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Inferências - Barreiro o paradigma de cidade do século XXI
A cidade que baixou os braços ao futuro e se resigna ao dormitório.

Inferências - Barreiro o paradigma de cidade do século XXI<br />
A cidade que baixou os braços ao futuro e se resigna ao dormitório.Agora, no pós desindustrialização, isso sim tem vindo a aprofundar-se o desenvolvimento do Barreiro como cidade dormitório, porque perdeu emprego e com isso perdeu a sua dimensão de vila/cidade centrifugadora.

Novo regime de rendas empurra moradores para fora dos centros, referia uma recente uma noticia no jornal «Público».
Era salientado que uma familia que veja seu contrato de arrendamento caducado, nos centros em Lisboa e Porto, não consegue nova casa através do Programa de Arrendamento Acessível, numa zona localizada a menos de 20 minutos de Lisboa, em carro com trânsito normal.
Segundo a noticia 80% da população de Lisboa está excluída do acesso ao Programa de Arrendamento Acessível.
Para uma taxa de esforço do rendimento familiar de 35% destinado para a renda da habitação, uma familia para encontrar uma renda com condições imposta pelo Programa de Arrendamento Acessível, esta situação tem vindo a piorar, crescendo o tempo de deslocação entre a habitação e o centro de Lisboa.

Esta realidade tem vindo a reflectir-se na margem sul, e, naturalmente no concelho do Barreiro, razão que motiva a existência de teses politicas que perspectivam uma visão com base no pensar que – “habitação é desenvolvimento”.

Estamos, pois, neste século XXI, a assistir a uma nova vaga que vai gerar desenvolvimento do parque habitacional, tal como aconteceu nos anos 70.
É assim, vai continuar a ser assim, enquanto existir a estratégia de centralização da vida do país em torno de Lisboa.
Por essa razão, sempre que Lisboa expulsa franjas do seu tecido social, sem condições financeiras de pagar os valores da rendas, o fenómeno de crescimento das periferias como zonas suburbanas, desenvolve-se ao receber os “deserdados”.

Nos anos 70, foram operários, empregados do comércio e serviços. Agora é uma classe média, que não aguenta o esforço do seu limite orçamental para conseguir manter habitação e o trabalho em Lisboa.

Mas, no Barreiro a grande diferença, entre os dias de hoje e os anos 70 do século XX, é que naquele tempo a vila operária recebeu os novos habitantes, que contribuiram para o seu crescimento demográfico, mas a vila tinha vida própria era uma cidade de emprego e de trabalho.

Os migrantes vinham residir para um “novo Barreiro”, que crescia por todos os cantos, no Lavradio, na Quinta da Lomba, no Alto do Seixalinho, na Verderena, uma explosão demográfica, que crescia em espaços urbanos onde, sublinhe-se, na época, antes do 25 de Abril, as habitações terminavam dentro de si mesmas, sem espaços envolventes tratados, nem jardins, e, portanto, no que dizia respeito aos espaços envolventes isso não contava. Não havia preocupação com espaços verdes, nem por vezes em pavimentar os passeios, alcatroar as ruas. Muito disto foi feito com investimentos de milhares de euros, pela Comissão Administrativa e pelo Poder Local. Estas foram medidas que contribuiram para melhorar a qualidade, por exemplo, através da recuperação de logradouros abandonados criando espaços de lazer e vivência comunitária. Muito ainda está por fazer, mesmo muito...

Como a memória é curta muitos já esqueceram a falta de pressão nas redes de abastecimento de água, ou levar água a zona onde ela não chegava. Sim, quem diz de água água, pode também recordar os imensos problemas ao nível de saneamento urbano. Muitas situações foram resolvidas. Outras estão ainda por resolver.
Foram feitos investimentos de milhões e certamente ainda há muitos milhões para investir, que na recuperação do sistema, quer na sua manutenção ou, até mesmo, na sua renovação. Enfim, o tal Barreiro que muitos dizem que parou no tempo, mas, com garra foi superando os desafios, ainda, hoje, isso acontece com os programas em curso na zona das AUGI´s.

O Barreiro sofreu imenso com o seu desenvolvimento urbano nos anos 70, desse tempo, ficaram muitas cicatrizes no terreno.
Um dos investimentos que o Barreiro devia fazer, uma candidatura a fundos europeus, para desenvolver através de um programa de um década, para hoje, fazer futuro, era essa da sua total remodelação da rede de águas e saneamento. Um projecto com visão e ambição. Um justo reconhecimento pelo país do seu contributo para a economia nacional ao longo do século XX.
Ocorreu-me tudo isto ao reflectir sobre uma conversa breve, um destes dias, ao almoço, na Tasca da Loira.
Mas, não foram só os problemas nos espaços públicos e nas redes de águas e de saneamento, foram as realidades sociais e os problemas criadas, por exemplo com todas as escolas do ensino primário a funcionar em regime duplo, com competências a serem descentralizadas para as autarquias, sem os respectivos recursos financeiros.
Novas zonas urbanas sem equipamentos sociais, sem escolas, sem creches.

Na prática, o grande privilégio de todos que tinham sido expulsos de Lisboa era ter uma casa com dignidade, ter o ‘autocarro à porta’ que os levava até aos barcos, colocando-os em 30 minutos no centro da cidade. Tudo o resto era coisa que se aguentava. Sair á porta de casa e meter os pés na lama. Já esqueceram?!

Afinal, nesses anos 70, o Barreiro era esse misto de dormitório de Lisboa e uma terra com uma vida própria - a fábrica que se prolongava na vida comunitária. Os operários que tudo faziam para dar um curso aos seus filhos.

O Barreiro sempre foi uma terra de trabalho, com relações de familia e de vizinhança cultivadas no respeito e na solidariedade.
Uma vila com forte ligação à fábrica, onde existiam milhares de postos de trabalho na CUF, ou à CP quer às Oficinas da CP, com milhares de trabalhadores, quer ao pessoal da ferrovia, tudo isto gerava um comércio local pujante.
Uma vila forjada por uma classe operária culta, com padrões de vida diferentes de outras empresas do país, com elevados padrões de formação, culturais e técnicos.
Uma vila de gente activa e criativa, que foi recebendo e integrando os novos habitantes – essa “gente vinha de muitos lados”, através da sua imensa vida associativa, que promovia vivências culturais, desportivas e recreativas.

O Barreiro recebia os novos habitantes que, aqui, pelas portas do associativismo redescobriam a vida em comunidade, criavam laços e formavam novas familias. Os estrangeirados. Eram sempre um pouco molhados como tal, os que tinham cá caído de para-quedas. É vida.

Muitos, nessa época, rotulavam o Barreiro de dormitório, mas o Barreiro, na verdade, era uma terra de trabalho, com emprego, vida própria e criativa, que partilhava essa vivência activa com a realidade paralela do dormitório.
O Barreiro que recebeu os refugiados das antigas colónias, por exemplo, na Cidade Sol, onde logo se integravam e desenvolveram intensa vida associativa.

Agora, no pós desindustrialização, isso sim tem vindo a aprofundar-se o desenvolvimento do Barreiro como cidade dormitório, porque perdeu emprego e com isso perdeu a sua dimensão de vila/cidade centrifugadora.

Nos dias de hoje, começam a chegar novos habitantes, a tal classe média, expulsa de Lisboa, mas, mesmo muitos que cá vivem, filhos das gerações que outrora tinham a fábrica como referência – de pais para filhos – a classe média local, esses, também vivem cá, mas cá não trabalham.
Este é o novo retrato do Barreiro. Este é o novo paradigma. A cidade para dormir e as fins-de-semana ter uns sitios para passear e beber uns copos. A cidade com vida própria vai sendo cada vez mais residual, com problemas urbanos graves a crescer nos seus territórios de edificado mais envelhecido, onde, pouco ou nada, se faz pela sua requalificação.

O Barreiro está deserdado de emprego e está entregue a uma estratégia de desenvolvimento, essa, afinal, a que está inscrita no seu PDM, em vigor, de continuar a fazer do imobiliário a sua linha condutora de crescimento. Não há um pensamento estratégico para os antigos territórios da Baía do Tejo. Existiram uns esboços através do diálogo regular, entre o Poder Local e os governos de Passos Coelho e, inicialmente, com António Costa. Que, até, aqui no Barreiro, prometeu que no programa Portugal 2020, seria feita a aposta na construção da ponte Barreiro- Seixal. Assunto que está congelado. E não se escuta uma voz, acima de politiquices partidárias, mas pelo interesse da comunidade que exija, de uma vez por todas ao Poder Central, que não adie mais esta infra-estrutura essencial à nossa mobilidade inter-territorial, para o Barreiro e para a Península de Setúbal.

Em conclusão, nos tempos de hoje, este Barreiro no cantinho da Península, está a deixar para trás a cultura de ser terra com vida própria. Há alguns uns resilientes. Sonhadores.

O Barreiro vai pouco a pouco, por este andar, transformar-se num dormitório, uma terra que aprofunda uma visão de cidade assente no conceito - «habitação é desenvolvimento».
Foi tudo isto que me ocorreu ao pensamento ao ler a noticia sobre os expulsos do centro de Lisboa, nesta segunda década do século XXI, e, uma conversa à hora de almoço.

Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

02.11.2019 - 13:43

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