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Inferências – Barreiro
Do Masterplan à Cidade dos Arquivos

Inferências – Barreiro<br />
Do Masterplan à Cidade dos Arquivos Esperemos que o Poder Central, pegue nos muitos dossier’s legados pela anterior gestão CDU em parceria com a Administração da Baía do Tejo, e dê andamento à valorização daquele território.

Os territórios onde inscrevemos nossos passos, são os lugares que fazem parte das nossas memórias. Lugares onde um dia a nossa vida se fez, no fazer o tempo, no construir o tempo. O território da Baía do Tejo está inscrito na minha vida, desde o Bairro Operário, passando pelo Largo das Obras, viajando até às muralhas onde na minha juventude, o Lavradio se encontrava como o Tejo. Sim, tenho ali memórias naquele território. Cheiros. Lutas. Beijos. Sonhos. O zinco metálico. O forno Cal. Os dias de neblina do Contacto 7.
Vivi a fábrica por dentro, ali, onde o zinco se forjava em moldes, enquanto, as escórias suspensas, saltavam para o lado a ferver, empurradas pelas mãos do operário, num ritmo constante e incandescente. Um dia tudo fechou. Era um fim anunciado.
Hoje, naquele lugar, há um território, onde, o mais certo, dentro de anos, vai nascer o «Parque das Nações» da Margem sul. Já escrevi isto, no Jornal do Barreiro, quando escrevi aquele artigo que despoletou a guerrilha urbana da ETRI.
Decidam-se! Ora é o Masterplan. Ora é o projecto Arco Ribeirinho Sul. Ora é o Terminal de Contentores. Ora é um projecto de reindustrialização. Ora é um «cluster de indústrias criativas». Agora, a última é «a Cidade dos Arquivos».

Andamos nisto, desde antes do 25 de abril, quando começou a decadência industrial. Sei que há pessoas que gostam de apontar o 25 de Abril, como a causa da decadência do que já estava em decadência. Não sou eu que o digo, são investigadores que respeito, pelo rigor do seu trabalho de investigação histórica.
Gilberto Gomes, objectivamente, sublinha que numa década, nos anos 70,de antes do 25 de Abril, tempo em que a empresa CUF foi adiando investimentos que deviam ter avançado, passando depois por uma nacionalização concretizada à pressa e sem planificação, findando nos anos 80, com as “barbaridades no tempo de Cavaco Silva”, são reflexões de Gilberto Gomes, para ele, estes três momentos que fizeram daquele território uma «pérola» em pousio, perderam-se milhares de postos de trabalho, até aos dias de hoje não recuperados.
Já está, já está, pronto.

Neste entretanto, pode dizer-se que dois presidentes da Câmara Municipal do Barreiro – Emídio Xavier e Carlos Humberto - até aos dias de hoje, deram contributos de grande importância para que o Poder Central, principal e único responsável pelo estado ao que ali chegámos, coloca-se na Agenda o território da Quimiparque/Baía do Tejo.
Emídio Xavier, até sonhou com a transferência de Ministérios de Lisboa para o Barreiro. E no seu tempo entrou na agenda o Masterplan. O tempo dos TGV, da TTT – Terceira Travessia do Tejo, o NAL – Novo Aeroporto de Lisboa no Campo de Tiro de Alcochete.
Tudo ficou para trás com a troika.Mas, uma coisa é certa, com muitos planos, mesmo muitos planos, nos tempos de Emídio Xavier, o território da antiga CUF entrou na agenda local como uma esperança e o Poder Central percebeu o potencial que existia parado na margem sul, para onde podia crescer a Lisboa de duas margens. Sonhos.

Mas, nada estava perdido. Era preciso erguer e manter esta bandeira. o importante era que o poder Central, fosse ele PSD, ou PS, não colocassem de novo de lado e no esquecimento o território da Baía do Tejo. Carlos Humberto, foi incansável, quer com o governo de Passos Coelho, quer com o governo de António Costa.
Nos governos do PSD surgiram cenários. O importante era dar vida ao território da antiga CUF, criar emprego, gerar desenvolvimento económico e social. Falou-se em estratégia de reindustrialização, com as novas tecnologias. Depois veio o Terminal de Contentores, que passou pata um Terminal Intermodal – um porto com várias vertentes de dimensão europeia. Falou-se.

A conversa continuou com o Governo de António Costa, e, nisso Carlos Humberto era imparável, no diálogo com o Poder Central, no conversar na procura de soluções e propostas, quer para os territórios da antiga CUF, quer para os territórios do sector ferroviário. Algumas soluções um destes dias vão surgir, como é o caso do proejecto da Doca Seca da CP.
As relações entre a Câmara Municipal do Barreiro e o Conselho de Administração da Baía do Tejo eram excelentes e de grande cooperação. Um primeiro grande passo foi abrir o Parque ao tecido urbano da cidade.
O actual Conselho de Administração da Baía do Tejo tem feito um trabalho excelente, criando espaços inovadores, nichos de empresas e renovando a imagem do Parque Empresarial. Fez apostas claras e dinâmicas no sentido da criação de um cluster de artes criativas. O Museu Industrial em conjunto com o Espaço Memória eram espaços âncora, bases iniciáticas, que era preciso aprofundar e desenvolver.
Quanto ao Espaço Memória, afinal, agora vai ser retirado daquela área que se dizia estruturante numa visão de renovação do Parque Empresarial, como nicho cultural, com a porta de entrada no mural do Vhils.
Pelo que se diz agora, a opção é transformar o Barreiro na «Cidade dos Arquivos».

O tempo passa pelas pessoas, tal como passa pelas cidades. As pessoas envelhecem e, por sinal, o envelhecer é o acumular de experiências. As cidades também deviam, num saber colectivo, acumular experiências. Aprendizagem.
Era em tudo isto que eu pensava, hoje, ao passar naqueles territórios da Baía do Tejo. Ali, há uma experiência acumulada de saberes e de experimentações.
Quando passo por ali, o que me incomoda é saber que há quase meio século que aquele território parou no tempo, não se define uma estratégia, não se sabe, claramente o que vai ser daquele território.
Valha-nos ter existido um Sardinha Pereira, que pensou o Parque Empresarial. Valha-nos ter existido um Emidio Xavier, que motivou o Projecto Masterplan ( faça-se justiça dando sentido prático ao esboço do Arquitecto Manuel Salgado, gerado por Pedro Canário).
E, ainda, a laboriosa acção de formiguinha de Carlos Humberto, junto aos governos PSD/CDS-PP e PS, ao ponto de António Costa, numa visita expressar a sua concordância com a necessidade de construção da Ponte Barreiro – Seixal, outro dossier colocado na agenda do governo por Carlos Humberto, e, até, abordado pela Baía do Tejo, no âmbito da estratégia territorial Lisbon South Bay.

Em suma, estamos numa encruzilhada, Nada se sabe sobre o Terminal de Contentores, embora o mais certo, perante o crescendo do imobiliário na margem sul, certamente algo tem que ser prioridade, e, neste caso, as ideias do Arco Ribeirnho Sul, podem ganhar terreno.
Tudo, o mais certo, é ficar para lá do processo eleitoral. Porquê agitar estas matérias. Não vão acrescentar. Sim, se até o projecto da Tratamento dos bivalves parece que hibernou.

Esperemos que o Poder Central, pegue nos muitos dossier’s legados pela anterior gestão CDU em parceria com a Administração da Baía do Tejo, e dê andamento à valorização do território da Baía do Tejo. Que se encontrem projectos concretos, sejam de habitação (antes ali que Braamcamp), sejam de novas tecnologias que façam do Barreiro de novo uma cidade para trabalhar e uma cidade para viver.
Fica o registo, acredito que António Costa, se não avançou nesta legislatura que avance na próxima com a Ponte Barreiro – Seixal, e, um projecto na Baía do tejo como de cidade das novas tecnologias (reindustrialização), com ligações ao tecido urbano, com a transferência da Terminal Ferro Fluvial do Rio Coina, para o Rio Tejo, que fique em aberto no PDM revisto, o corredor da TTT.
O Governo que é responsável por estes 2/3 do território e, ainda, outros tantos espaços, da Mata da Machada ao território ferroviário, enfim, que nos ajude e não nos deixe ficar apenas como cidade dos Arquivos.
Uma proposta para o Barreiro é uma proposta para a Península de Setúbal. Conta muito, acreditem!

António Sousa Pereira

20.07.2019 - 01:17

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