente da Câmara as verbas para este evento, foram obtidas pela eliminação de outro evento de características municipais – o Festival de Encontros ( este feito com a parceria de diversas associações, visando promover uma cultura de multiculturalidade).
A opção foi, portanto acabar com grandes gastos de promoção de eventos autárquicos, em projectos de ‘multiculturalidade’ e fazer os grandes gastos no ‘cosmopolitismo’.
São opções que afinal, acabam por ser marcas, objectivas, de duas visões da acção politica.

Mas, a questão central é que a autarquia, esta de gestão PS, como a anterior de gestão CDU, vivem um problema real, primeiro que o orçamento na área cultural, se faz com corta de um lado e faz no outro; segundo a autarquia não abdica de querer ter o protagonismo no ‘fazer cultura”, sendo clara a grande diferença que existe entre o apoio que é dado a projectos com o ‘selo da autarquia’, de ‘municipalização da cultura’, e, os outros oriundos da sociedade civil, que são irreverentes e fogem ao ‘chapéu municipal’.

Este é o problema do Barreiro e do nosso país, que afinal, cada vez mais, tem uma sociedade civil submissa, que é gerida pelas politicas, que sobrevive com as politicas da politica, é chamada governamentalização ou municipalização da vida cultural.
Enfim, uma cultura para enfeitar, em suma, uma cultura ideológica, com raízes em dinâmicas de funcionalismo público.
Uma sociedade civil que é estimulada ao mero consumo, que fica feliz com eventos de entradas gratuitas. Pois, se paga impostos que tenha esta contrapartida.

Sou defensor de uma sociedade civil activa interveniente, que age com paixão, que sente, como diz Manuel Alegre, que “a cultura é para transformar, não é para enfeitar”.
Por isso, percebo que a associação Hey Pachuco, desista e bata com a porta e arranque para outros mundos, e rumo a outros sonhos.

Não acredito que isto algum dia mude, os mandatos de quatro anos, quando estão a começar, estão quase a acabar, e, no mundo de hoje, mais que valores que motivem a transformação, o que conta é a imagem para enfeitar.

Em suma, se por um lado estamos de parabéns pelo ‘Jazz no Parque’, uma opção com uma matriz politica autárquica, por outro lado, fico triste por sentir que uma opção de matriz de cidadania morre na praia, e, de facto, tanto que podia dar para continuar a promover a imagem do Barreiro, muito em especial na península Ibérica. É pena.
Assim, pouco a pouco vai se desconstruindo, e reduzindo o papel da cultura na comunidade, retirando, até, das dinâmicas autárquicas iniciativas culturais promotoras da diversidade e das diferenças.
Enfim somos, como sempre fomos, desde que o tecido económico entrou em decadência, um concelho onde a sociedade civil depende das instituições públicas, perdeu a sua dimensão estruturante.
E, talvez, por essa razão, o Barreiro Rocks coloca ponto final.
Percebo. Aliás, Freud explica isto!

António Sousa Pereira

03.07.2019 - 14:13

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