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Saúde Mental no Barreiro - 30 anos é muito tempo...OBRIGADO!

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Saúde Mental no Barreiro - 30 anos é muito tempo...OBRIGADO!<br>
A psicologia e a psiquiatria, uma espécie de parentes pobres na área da saúde. Resistiram e afirmaram o serviço, por amor, com amor.
Foram profissionais resilientes, lutadores, apaixonados pela profissão, que colocavam sempre o utente no centro do fazer quotidiano.

Hoje pela manhã, estive no Hospital do Barreiro assistindo à sessão dedicada a comemorar o Dia da Saúde Mental, e, simultaneamente, os 30 anos do Serviço de Saúde Mental no Barreiro.
Dou comigo a pensar que o Centro de Saúde Mental Barreiro / Montijo foi criado no ano de 1989, tempos dificeis, tempo das bandeiras negras nas ruas da cidade, tempos de grande crise económica que marcavam de forma acelerada o processo de desindustrialização na região de Setúbal.

A crise da indústria naval. A crise da indústria corticeira. A crise da indústria textil. A crise da indústria quimica. A crise da indústria metalomecânica.
Crises que arrastavam outras crises, afectando o comércio local, a restauração. Filhos e operários que viviam em dignidade e com qualidade de vida, que exerciam profissões de mão de obra especializada, de repente sentiram a fome entrar em suas casas.
Foi o desemprego. Foi o viver na condição de DLD – desempregado de longa duração. Foram as reformas antecipadas. Foram as autarquias a absorver mão de obra, criando serviços para realizar obras por administração directa. Foi a Igreja, com o seu Bispo Vermelho, D. Manuel Martins, a clamar, dando voz aos sem voz.

Sim, foi nesse tempo, marcado de suicidios - fisicos ou morais - que, aqui no Barreiro, para servir especialmente os concelhos do Barreiro, Moita e Montijo, que viviam esse drama do fim da industrialização que, foi decidido criar uma equipa do Hospital Miguel Bombarda. Escutava e pensava, na vida nada acontece por acaso.

E escutava que uma das marcas desse serviço, nascido aqui no Barreiro, era desenvolver a sua acção numa vertente comunitária- o modelo de psiquiatria comunitária, com dinâmicas multidisciplinares que envolvia,entre outras, a área da assistência social.
Uma experiência piloto que, foi, dito, o trabalho realizado na Peninsula de Setúbal, foi modelo para o país.
Talvez por essa mesma razão, o Barreiro era exemplo e referência – caso de estudo, no país, e até em congressos internacionais.

E, pelo que fui escutando, nas entrelinhas, sempre foram muitas as dificuldades. A psicologia e a psiquiatria, uma espécie de parentes pobres na área da saúde. Resistiram e afirmaram o serviço, por amor, com amor.
Foram profissionais resilientes, lutadores, apaixonados pela profissão, que colocavam sempre o utente no centro do fazer quotidiano.

Talvez, esteja por inventariar, num mundo que só funciona por estatisticas, quantas familias contaram com a intervenção destas equipas e conseguiram com o apoio destes profissionais, superar a crise e outras crises que marcam a vida da região, principalmente dos concelhos do Barreiro e Moita, porque, o Montijo, com a construção da Ponte Vasco da Gama, encontrou novos caminhos.

E, nós, no Barreiro, vivemos esse tempo, que ainda se projecta nos dias de hoje, na decadência do edificado, na perda de qualidade dos espaços públicos, da crise do comércio. Uma cidade que continua ainda, neste século XXI, sem rumo, que, agora de novo parece que volta a acreditar na sua eterna galinha dos ovos de ouro – o imobiliário.

Escutava aquelas emoções de quem viveu e vive, por dentro, as batalhas em palavras contidas, nesse sonho e luta de manter um serviço que tem contribuido para sanar as depressões de uma cidade depressiva. Ontem e hoje, na busca de caminhos.
Escutava e pensava : Sim, 30 anos de serviço prestados à comunidade, e, por tudo o que deram (isto, não tem nada a ver com o contributo de outros serviços que também merecem o reconhecimento), mas, hoje e aqui, quero dizer, publicamente que, sem dúvida, já é tempo da comunidade – o Barreiro, a Moita e o Montijo, puxarem um pouco daquilo que cada um tem dentro de si, essa memória inscrita no tempo, e, com todas as palavras, dizer aos criadores do Serviço de Saúde Mental e, também, aos que, aqui e agora, mantém activo, o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Barreiro- Montijo, e, a Unidade de Psicologia, a todos os que lá exercem ou exerceram a sua actividade, desde psiquiatras, psicólogos, terapeutas, enfermeiros e pessoal auxiliar, eles, as equipas, que com toda a dedicação, esforço e paixão pela comunidade, dizer-lhes isto, apenas isto – OBRIGADO. Estamos reconhecidos pelo vosso amor e entrega à comunidade.
Eu digo-vos – 30 anos é muito tempo...OBRIGADO!

António Sousa Pereira

10.10.2019 - 23:06

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