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Por dentro dos dias – Barreiro
São as aves que podem colocar em causa os aviões.

Por dentro dos dias – Barreiro<br>
São as aves que podem colocar em causa os aviões.<br>
“Quando eles construírem ali o aeroporto, no Montijo, isto vai acabar. Este silêncio único vai acabar. Dizem que os aviões vão aterra ali, de dez em dez minutos”, comenta o Mestre Gregório.

O barco navegava no Tejo. O arrais contava estórias do rio, comentava os tempos que os barcos eram parte integrante da economia regional, ligando as duas margens, prestando serviços. Recordava que existiam comunidades de barcos que se dedicavam aos transporte de lixo de Lisboa para a margem sul, lixo esse que, algum, era utilizado como matéria para fertilizar os solos agrícolas. Outras comunidades dedicavam-se ao transporte de pinho, para alimentar os fornos da grande cidade. Referiu ainda que mais Tejo adentro existia a «comunidade do gelo», que transportava a neve que era utilizada para fazer gelados.
Deliciava-me a escutar o saber de experiência feito do Mestre Gregório, arrais do «Boa Viagem», varino da Câmara Municipal da Moita, que proporciona belos passeios pelo Tejo.

O Mestre Gregório, recordava ditos dos homens do rio : «Quem melhor amarra, melhor desamarra», ou «No mar nada, em terra tudo», e ainda, «No mês de Natal quem não rema fica mal».
Um silêncio enorme no meio do rio. O varino navega soprado pelo vento. As velas erguem-se imponentes, numa beleza que leva nosso olhar a estender-se no infinito.
Escuta-se aquele som característico das águas do Tejo a beijar o «Boa Viagem». Um silêncio que toca os nervos. A pureza pura da natureza.
“Isto vai acabar, este silêncio vai acabar», diz Mestre Gregório.
Estica o dedo e aponta o outro lado, com um ar triste e de mágoa.
“Quando eles construírem ali o aeroporto, no Montijo, isto vai acabar. Este silêncio único vai acabar. Dizem que os aviões vão aterrar ali, de dez em dez minutos”, comenta o Mestre Gregório.

Escuto as palavras do Mestre. Escuto o silêncio. Penso que, talvez, serei dos poucos privilegiados de viver, ainda, este sentimento único, de escutar o silêncio do Tejo.
Penso que, afinal, Lisboa, sempre olhou para esta margem não como continuidade do seu desenvolvimento e região de partilha – a tal cidade de duas margens – e, hoje, tal como noutros tempos, limita-se a usar-nos para o que precisa, em tempos idos levava a lenha e os produtos agrícolas, noutros tempos tinha e continua a ter aqui o se exército de mão de obra – os milhares que diariamente atravessam as duas margens.

E, como sempre, no futuro que se aproxima, vai usar-nos como «plataforma giratória» dos passageiros do mundo com destino a Lisboa, que, aqui chegam, mal tocam no solo, vão e vêm de barco ou pela nova travessia da Ponte de Vasco da Gama. Aqui descem e sobem.
Lisboa é assim que olha para a margem sul, não como território que podia ser estruturante e parte integrante de uma capital cosmopolita. Lisboa a crescer, com o Tejo como «praça central». Era com isso que sonhava um homem que um dia entrevistei , um senhor, que se chamava Fonseca Ferreira.
Não, não é assim. Lisboa olha-nos como um território da província – a outra banda, seremos sempre a outra banda. Serviçais. Subalternos.
O cosmopolitismo lisboeta decide o que desta margem exige, e, haverá sempre, quem fique feliz com as migalhas. Hoje da República. Outrora da Monarquia. Lisboa é Portugal o resto é paisagem.
É por isso que Lisboa, é uma cidade de bairros. As terras da margem sul são os bairros periféricos.
Enfim, o pensar Portugal sempre no imediato, de acordo com os interesses economicistas, ora de Ingleses, ora de Franceses, ora de Alemães. E, ás vezes, até dos nuestros hermanos. É vida. Tudo tem um preço.

Vou navegando no Tejo. Vejo as manchas de aves nas margens. Além são garças.
E, no meio deste silêncio, escuto pensamentos e conversas, polémicas, sobre as aves e o aeroporto.
Alguém me diz, porque sabe, que os habitats das aves em nada, mesmo nada, colidem com o território onde vai ser construído o aeroporto. Não colide o aeroporto, como não colidiu a Ponte Vasco da Gama. As aves vão continuar a voar naquele território, porque este território faz parte de uma realidade mais vasta que liga o maravilhoso mundo das aves que vai de África ao Norte da Europa. As aves vão continuar. O aeroporto não vai colidir com os habitats das aves.
Sim, isso sim, o que pode acontecer é uma ave - como uma águia – ser sugada pelo reactor de um avião. Isso pode acontecer. E quando acontecer, que pode acontecer em qualquer circunstância. Acontece tragédia.
Não são os aviões que colocam em causa os habitas das aves. São as aves que podem colocar em causa os aviões.
Coisas da vida. A história julgará quem decidiu...rezemos!

Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

05.11.2019 - 18:37

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