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Barreiro - nova vaga vai gerar desenvolvimento do parque habitacional

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Barreiro - nova vaga vai gerar desenvolvimento do parque habitacional . 80% da população de Lisboa está excluída do acesso ao Programa de Arrendamento Acessível.

O Barreiro vai pouco a pouco, por este andar, transformar-se num dormitório, uma terra que aprofunda a visão de cidade assente no conceito - «habitação é desenvolvimento».

Novo regime de rendas empurra moradores para fora dos centros, refere uma noticia no jornal «Público».
É salientado que uma familia que veja seu contrato de arrendamento caducado, nos centros em Lisboa e Porto, não consegue nova casa através do Programa de Arrendamento Acessível, numa zona localizada a menos de 20 minutos de Lisboa, em carro com trânsito normal.
Segundo a noticia 80% da população de Lisboa está excluída do acesso ao Programa de Arrendamento Acessível.
Para uma taxa de esforço do rendimento familiar de 35% destinado para a renda da habitação, uma familia para encontrar uma renda com condições imposta pelo Programa de Arrendamento Acessível, esta situação tem vindo a piorar, crescendo o tempo de deslocação entre a habitação e o centro de Lisboa.

Esta realidade tem vindo a reflectir-se na margem sul, e, naturalmente no concelho do Barreiro, razão que motiva a existência de teses politicas que perspectivam uma visão com base no pensar que – “habitação é desenvolvimento”.
Estamos, pois, neste século XXI, a assistir a uma nova vaga que vai gerar desenvolvimento do parque habitacional, tal como aconteceu nos anos 70.
É assim, vai continuar a ser assim, enquanto existir a estratégia de centralização da vida económica em Lisboa.
Por essa razão, sempre que Lisboa expulsa franjas do seu tecido social, sem condições financeiras de pagar os valores da rendas, o fenómeno de crescimento das periferias como zonas suburbanas, desenvolve-se ao receber esses “deserdados”.

Nos anos 70, foram operários, empregados do comércio e serviços. Agora é uma classe média, que não aguenta o esforço do seu limite orçamental para conseguir manter habitação e o trabalho em Lisboa.

Mas, no Barreiro a grande diferença, entre os dias de hoje e os anos 70 do século XX, é que naquele tempo a vila operária recebeu os novos habitantes, que contribuiram para o seu crescimento demográfico, mas a vila tinha vida própria era uma terra de emprego e de trabalho.

Os migrantes vinham residir para um novo Barreiro, que crescia por todos os cantos, no Lavradio, na Quinta da Lomba, no Alto do Seixalinho, na Verderena, uma explosão demográfica, que crescia em espaços urbanos onde as habitações terminavam dentro de si mesmas, sem espaços envolventes tratados, nem jardins, nem espaços verdes, ruas sem passeios, falta de pressão de água e com os novos prédios apenas preocupados em ligar-se à rede de esgotos através das redes pluviais. Novas zonas urbanas sem equipamentos sociais, por exemplo escolas.

De qualquer forma, para quem trabalhava em Lisboa e vivia no Barreiro, tudo isso pouco importava.
Talvez o grande privilégio de todos que tinham todos esses expulsos de Lisboa era ter o ‘autocarro à porta’ que os levava até aos barcos, colocando-os em 30 minutos no centro da cidade. Tudo o resto era coisa que pouco importava.

Afinal, nesses anos 70, o Barreiro era esse misto de dormitório de Lisboa e terra com vida própria.
O Barreiro sempre foi uma terra de trabalho, com relações de familia e de vizinhança cultivada no respeito e solidariedade.
Uma vila com forte ligação à fábrica, onde existiam milhares de postos de trabalho na CUF, ou à CP quer às Oficinas da CP, com milhares de trabalhadores, quer ao pessoal da ferrovia, tudo isto gerava um comércio local pujante.
Uma vila forjada por uma classe operária culta, com padrões de vida diferentes de outras empresas do país, com elevados padrões de formação, culturais e técnicos.
Uma vila de gente activa e criativa, que foi recebendo e integrando os novos habitantes – essa “gente vinda de muitos lados”.
O Barreiro recebia os novos habitantes, os quais, aqui pelas portas do associativismo redescobriam a vida em comunidade.
Muitos rotulavam o Barreiro de dormitório, mas o Barreiro, na verdade, era uma terra de trabalho, com emprego, vida própria e criativa, que partilhava essa realidade de dormitório, que, agora, no pós desindustrialização tem vindo a aprofundar-se.
O Barreiro perdeu emprego e com isso perdeu a sua dimensão centrifugadora.

Nos dias de hoje, começam a chegar novos habitantes, a tal classe média, expulsa de Lisboa, mas, mesmo muitos que cá vivem, filhos das gerações que outrora tinham a fábrica como referência – de pais para filhos – a classe média local, que cá vivem mas cá não trabalham, e, esses são muitos mesmo, são o retrato do novo Barreiro.
O Barreiro deserdado de emprego e de estratégia de desenvolvimento.

Talvez, por essa razão, quer os novos habitantes, quer os que são autóctones, o que desejam é para além da casa para viver, ter aos fins de semana festas para fruir, com amigos e familia.
O Barreiro está a deixar para trás a cultura de ser terra com vida própria. Há alguns uns resilientes. Sonhadores.
O Barreiro vai pouco a pouco, por este andar, transformar-se num dormitório, uma terra que aprofunda a visão de cidade assente no conceito - «habitação é desenvolvimento».
Foi tudo isto que me ocorreu ao pensamento ao ler a noticia sobre os expulsos do centro de Lisboa, nesta segunda década do século XXI.
Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

16.09.2019 - 15:39

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