Conta Loios

inferências

Barreiro - Por dentro dos dias
Perestroika e Troika - passado é sempre a semente do presente.

Barreiro - Por dentro dos dias<br>
Perestroika e Troika - passado é sempre a semente do presente.Hoje, neste dia que passam 30 anos da queda do muro de Berlim, o que me ocorreu à memória, foi o sonho da Liberdade e estas duas palavras - Perstroika e Troika.

No dia de hoje, há 30 anos, em 1989, também vivi, de forma intensa, a queda do muro de Berlim. Foi uma surpresa anunciada. Como outros, não senti que estava a viver um momento marcante, assim, como sendo o fim da história, referida por Francis Fukuyama.
Mas, senti que estava a viver um tempo de ruptura, um corte com uma experiência da humanidade que, afinal, tinha sido um fracasso, quando através dela se perspectivou um mundo novo, um homem novo, uma nova página da história da humanidade.
Este acontecimento foi mais um passo, das mudanças e reconstruções que vinham sendo anunciadas, desde o ano 1986, com o início da Perestroika.

Recordo, que por estes tempos, nos anos 86 ou 87, foi realizado um Debate no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, no qual participaram uns convidados oriundos da Checoslováquia, no final do qual, então, fiquei vibrando a tecer comentários sobre as várias intervenções que acabava de escutar. Afirmei, que tinha acabado de viver um debate que trazia um sinal óbvio, que estava em marcha uma profunda mudança no pensamento teórico «marxista-leninista». O debate vivido era, mesmo, um pensar outro «marxismo-leninismo», por dentro do fazer perestroika, com uma interpretação «fora da caixa» e em ruptura com os dogmas.

Senti naquela noite, na verdade, que algo de novo estava a acontecer. Afinal, na vida, tudo começa no campo das ideias, no desocultar pensamentos.
São as palavras que traduzem a forma de interpretar o mundo. É através das palavras que abrimos caminhos no presente, são elas que anunciam o futuro. Sementes.
Senti naquela noite, desabrochar dentro de mim, o começo de uma reflexão politica e filosófica que conduzia a uma nova forma de pensar o mundo e a humanidade. A necessidade de pensar a história. A importância de reflectir sobre os caminhos. A urgência de se encontrarem soluções, sem medo de assumir os erros cometidos. Recomeçar.

Sempre considerei que a reflexão filosófica é essencial à reflexão politica, e, por exemplo, foram os tempos da perestroika que permitiram soltar amarras, esse, foi um tempo que senti como um regresso da filosofia ao pensamento politico, a importância do confronto de ideias, para através delas desbravar e criar utopias. Fazer caminhos e semear opções.
Um tempo que deixava para trás, bem para trás, aquela conversa que um dia mantive no barco entre Lisboa e o Barreiro, com um prestigiado histórico do Barreiro.
Eu que vinha de uma aula da Faculdade, falava de Jean Jacques Rousseau, de Hegel. Filosofava. Ele, de dedo esticado voltou-se para mim e disse-me: “Isso, é conversa de filosofos. Os filosofos são homens mortos. Sabes, já Marx dizia...”. Escutei. Calei. Não havia nada a dizer, pois, «já Marx, dizia..».

A Perestroika era esse sinal que dizia Marx, tal como outros filosofos, também era um homem morto. E, com ele e com todos esses homens mortos, nós, todos nós, temos muito a aprender. O passado é sempre a semente do presente.
A Perestroika, dizia-me que muita coisa estava ainda para acontecer, o futuro estava vivo nas palavras onde se construia o presente. Era o tempo que anunciava o «sabor da palavra liberdade», ou, até, o «viver um amor, chamado Abril».
É verdade, há 30 anos, quando o muro de Berlim começou a sua derrocada os militares da então, ainda, RDA estavam por ali, nas ruas, impávidos e serenos de armas na mão, com cravos ao peito. O cravo da Liberdade.

A Perestroika ensinou-me isso, a viver o mundo das ideias através do confronto de ideias. Afinal, sempre que a politica se reduz a maus e bons, a discussões de clubites, a imposição de pensamentos únicos como dogmas para a acção, o caminho é sempre o mesmo, a decadência e a derrocada. A história da humanidade prova-o. Tem sido assim, com dramas e tragédias, com sangue e dor... é assim, infelizmente que a história avança e se reconstrói futuro.

O debate de ideias, o respeito pelas diferenças, o aprofundamento de ideias, a reflexão filosófica, são determinantes nos caminhos e escolhas da humanidade.
Foi isso que aprendi com a perestroika. Esta, de facto, foi uma palavra que se inscreveu na minha vida. No repensar ideias, no reconstruir caminhos, no sentir que há uma grande diferença entre o que se diz e o que se faz – entre propaganda, marketing e a vida real. Experiências históricas.
Sim, foi há trinta anos que caíu o mundo de Berlim. Um passo na busca da democracia como caminho de esperança.Um mundo novo.
Afinal, estamos nesse mundo, o mesmo, onde há cada vez mais «muros económicos», onde a «ideologia é a economia». Ponto final. Os números. As contas certas.
Hoje, afinal, constroem-se outros muros para travar a emigração. O Mediterrâneo é um muro de morte e silêncio.
Todos os muros, em todos os tempos, continuarão a matar e fazer prisioneiros. Os muros ideológicos há para todos os gostos, só que há uns que acham que uns são mais muros que outros muros.

Depois das aprendizagens e opções de vida, nos tempos vividos, em tudo o que senti e o que me foi proporcionado sentir na pele – dentro dos nervos dos dias - em torno da palavra perstroika, outra palavra veio inscrever-se nos dias da minha vida – a troika!

Se com a perestroika vivi a dor a rasgar pensamentos e ideais, o recomeçar a reviver as ideias e o o pensamento que faz humanidade, esta outra palavra, veio fazer-me sentir a dor dos bens materiais, a força da cor do dinheiro. A dor da angústia de pessoas a perder as suas casas, de muitos que optaram por negar a vida. Foi isso sim, foi isso, que aprendi com a palavra TROIKA.
Essa que doeu mais, muito mais que os muros ideológicos de Berlim, do cair das utopias do leste, que muitos confundem com o cair de valores que fazem parte da história da humanidade, de correntes de pensamento com raízes no ser e fazer humanidade. Resistência. Liberdade.

Essa palavra troika, fez cair os muros da vida de muitos portugueses, todos, de súbito acusados de viver acima das suas posses. Que gastavam e bebiam.
A palavra que recordo aquele senhor que dizia – “ai aguenta, aguenta”. E o outro que dizia que se todos os portugueses não comessem durante um ano, pagava-se a divida.
A palavra troika tocou fundo, nos bens materiais, esses onde as ideias pouco ou nada contam, onde os lesados dos seus direitos, os espoliados. Sofrem, Gritam. Aguentam, os que aguentam.
Nunca vou esquecer uma frase que me foi dita, olhos nos olhos, por um social democrata – “Se na Guerra Mundial morreram milhões de pessoas, agora, para salvar Portugal se morrerem alguns portugueses, não faz mal”. Foi mais ou menos isto, era este o seu pensamento. Disse e não sorriu.
A Troika doeu, doeu mesmo muito. Fez-me sentir o que é a politica construída de ilusões. As politiquices.
Fez-me sentir o país que somos. Submissos. Dóceis aos poderes que governam o mundo.

A troika fez-me sentir o valor do dinheiro na vida, coisa que nunca liguei, nem ligo. Afinal, sou feliz com o pouco que tenho. Basta-me viver de cabeça erguida e sorrir.

Hoje, neste dia que passam 30 anos da queda do muro de Berlim, o que me ocorreu à memória, foi o sonho da Liberdade e estas duas palavras - Perstroika e Troika.
Palavras inscritas com dor e com amor, no sangue, nos nervos, nos passos que fazem a vida.
Palavras que ajudam a perceber e, isso mesmo, sentir como é doloroso o caminho de cada um de nós e da humanidade, para construir os dias com dignidade, por dentro, e com a palavra Liberdade!

Até já, divirtam-se!

António Sousa Pereira

09.11.2019 - 23:29

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2019 Todos os direitos reservados.