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Por dentro dos Dias - Barreiro
«Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!

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«Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!O filme «Jocker» pode ser um bom tema de reflexão para aqueles que vivem dramas existenciais, que colocam a violência fisica ou verbal, como modo de fazer cidade.

Fui ao Cinema no Forum Barreiro, ver o filme «Jocker». O mundo de hoje em tempo real. O mundo de todos os tempos em tempo real. Enquanto via o «Jocker» pensava como vivemos entre duas opções ou «Somos Palhaços» ou «Somos Cidadãos». Quando somos palhaços disponibilizamos o nosso tempo para prestar serviços a outros, e, um dia, qualquer dia, por qualquer acaso, lá ficamos no desemprego. Somos despedidos. Somos colocados numa prateleira. Se não cumprirmos, deixamos de receber as contrapartidas. É vida. Lá vem a depressão. A neurose. Uns superam. Outros não aguentam.

Ali, naquele filme está, também, a realidade do Estado, que deixa de prestar serviços à comunidade, devido a cortes orçamentais. Os cidadãos são números. Os números é que contam. As pessoas são também contabilizadas em despesa. Nunca têm valor quando são receita. Os números. O orçamento. A desumanização. A degradação.

Ali, podemos, igualmente, ver o uso que a comunicação social faz da vida de cada um, o que conta são as audiências. Os jogos. A força da imagem no mundo de hoje é tenebrosa. Ilude. Os filmes dentro do filme da vida. O imaginário e o real. As ilusões. As visões.

Ali, podemos, objectivamente, observar as manifestações que arrastam multidões, por causas geradas, nesses movimentos que produzem opinião induzida. Umas vezes por um mundo melhor. Outras apenas pela cultura dominante. Somos levados. Um mundo cada vez mais de causas. O ambiente. O dinheiro. As armas. A droga. O sexo. Manipulação. Racismo. Xenofobia.

Ali, afinal, vemos como um palhaço de hoje, ou um palhaço de ontem, pode ser herói, aqui e agora, e, depois, o canalha de amanhã. E vice versa. Tudo é transitório quando se vive apenas para atingir objectivos – a casa com vista para um qualquer rio, o carro que proporciona a comodidade das distâncias. O importante é sobreviver por objectivos. Um mundo neurótico. Frustrações. Provar o que se é, e o que se não é. Ironia. O jocker está adormecido dentro daquilo que não somos.

Um filme que é uma imagem viva, imponente, que nos conduz ao mundo suburbano, que nos faz navegar pelas margens da cidadania, que nos transporta por dentro da mais violenta agressividade, apenas porque sim, agredir, faz parte do estar, do domínio do outro(a).
Uma viagem por dentro dos conflitos sociais, que nos leva a sentir náusea pelo comportamento dos novos ricos, que se acham senhores da cidade.
Ali vemos a cidade marginal, a violência contra a mulher, o cosmopolitismo que desumaniza. Terra sem rostos. O grito que se escuta nas ruas é, tristemente, expresso na imagem deslumbrante que nasce naquele movimento da história, onde, afinal - «Somos Palhaços!»

Um filme onde tudo conta, para dar a dimensão deste mundo neurótico e disfuncional.
Um filme onde a mensagem é feita luz. Escuridão. Penumbra. Cor. Musicalidade. Som. Riso. Solidão.
A guerra pela sobrevivência. Uma violência que existe, mas que ignoramos. O quotidiano.

Um filme que dá uma imagem perturbadora da força da solidão, da luta psicológica, dos passos que se inscrevem silenciosamente da psicose à neurose.
O drama de cada ser humano. O drama que cada ser humano pode travar consigo mesmo, quando sente que está só, desenraizado, e a sua vivência quotidiana atinge os limites do silêncio. A falta de amor. O vazio.

Tudo isto podemos desbravar, pensar, sentir, nas imagens e na narrativa do filme «Jocker».
É um filme soberbo na musicalidade, nos efeitos, na fotografia, na interpretação. Faz pensar, e tudo o que faz pensar, faz sentir.
Um filme que nos toca e obriga a pensar o que é fazer cidade, o que é fazer cidadania.

Este filme é, sem dúvida, uma viagem por dentro dos tempos de hoje, e dos tempos de sempre, porque, afinal, o mundo não é diferente. A angústia que se regista no confronto entre cada «eu» e cada «nós». Conflitos.
Ao longo da vida as estórias e histórias repetem-se. Mudam cenários. Mudam actores. Mudam os meios de comunicação. Mudam os textos e os contextos.
Mas, na história de cada um individualmente, que faz parte da história da humanidade, há sempre uma verdade que permanece, aquela dita por Ortega y Gasset – o homem é ele e as circunstâncias.

O filme «Jocker» é essa lição que demonstra como a realidade de cada um e todas as vivências, são fruto dos acasos, das circunstâncias, das necessidades, forja-se nas realidades epocais – no espaço e no tempo. Somos comunidade. Somos eu, na comunidade.
Essa é a lição que existe, real, naquele filme e na história que todos vivemos.
A história do tempo, esse que vivemos, hoje, esta actualidade, que, com os nossos actos e palavras contribuímos para fazer e mudar. Participando.

Toda a história é real, quer essa onde nós somos os protagonistas, quer a história que podemos inventar colocando outros como protagonistas.
Toda a história começa na nossa cabeça. Haverá um dia que havemos de recordar. Sentir a felicidade ou a tristeza. Valeu a pena ou vivemos um tempo perdido. Fica a interrogação.

É um pouco isso, no fim, todos queremos ser heróis. Todos queremos ser construtores da história. Todos temos o nosso «jocker». Um «jocker» que pode ser neurótico, esquizofrénico, criativo, vitima do tempo, impotente perante todas as adversidades, ou ser um jocker sonhador. Lutar. Há vida para além da violência, que marca todos os tempos. A história demonstra-o.
Somos quando tomamos a decisão de ajudar a fazer a história da cidade. Fazendo história que se inscreve e não história que se esquece. Volátil.
É isso, cada um escolhe a sua opção: «Somos Cidadãos» ou “Somos Palhaços»!

A nossa história na comunidade, é a história que fazemos. Há a história que outros fazem. Há história daqueles que vão ao nosso lado. Até, os mortos fazem história ao nosso lado, por dentro da memória.
Tudo é o tempo. Tudo é a circunstância. Tudo é essa temporalidade. É isso que somos – uns optam por construir, outros por desconstruir.

O filme «Jocker» pode ser um bom tema de reflexão para aqueles que vivem dramas existenciais, que colocam a violência fisica ou verbal, como modo de fazer cidade.

Até amanhã, divirtam-se!

António Sousa Pereira

21.10.2019 - 10:59

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