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Por dentro dos dias - Barreiro
«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania»

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania»  <br />
Neste século XXI, alguém que vem do século XX, falar com os jovens que já nasceram no século XXI, sobre cidade e cidadania. Registo e digo que foi giro.

A convite da minha conterrânea e amiga, Isabel Braga, voltei de novo à Escola Padre Abilio Mendes, para conversar com os alunos, com idades entre os 12 e 16 anos, sobre «Fazer Cidade – Fazer Cidadania», um encontro integrado nos objectivos da disciplina que aborda temas de «Cidadania» e «Multiculturalidade».

Se na primeira vez, cheguei lá, entrei, falei e partilhei de forma aberta, procurando transmitir os meus sentimentos e as minhas experiências sobre a vida, os caminhos, as pessoas, a cidade, os lugares, em suma, partilhando com eles o meu olhar sobre o mundo, sobre o tempo vivido e sobre a comunidade, minha e deles, esta, onde construi a minha vida, e, como costumo dizer, aqui, esta terra, não é a minha terra – esta é a terra dos meus filhos.
Quando lhes pedi que levantassem o braço, aqueles que gostavam do Barreiro, como já escrevi apenas dois ergueram o braço e um movia a mão no ar como a querer dizer «assim,assim». Nesta turma, fiquei feliz quando, ao fazer a mesma pergunta, mais de 80 % ergueram o braço a afirmar o seu gosto pelo Barreiro, sendo mais residual os que não se manifestaram. Gostei.

Desta vez, procurando na mesma conversar de forma aberta e viva, tal como na conversa anterior, procurei apenas organizar uns tópicos, meras linhas orientadoras. Depois era falar. Assim foi, e, pelo que me apercebi, no final, vários disseram-me que gostaram – “foi fixe!”.
Neste dia, quando estava por ali, no exterior a aguardar o toque para o começo da aula, vivi, com alegria e, digo-vos, até com alguma emoção, a alegria de alunos da aula anterior, que nem os reconhecia, dirigirem-se até mim para dizer: “Obrigado pela sua conversa”, e, um deles sublinhar – “Gostei muito, tem que voltar de novo para conversar. Foi muito bom”.
Eles, digo-vos, encheram-me o ego. Há coisas na vida que valem mais, muito mais, que dinheiro, valem o sentir o tempo preenchido de sentimentos reais. Amor pela vida. Este prazer de sentir a vida pulsar no coração.

Mas, voltando à última conversa, quero partilhar aquelas que forma as ideias centrais, os tópicos orientadores da conversa. Escrevi no caderninho.
«Cinco passos para fazer cidade. Cinco passos para fazer cidadania», ou as «cinco pegadas do fazer cidadania».
E, o primeiro passo no fazer cidadania, esse passo que dá força para fazer cidade, força para fazer tudo o que cada um de nós é, fazer tudo o que cada um de nós contribui para fazer cidade – esse é o passo que se escreve com a palavra Liberdade. Somos seres livres. E somos seres livres quando respeitamos os outros, quando sentimos o prazer de saber, quando sabemos que a aprendizagem faz de nós seres livres. E lá fui, mergulhando em palavras e sentimentos. A vida.

O segundo passo , esse, escreve-se com a palavra democracia. Ser democrata é saber confrontar ideias, é ter capacidade de diálogo, é respeitar as diferenças. Falei na força das ideias, a importância das ideias e dos ideias. Sendo livres, podemos escolher. A democracia faz-se vivendo as escolhas. Uma cidade é feita para todos, não é construída apenas para pessoas de um partido, ou de uma religião. Uma cidade é esse lugar onde cada um de nós é, como um eu e como um tu, sendo nós. Foi giro. Eles perceberam.

E, continuei para o terceiro passo neste caminhar no «fazer cidade» e «fazer cidadania». Recordei-lhes que nós somos seres únicos, mas somos seres que aprendemos a viver em comunidade. Uma cidade é uma comunidade, E fazer cidade é sermos solidários. É este o terceiro passo – a solidariedade. Somos solidários na escola, nas associações, na nossa rua, no nosso bairro. Essa uma marca do Barreiro – uma terra onde todos quase nos conhecemos uns aos outros. Já foi mais assim, no tempo que a fábrica marcava o ritmo dos dias.
Mas, para fazer cidade e para sermos cidadãos, temos que saber partilhar. A cidade somos todos.
Deliciei-me a falar de solidariedade. Não tinha nada pensado. Era o que chegava vindo da memória. Por isso recordei-lhes que pela solidariedade chegamos à memória, porque nós somos hoje o fruto dos homens e mulheres solidários que nos antecederam e legaram este mundo. Agora, nós temos que saber legar o mundo ao futuro. Isso é ser solidário.
Cada um de nós é um colibri, que leva a gota de água para apagar o incêndio da floresta.

E, continuei estes passos que escolhi para esta conversa, em outubro de 2019, dizendo-lhes que o quarto passo, escreve-se com a palavra criatividade.
Viver é ser criativo. Temos que sentir a vida todos os dias. Ser criativo é amar. Se criativo é acordar todos os dias e olhando o sol a brilhar nos olhos, sentirmos essa energia que nos leva a viver fazendo o que gostamos. Para fazer o que gostamos, temos que aprender a fazer, construir, inventar, criar, recriar. Seja como jogador de futebol. Seja como trabalhador de limpeza. Seja como médico. Seja engenheiro ou aquilo que for, ser criativo, é, saber que temos que aprender, aprender com os outros, saber reconhecer com humildade o legado que recebemos, ter a consciência que o nós não somos o começo do mundo, e, até que há mais mundo depois de nós. Nós temos que ter a alegria de criar e fazer um mundo um pouco melhor, construindo, embelezando – na música, na arte, na pintura, no teatro – afinal criar é dar luz e som à vida.
A criatividade é a força que renova a nossa liberdade, enriquece a democracia e fortalece a solidariedade.

E, é este o caminho que nos conduz ao quinto passo que se escreve com a palavra humanidade. Isso de sabermos que somos fazendo comunidade, mas ao fazermos comunidade estamos a dar o nosso contributo para sermos nós como parte integrante desse todo que é a humanidade, feita de diferenças de povos, de línguas, de identidades, mas, todos habitantes deste lugar único o planeta terra – o lugar que tempos que preservar e proteger. Fazer humanidade é dar um contributo local, para esse fazer combate global contra as alterações climáticas, pelas paz entre os povos.
Afinal, cada um de nós é único e, ao ser único é um «átomo« desse todo que se diz humanidade.

Estes foram os tópicos. Eles ali estiveram escutando e fazendo uma ou outra pergunta. Falei-lhes de Augusto Cabrita e outros nomes barreirenses, até traulitei a «Canção do Mar» de Ferrer Trindade.
No final escutei os agradecimentos e, eles, devolveram o caderninho que esteve a circular para escreverem o que entendessem sobre o que retiravam desta conversa.
Prometido é devido, portanto aqui ficam as palavras escritas por estes jovens, sobre a cidade e a cidadania.

- Sem medo de ser livre
- Viver animado e feliz
-A vida é como um cubo mágico, demora mas resolves o enigma
- A vida é uma história que cada um conta
- Vive o hoje como se não houvesse amanhã
- Segue o teu caminho e sê feliz
- Só se vive uma vez, aproveita esse momento
- Aproveita cada dia ao máximo, nunca vais saber quando vais morrer.
- O tempo é relativo, quando nos apercebemos já é tarde.
- Vivi good
- A vida não é como um conto de fadas, ilude tanto, e no fim nada acontece.
- Só queria ser feliz
- Eu não gosto de ser aluno e também não gosto da escola
- A vida é como um jogo de escolhas, um passo em falso e acaba tudo
- Sê um com o outro
- A vida é como um dado, pode dar certo uma e outra vez, chega uma altura e acaba a tua vez.
- Sê um, com a humanidade, porque sozinho não vais a lado nenhum.

Aqui fica o registo e o meu obrigado. As vossas palavras são importantes.
E, uma professora que foi assistir à aula, escreveu:
- A simplicidade está na liberdade, na humanidade. Obrigado pelo momento.

E, por fim, a motivadora destas conversas, que me desafiou para, neste século XXI, alguém que vem do século XX, falar com os jovens que já nasceram no século XXI, sobre cidade e cidadania. Registo e digo que foi giro.
Ela, também escreveu no caderninho e, portanto para fechar, aqui ficam as suas palavras;
“Igual a si mesmo, como sempre, o meu amigo Sousa Pereira aceitou o desafio de se deslocar à escola e falar de cidadania e multiculturalidade.
Obrigado Marafado!”

Até outra. Acho muito giro e interessante ter estas conversas com alunos, porque, nos dias de hoje, cada vez é mais importante motivar cada um de nós a ser cidadão de corpo inteiro e não se deixar sucumbir nas redes sociais e nas ilusões que iludem, porque, afinal, ser cidadão é ser cidade.
Obrigado.

S.P.

30.10.2019 - 00:04

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