Conta Loios

inferências

Inferências
Barreiro precisa de um «consenso estratégico sobre o património»

Inferências<br>
Barreiro precisa de um «consenso estratégico sobre o património»<br>
Se este equipamento - ex-Moinho Pequeno - foi pensado como uma das componentes de uma rede de «Centros de Interpretação do Património», então ele foi bem pensado, está geograficamente bem localizado, é, sem dúvida, um bom aproveitamento de um espaço a degradar-se e dificilmente recuperável.

No ano de 2019, o Feriado Municipal do Barreiro ficou assinalado com a inauguração do «Moinho Pequeno». Uma obra polémica, porque de “polémica permanente” é feita a vida local. Até porque vivemos um tempo em que o conta é ‘opinar’, que se sobrepõe ao ter ‘opinião’. Há mesmo quem não goste de ‘opiniões’ e considere que ter ‘opinião’ é um mau serviço para a comunidade.
O importante é ‘opinar’, e, diga-se não se deve ter ‘opinamento’ diferente de quem acha que é senhor e quem tem o mérito de definir qual a opinião que é “boa noticia’, ou, a opinião que é ‘má noticia’.

Sobre esta obra já escutei as mais diferenciadas ‘opiniões’ que vão do ‘mamarracho’ ao ‘ficou muito bonito’. E, até, reparei quem foge do tema e ‘chuta para o lado’, ou o ‘chuta para a frente’.
Isto é o fruto de em torno desta obra, existir uma pseudo discussão antropológica ou dita histórica, não se olhando para o novo equipamento com um olhar diferente, vendo o que ele mesmo pode significar esteticamente, e, igualmente, em torno dele existir uma ‘visão estratégica de fazer cidade’, e, também uma conceptualização acerca da ‘preservação ou valorização do património’.
O que se gerou foi uma conflitualidade, de bons e maus, com criticas, criticismos, adjectivações. Muita parra e pouca uva.

Primeiro estranha-se e depois entranha-se

João Pintassilgo, Vice Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, no dia da inauguração, interrogou-me sobre que pensava sobre aquele novo equipamento. Não comentei. Não quis comentar. Olhei. Observei. Reflecti. Estava numa de indiferença. Pensava mesmo, no meu silêncio – “isto primeiro estranha-se e depois entranha-se. Com o passar do tempo passa a fazer parte da paisagem e integra-se nas nossas vivências quotidianas”.
Um destes dias, resolvi e, por ali, sentar-me a olhar. Pensar as ‘impressões’ e as ‘sensações’.
E, ali, a olhar a até à caldeira dita do sangue, a primeira pergunta que me ocorreu foi : Para que vai servir este novo equipamento?
Depois, interroguei-me: Será que este equipamento se insere em algum pensamento estratégico do fazer cidade? É, ou não, um elemento que vai contribuir para valorizar o património industrial do concelho do Barreiro?
E, de pergunta em pergunta, fui tecendo uma reflexão que conduziu a estas notas soltas.

Uns dizem que foi feito um atentado ao património, que, aquilo que ali está nada tem a ver com o «Moinho Pequeno». Até, citando especialistas na matéria, afirmam que ali está um ‘mamarracho”.
E, aqui está a minha primeira discordância. Não considero que ali esteja um ‘mamarrcho’. Está ali, de facto, um novo equipamento, construído a partir do velho, que, pelo que escutei, estava irrecuperável, procurando-se com esta intervenção salvar o que era possível.
É verdade que nada tem a ver com o antigo «Moinho Pequeno”, mas está lá a sua base e, sobre a base, ergue-se um novo equipamento modernista, de linhas arquitectónicas inovadoras, um ‘design’ de modernidade onde sobre o passado nasce o presente e se projecta o futuro.
Considero que é um projecto elaborado com coragem, que tem criatividade, uma criatividade conceptual sem dogmas de fé, e até, nem tem por base o chamado ‘fachadismo’.

O projecto interliga de forma dialéctica a memória à modernidade.

Não me admirava nada se, um dia, este equipamento vier a ser premiado a nível nacional ou internacional, como um exemplo de reabilitação de património onde, de facto, estão patentes os ‘limites’ epistemológicos entre a memória e o futuro, numa visão estética que une o presente de forma permanente ao passado, enquanto espaço de transmissão de saberes e preservação de memórias. Merecia ser apresentado como candidatura de inovação cultural.

E, nisto sou levado a pensar que, na verdade, se hoje existe este equipamento moderno e inovador, tal, na verdade só foi possível porque a autarquia, na gestão CDU, o adquiriu e colocou-o ao serviço da comunidade. Até esse momento esteve ao abandono e a degradar-se. Já foi tarde. É pena. Ou se não foi tarde, quando se devia ter intervido não foi possivel. Talvez, pela mesma razão de sempre, não existir aquilo com que se compra os melões. Não estica.

E, pelo que sei, também, este projecto foi feito e até chegou a estar adjudicado, pela gestão CDU, que travou por ter dúvidas, tendo a actual gestão PS, tomada a decisão de avançar, e bem, com a sua construção, ignorando as indecisões que motivaram a CDU a cancelar e a adiar uma tomada de decisão sobre o projecto após as eleições.

A discussão em torno da obra do «Moinho Pequeno» é bem um registo das características do debate de ideias que nós temos sobre a cidade e o seu património. Não se confrontam ideias ou visões de cidade, confrontam-se percepções. O que conta é a gestão do pensamento emocional.

Há os que permanentemente adoptam uma postura que podia ser teoricamente definida como – “empiro-criticismo” – com uma total incompreensão da relação que deve existir entre a realidade e a teoria. Interpretam a partir da realidade imaginária, porque já lá não está, mas são incapazes de sentir o pulsar do novo a emergir , não percebem que o velho trás dentro de si o novo, porque o mundo é para transformar e não apenas para interpretar. É uma espécie de critica da critica critica.

Numa cidade há património e, na verdade, por muito que se deseje preservar algo tem que ficar para trás, o importante é que exista uma visão estratégica sobre qual o património a preservar de forma a deixar aos vindouros – a memória de uma época e de uma identidade.

O Barreiro tem um imenso património industrial, e, nos dias de hoje, vive uma profunda crise de perda de identidade. Há um Barreiro novo a nascer sobre os escombros da vila operária - industrial e ferroviária.
Mais que alimentar discussões sobre mamarrachos, o importante seria encontrar um “consenso estratégico sobre o património”.
O património é de todos, não é um ‘propriedade intelectual’ de esquerda ou direita, de operários ou patrões. O património industrial que ainda existe, é o que resta, e, aquele que for preservado, será o que restará para a nossa memória colectiva. O legado aos vindouros.

E, cada vez mais me convenço que é isto que falta, um “consenso estratégico sobre o património”, que defina linhas condutoras de acção sectorial, sobre a imensa riqueza inscrita no território que hoje é concelho do Barreiro.
Do património moageiro, industrial, quimico, ferroviário, da cortiça, do vidro, do bacalhau, dos descobrimentos, do brinquedo, do neolitico, do ensino, do associativismo, da música, da resistência e luta pela liberdade, do Tejo, dos pescadores, do Coina, do sal, das aves, da fotografia, ambiental, e, tanto mais que podia e devia ser inventariado, tal é a riqueza patrimonial e memorial que é possível encontrar na história e vida do território do Barreiro.
Uma visão estratégica que podia dar-lhe uma dimensão única e identitária, para fruir no quotidiano e para gerar nichos de visitação, que seriam importantes contributos para gerar emprego e desenvolvimento a curto médio e longo prazo.

Uma terra que não preserva a sua memória é uma terra sem memória. A perda da memória é a perda da sua identidade.
Por isso, o primeiro ‘pensamento estratégico’ que tem ser ‘consensualizado’´deve ser sobre qual o património a preservar, com duas ideias força associadas – que contributo para a nossa memória colectiva; que contributo para dar ao Barreiro uma dimensão de visitação. A memória e o desenvolvimento.

Em segundo lugar, definidas as áreas patrimoniais, avançar para a classificação, clarificando o que é para manter, e como pode ser mantido, o que inevitavelmente não há condições de ser preservado.
Mas, mesmo naquele património que não haja condições para o manter, ele, pode, em último recurso ser reabilitado e utilizado em novas funções. Haja criatividade.
É este o caso do ‘Moinho Pequeno’, um novo equipamento, moderno, que emerge do passado, para se afirmar no presente e no futuro como, a ‘porta cultural” que se abre e proporciona uma viagem às memórias, ali, está a porta onde se entra para o Centro de Interpretação do Património Moageiro. Visite e verá.

Depois, ligado a este equipamento, nascido de um espaço moageiro que, todos sabemos. atingiu o nível de degradação que não permitia a sua reutilização com base nas suas funções históricas, na verdade, ali mesmo, ao seu redor, seguindo pelos passadiços que ligam Alburrica ao centro da cidade, existem os moinhos de Alburrica, entre eles já visitável o Moinho de Vento, com velas – esse completamente remodelado e em condições de produzir farinha.

Não me digam que os técnicos e politicos que decidiram recuperar o Moinho de Vento, tinham sensibilidade para projectar e manter aqueles, e, para com o ‘Moinho Pequeno’, foram uns energúmenos. Por vezes, a vida é assim, o que é tem que ser, e, os edificios tal como as árvores caem de pé quando atingem nívels de degradação insustentáveis.

O importante, isso sim, agora e desde já, é que o Moinho de Maré da Braamcamp não seja vendido, que continue a fazer parte do património moageiro que seja inserido numa vertente visitação e de valorização do nosso património industrial. Mas para isso é preciso que exista a tal visão estratégica sobre o património da cidade. A inexistência de estratégia fundamenta tudo, até a venda. O imediatismo a funcionar. A inexistência de visão de cidade, de uma ideia para a cidade.

Mais que a critica da critica critica, sobre o Património Industrial e Ambiental do Barreiro, que, sublinhe-se, não é propriedade de nenhum partido, nem de nenhuma corrente ideológica, é de todos, e para todos deve ser preservado, porque faz parte da nossa identidade – independentemente de cada qual, depois, sobre ele ter a sua visão e interpretação ideológica.

Estava a dizer, mais que a critica da critica critica, o importante é forjar de forma aberta, um pensamento cosmopolita aberto ao mundo e sem preconceitos, tendo por objectivo dar ao património industrial e ambiental do concelho do Barreiro uma visão e dimensão que se afirme no contexto da Área Metropolitana de Lisboa, única forma de abrir portas ao mundo e dar-lhe escala. A Quinta Braamcamp é uma pérola que ainda está no dominio público que é estratégica neste pensar e fazer Barreiro, com dinheiros públicos e privados. Não é preciso vender,isso é vender o futuro.

Por cada área patrimonial, algumas já refenciada, outras por referenciar, há ainda muito caminho para andar, mas já há alguma coisa feita, embora muito esteja por fazer. Classificar. Historiografar. Bibliografar. Divulgar.
Existem apenas dois Centros de Interpretação a funcionar: o Centro de Interpretação da Mata da Machada ( pouco divulgado), dedicado aos fornos e à época dos descobrimentos, e, agora o Centro de Interpretação Moageiro, no Moinho Pequeno.
Sobre matéria ambiental, existe o Centro de Educação Ambiental da Mata da Machada, com um trabalho meritório em parceria com a comunidade educativa.

E, tudo isto que escrevi foram pensamentos que ocorreram a propósito das perguntas que coloquei a mim mesmo quando olhava o novo Moinho Pequeno, integrado na paisagem e nos passadiços da modernidade.
Entretanto, é importante tratar da caldeira envolvente para lhe dar biodiversidade e beleza natural. E, por favor, esqueçam essa aberração da «praia de ondas»!

Para que vai servir este novo equipamento?
Será que este equipamento se insere em algum pensamento estratégico do fazer cidade?
É, ou não, um elemento que vai contribuir para valorizar o património industrial do concelho do Barreiro?

Se este equipamento foi pensado como uma das componentes de uma rede de «Centros de Interpretação do Património», então ele foi bem pensado, está geograficamente bem localizado, é, sem dúvida, um bom aproveitamento de um espaço a degradar-se e dificilmente recuperável.
Estão de parabéns os técnicos e o politicos – CDU e PS - que tiveram a coragem de decidir e de construir, agora, assumam sem preconceitos, não temam as opiniões, nem as redes sociais, onde prolifera a critica pela critica, o opinar por opinar. Assumam conceptualmente, desligando da discussão emocional. Digam as razões do projecto, fundamentem as razões que impossibilitaram outras soluções.

Demonstrem que existe, ou que pode existir uma estratégia e ser desenvolvido “um consenso estratégico sobre o património”, e, também “um conceito estratégico” sobre o seu contributo no fazer cidade, porque o património não é um resíduo do passado, é a nossa energia que faz futuro e será a semente que vai manter viva a nossa identidade, num tempo que o Barreiro vive, afinal, cada vez mais, marcado por uma ‘crise existencial’ e “perda de identidade”.
É por isso, que é importante dar dimensão conceptual, mais que emocional, no papel do património no fazer presente e legar futuro.
É, por isso mesmo, e só por isso, que o Património é de todos!

António Sousa Pereira

VER FOTOS

https://www.facebook.com/pg/jornalrostos/photos/?tab=album&album_id=10156299697512681

22.07.2019 - 18:47

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2019 Todos os direitos reservados.