Conta Loios

inferências

Por dentro dos dias - Barreiro
A mentira é uma arma contra a democracia

Por dentro dos dias - Barreiro<br>
A mentira é uma arma contra a democraciaA politica de hoje, não é diferente da vida politica de todos os tempos. Mas a vida politica evoluiu muito pela positiva. Foram muitos, ao longo de séculos que deram a vida pela Liberdade. Não há vida politica sóbria sem Liberdade. Os autoritarismos nunca gostaram de liberdade. A Liberdade é a energia que move a democracia.

“Estou farta de politicos. Já não os consigo ouvir”, comentava uma amiga, ontem pela manhã, ali no Mercado Lavradio. Ela não é uma pessoa que tenha notado, ao longo da sua vida, o seu envolvimento na acção politica partidária, mas, sei que, na verdade, sempre foi daquelas pessoas que manteve uma cidadania activa.
Uma jovem, como eu, naquele tempo que vivemos os dias nascidos no 25 de Abril, com uma intensidade e entrega de quem sonhava com a construção de um mundo melhor. Acreditávamos. Lutávamos.
Era um tempo de causas – como hoje se diz – um tempo de sonhos. Um tempo de ideias a pulsar nas ruas da cidade. Todos sentiam emoção no fazer cidade e cidadania.
Sim existiam confrontos, debates acesos, agressividade num despique de procura de caminhos. Era um tempo no qual a politica mexia, dentro de nós, por valores.
Um tempo marcado por um mundo de guerra fria. Um tempo de um mundo com as cicatrizes do Vietname à flor da pele, com as lágrimas de Salvador Allende a tocar as noites frias.
Era um tempo nascido da tristeza dos tanques a entrar ruidosamente, em chamas, nas ruas de Praga.
Tudo isto mexia e remexia nos confrontos da vida quotidiana. A vida em permanente ebulição era um autêntico laboratório de experimentação e acção politica.
Ollf Palme. Mitterrand. Berlinguer. RDA. RFA. China, bando dos quatro. Capitalismo. Socialismo.
Era um tempo nascido de uma guerra com raízes na história, por mares navegados, essa história epocal que, no dizer de Hegel, na História da Razão, abriu as portas da modernidade.
A globalização renascia agora pelas televisões. O mundo novo surgia no horizonte.

Em suma, era um tempo marcado pela acção politica feita de nervos de aço, de rupturas, de confrontos de Norte a Sul. Há os que falam que eram agredidos no sul, e, esquecem os que eram agredidos no Norte. Um país saído de quarenta anos de silêncio e prisões, que, agora respirava uma fogueira de liberdade.
Portugal em chamas. Na vida real e na cidadania.

Felizmente chegámos a bom porto nesse caminho de fazer democracia e consolidar a democracia.
Temos, segundo dizem os peritos, uma das Constituições mais modernas do mundo, na defesa de direitos humanos. Se são, ou não são, cumpridos, isso é outra coisa, mas, uma coisa é certa, nos tempos da troika até foi ela – a Constituição – que colocou o freio às ansiedades e defendeu as angústias. Sentiu-se o seu papel, sentiu-se o seu conforto, conjuntamente com os sons da Grândola, que se escutou pelas ruas, e, até no Parlamento.

São estas recordações que me ocorrem, hoje, ao ver os jovens da minha geração, indignados com os politicos e com a politica.
Ela, como eu, somos desse tempo forjado em sonhos, antes de Abril nascer, de amor à Liberdade e ao viver cidadania de corpo inteiro.
Sei que ela nunca foi pessoa de intervenção politica partidária, mas, sei, isso sei, foi sempre uma pessoa interessada na vida da comunidade e no fazer comunidade.
Normalmente, só se interessa pela vida da Polis, quem tem um sentimento e um olhar com uma dimensão politica. A politica é a força que faz florescer a vida da polis, são as ideias que fazem a cidade.
Foi, por isso, apenas por isso, que estranhei aquela sua posição anti-politicos.
Digo-vos, nesse dia, por mero acaso, escutei outras opiniões de pessoas com opiniões negativas sobre a vida politica e os politicos. Uma repulsa.
Fiquei triste. Para mim, os politicos devem ser o primeiro exemplo, devem ser os motivadores, devem ser os defensores de ideias e de valores, devem ser os lideres que mobilizam a comunidade. Devem ser exemplo de vida. Homens e mulheres que pela sua acção e exemplo cativam, concordemos ou não concordemos. Eles são a força da democracia. Há nomes de politicos que se inscrevem nas nossas vidas – Mandela, Ghandi, Churchil, Gorbatchov. Mário Soares. Álvaro Cunhal. Sá Carneiro. Eanes. Jorge Sampaio. Freitas do Amaral. Maria de Lurdes Pintassilgo. Miguel Portas. Exemplos de lutadores pela Liberdade e pela democracia. Há mais, muito mais.

Nunca hei-de esquecer, aquelas palavras de Virgilio Ferreira, quando ele afirmou – “a democracia não é uma ideologia”, acrescentando que a democracia “é o caldo” onde se confrontam e desenvolvem as ideologias.
A democracia não é marketing. A democracia não é propaganda. Isso são técnicas de combate politico.
Recordo tudo isto e, de repente, ocorre-me um comentário que um amigo, social democrata, a propósito de um texto em tempos escrevi no âmbito das comemorações do 25 de Abril. Esse meu amigo numa de ‘picanço’, interrogava-me se eu não tinha memórias do 25 de Novembro. Não lhe respondi. Não vale a pena dar respostas a perguntas quando feitas em contextos que visam ‘abandalhar’ e dar-lhes resposta é mesmo, meio caminho andado para justificar a resposta que está implicita na pergunta. Não há perguntas grátis, por vezes o que querem é aquilo que se costuma dizer – ‘estimular conversa da treta’ – promover confrontos de banalidades, estimular populismo baratos, ou motivar formas de olhar e interpretar a história.
A história tem sempre interpretações – dos vencedores, dos vencidos e, até, dos indiferentes.
Mas, hoje, a propósito de certos climas de vida politica que estamos vivendo, que muitas vezes o que visam é, isso, apenas isso, gerar ódios de estimação, promover ‘o inimigo comum’ ou o promover o ‘culpado’ – como se sabe é sempre o mesmo, é mais fácil, porque sabendo-se quem é o culpado, os raciocínios banalizam-se. Quem está contra, quem critica, está com eles, ou é manipulado por eles. Os ditos que levaram este melhor dos mundos ao marasmo.
Sim, hoje recordei, a propósito dessa pergunta desse meu amigo social democrata, que tenho uma grande recordação do 25 de Novembro. Nunca esquecerei.
Talvez a história um dia faça justiça a essa afirmação histórica, que, afinal, foi decisiva para estarmos aqui, hoje, vivendo a democracia, nascida com Abril.
No meio de todos os ódios e paixões, num clima de tensão enorme, escutou-se em pleno 25 de Novembro, a voz de Melo Antunes dizendo, que perante a “angústia e inquietação” e no confronto intenso de valores “a democracia” e “o socialismo” estavam sendo postos em causa.
Nessa sua declaração histórica sublinhou que “a participação do PCP na construção do socialismo é indispensável”. Outros queriam, talvez, a ilegalização.
O militar de Abril apontou como caminho ser necessário, criar uma plataforma de acção politica de todos os principais partidos para prosseguir um caminho de construção de uma sociedade democrática, pluralista, livre, justa e humana. E cá estamos.
Para o meu amigo social democrata, hoje e aqui, já muito longe dos tempos da guerra fria, quero dizer-lhe que guardo esta recordação do 25 de Novembro. É isso, mesmo isso, nunca esqueci.

O mal dos tempos de hoje, é as pessoas confundirem politica com politicos. É a mesma coisa que confundir certas pessoas com os seus partidos, só porque aquelas pessoas são militantes, de tal ou tal partido.
Um partido tem um programa, tem linhas de acção estratégica, tem valores, tem ideais, tem uma história, tem práticas que demonstram as opções na defesa da democracia, da liberdade e dos valores constitucionais.
Os partidos são a força da democracia. Não há democracia sem partidos.
Os partidos são formados por pessoas. E as pessoas são isso mesmo – pessoas. Há os que vivem para a politica. Há os que vivem da politica. Há os profissionais da politica, Há os apaixonados por ideais. Há os que colocam os ideias na gaveta. Há os gestores politicos. Há os técnicos de marketing. Há os profissionais. Há os amadores. É vida.
A politica começa na nossa rua e estende-se por todo o planeta. A politica é a vida.
A politica de hoje, não é diferente da vida politica de todos os tempos. Mas a vida politica evoluiu muito pela positiva. Foram muitos, ao longo de séculos que deram a vida pela Liberdade. Não há vida politica sóbria sem Liberdade. Os autoritarismos nunca gostaram de liberdade. A Liberdade é a energia que move a democracia.
Mas, na verdade, a politica ainda terá que evoluir, muito mesmo muito, na luta pela verdade, no combate à mentira.
Não é por mero acaso, que as pessoas em crescendo optam pelas abstenção, criticam os politicos e a politica.
Uma amiga, dizia-me – “Eu não vou votar!. Fiquei a pensar nas razões que invocou. Pensei que é errado não votar. Devemos votar. A democracia exige que todos votemos, nem que seja para exercer o direito de riscar o voto, ou coloca-lo em branco na urna. Isso, por vezes, ajuda os politicos a pensar.

Sabemos, sim todos sabemos que há a luta pelo poder. O desejo de ser poder leva alguns politicos a usar todos os meios para atingir fins. Prometem. Mentem. Reinventam a realidade. Criam ilusões. Deturpam, Apresentam balanços de trabalho realizado, por vezes, de tal forma, que esquecem a vida real, desmente o que escrevem. Mas eles escrevem, gritam e não coram. Na verdade, nessa ansiedade, de promessas e balanços, ou se enganam no que dizem e propagam, ou fazem-no intencionalmente. Isso, de facto, é que grave e triste.
Se calhar, penso eu, alguns, que vivem da politica, já concluiram, pela experiência vivida que para os eleitores não interessa a verdade, interessa é a ilusão.

Pessoalmente, o que me deixa triste – antigamente barafustava – agora fico triste, apenas triste. Pego nos folhetos leio. Penso. Afinal, muito disto é mentira, meias-verdades e reinvenção da vida real.
Por essa razão, no meio de tudo isto, concluo, que, afinal, razão tem a minha amiga de estar farta de politicos e, também, a outra que diz não vai votar.

Será que eles acham que somos todos estúpidos e ignorantes. Vem um diz uma coisa. Vem outro sobre a mesma coisa diz o contrário. Enfim, isto de fazer politica sem olhar a meios para atingir fins é cada vez mais uma banalidade. É isso, a mentira é uma arma.
Depois admiram-se de existir, cada vez mais, um crescendo do fosso, esse, que se vai alargando entre os politicos e a vida real.

Encontrei um amigo, esta semana, ele, que no dia 25 de Abril, integrou, de armas na mão, o batalhão de Salgueiro Maia. Foi um dos que esteve ali no Terreiro do Paço. Bociferava, contra os politicos e certas opções que estão sendo anunciadas, como das melhores opções para fazer futuro – “não há respeito pelas pessoas”, dizia.

Concluindo, apenas quero citar Jean.François Revel, que um dia escreveu: “A democracia suicida-se se se deixar invandir pela mentira”.

Até já, divirtam-se

António Sousa Pereira

22.09.2019 - 17:59

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2019 Todos os direitos reservados.