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A(nota)mentos - Na Estação Ferro-Fluvial do Barreiro
Antigo Centro Comercial já era tempo de ser desmantelado
. Vai nascer futuro?

A(nota)mentos - Na Estação Ferro-Fluvial do Barreiro<br>
Antigo Centro Comercial já era tempo de ser desmantelado<br>
. Vai nascer futuro?<br>
Fico feliz se, de facto, se concretizarem, a médio prazo, os projectos que, consta, estão sendo germinados, em torno das carruagens, na revitalização da estação, no derrube do Centro Comercial.

Este projecto que preserva o património e faz nascer futuro. Um projecto que devolve a paisagem. Um projecto que não deixa degradar a história e vai manter viva esta memória do século XIX, do Barreiro e de Portugal.
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Na antiga Estação Ferro-Fluvial foi construído um Centro Comercial , não sei a data, talvez pelo começo dos anos 80. Na época, ninguém se indignou, porque, ninguém teve preocupações ambientais, nem de defesa do «direito à paisagem», nem sequer nenhuma voz, responsável por politicas culturais e ambientais, se ergueu em protesto contra o atentado ao património, aquele de construir um anexo que desvirtuava completamente um edificio histórico e impedia a fruição da paisagem naquele recanto de silêncio, onde, numa dimensão visual, não se sabia onde começava o Coina e acabava o Tejo, ou se beijavam nas suas águas.

Na época aquele Centro Comercial era uma «coqueluche». Tirando a Livraria Bocage, ali, existia uma livraria que era o outro local no Barreiro, onde se podiam adquirir as últimas edições, ou até encomendar os livros em voga, nas mais diferentes temáticas.
Ali, existia um bar, com uma fila de mesas voltadas para o rio, onde se podia tomar café, almoçar e, até, quantas paixões nascidas nas viagens, entre as duas margens, ali, entregavam-se a beijar-se nos olhos.

Ali, existiam, lojas de roupas, sapatarias, supermercado. De tudo um pouco. Era um centro Comercial a sério, num tempo em que o comércio, ainda era comércio. Num tempo em a Estação fervia a circular passageiros rumo ao sul, de chegadas e partidas, e, aproveitava-se o Centro Comercial para as últimas compras, no caminho de regresso ao Alentejo ou ao Algarve, ou as compras ao fim do dia para o jantar. O frango assado. Ali, pulsava a história ferroviária do Barreiro. Esse Barreiro cantado, por Adriano Correia de Oliveira ou Tonicha – “Quando cheguei ao Barreiro. No barco que atravessa o Tejo. Chora por mim qu´eu choro por ti. Já deixei o Alentejo.”

Era esse, outro tempo, de uma cidade a pulsar de vida quotidiana, de energia de trabalho, de gerações filhos de operários, que estudavam em Lisboa – Médicos, engenheiros, biólogos, arquitectos, que fizeram de facto, nos anos 90, o Barreiro como um dos primeiros concelhos do país com maior número de licenciados. Isto num tempo que a decadência industrial já dava os seus passos acelerados para o fim da desindustrialização.
Este Centro Comercial é uma memória desse tempo, e, hoje, o sinal vivo da degradação económica da cidade, uma marca viva dos resíduos do século XX.

Um espaço que foi usado enquanto serviu, que, depois, pouco a pouco foi encerrando as portas, e, obviamente, com a abertura do novo terminal ferro-rodo- fluvial, com a deslocalização da linha de caminho de ferro – apenas destinada a servir a Linha do Sado, porque os comboios para o sul deixaram de chegar aqui, logo que entrou em funcionamento a via férrea pela Ponte 25 de Abril.
O fim do centro Comercial estava anunciado. Assim como o fim da Estação Ferro- Fluvial.

A CP, a REFER, a IP – Infraestruras de Portugal, e, outras coisas mais que existiram ao longo de anos, tuteladas pelos mais diversos governos nunca olharam para este sitio. Era um património para cair. Só neste país.
E, entretanto, localmente os defensores dos governos apontavam o dedo à Câmara, disfarçadamente, lançando sobre o Poder Local as responsabilidades de nada ser feito e deixar degradar aquele património.
Sim, de facto Poder Central nada fez e nada ligou e o futuro, como canta o Fernando Tordo - «foi aquilo que se viu”.

E, cá estou eu, a falar do dito, o tal, o Senhor chamado Carlos Humberto, que de forma «paulatina» conversou com governos PSD e PS. Trouxe ao Barreiro membros dos dois governos. Alertou para o estado das coisas
Conseguiu que fosse, num governo PSD, criado um grupo de trabalho, já neste século XXI, para fazer uma coisa essencial – um inventário do património, o que era da CP, ou o que era da REFER, ou que era da IP, a quem pertencia o cada equipamento. Isso foi feito.
Foi isso que permitiu, um dia, a Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, vir ao Barreiro, e, acordar a passagem da Doca Seca para a responsabilidade do Poder local.

Mas, também, com a criatividade dos serviços municipais da área de planeamento e a coordenação politica de Rui Lopo, avançou-se para concursos de ideias, no sentido de encontrar soluções para aquele território ferroviário da Doca Seca à Estação Sul e Sueste.
Há, dizem, diversos estudos e trabalhos de licenciatura e mestrados sobre este território na Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Ao nível internacional este território ferroviário tem sido «caso de estudo» e visitado por estudantes de universidade europeias.

Os anos passaram, e, apesar de todos os estudos e dos sonhos gerados, chegamos aos dias de hoje e a realidade está à nossa vista.
Ao longo dos anos Movimentos de Cidadãos também já ergueram a sua voz em protesto contra a degradação.
Nem todo o património passou para a responsabilidade do Poder local. Nem os governos exigiram aos organismos que tutela que apresentem-se soluções.
A Doca Seca foi resolvido, como solução de apoio aos pescadores do Tejo, Carlos Humberto deixou esse legado. A obra em breve vai começar e muito bem.

Agora a Estação Sul e Sueste por ali continua à espera de uma solução.
Aquele Centro Comercial é um verdadeiro «mamarracho» e, por ali, está uma «mina de amianto» que ninguém fala, já devia ter sido derrubado. Ainda recordo o tempo que ficava ali, ao canto, no sitio onde estava perto da sirene que tocava nos dias de nevoeiro. Era uma paisagem linda para os moinhos e para o Seixal e Coina. Ali sentíamos os três rios abraçarem-se – o Tejo, o Coina e o Judeu.

Pelo que me constou, parece que, em breve aquele «armazém de ferro velho» vai ser derrubado, libertando aquele espaço e dando-lhe condições para que ali possa, quem sabe, existir uma bela esplanada para o rio.

O assunto consta que está ligado ao projecto que vai nascer em torno das carruagens que chegaram recentemente e, também, com a revitalização da Estação Sul e Sueste. Foi dito que este é um projecto privado, que nada tem a ver com a Câmara Municipal do Barreiro. É uma iniciativa privada que estará em análise com a IP.

A ser verdade isto é positivo. Já é tempo de avançar uma solução integrada. Não tem qualquer mal que seja privada. O importante é que se acabe com a degradação daquele património, que se revitalize, que se humanize. E certamente, nem será preciso privatizar.
O governo e a tutela devem tudo fazer para encontrar uma solução. Isto sim, renovado e requalificado, pode ser um ponto de atractividade turistica, motivar os lisboetas a vir a esta margem. E, aqui, viver a história, encontrar-se com páginas escritas por Fialho de Almeida ou Manuel da Fonseca.

Ao pensar que este espaço da Estação Sul e Sueste pode ser renovado e requalificado, numa acção do IP em parceria com privados, fico feliz e, digo – parabéns aos que estão, aqui e agora a fazer nascer o futuro com qualidade e respeitando o passado.
Penso nisto e, ao mesmo tempo, fico triste, com o facto de a ponte pedonal ter sido suspensa. Esta seria um ponto estratégico de grande importância para dar escala intermunicipal e visitação ao investimento que possa vir a ser concretizado em torno da Estação do Sul e Sueste. Enfim, as tais decisões que apenas adiam o futuro. A ponte pedonal, equipamento seria um equipamento único no Tejo, ela, só por si uma atractividade para ambientalistas, paisagistas, desportistas, amigos do lazer, para todas as gerações.
Com a eventual requalificação do território da Estação do Sul e Sueste, com a proximidade da ADAO, com a ponte pedonal, era a cereja em cima do bolo. Isto sim, atraia turistas e gerava um zona de referência metropolitana. O Barreiro abria portas aos territórios limitrofes.

Fico feliz se, de facto, se concretizarem, a médio prazo, os projectos que, consta, estão sendo germinados, em torno das carruagens, na revitalização da estação, no derrube do Centro Comercial.
Fala-se em criação de atellie’s, zona de restauração, projecto de alojamento local, espaço de perseveração de memórias. Um Barreiro ao encontro das janelas de oportunidade dos dias de hoje, modernizando-se e mantendo as memórias ferroviárias.
Se é um projecto privado que seja, a IP que o acarinhe, dinamize, aqui e agora, escrevendo uma página na história do Barreiro.
Os barreirenses agradecem que o governo e os organismos que tutela olhem para esta margem.
Este projecto que preserva o património e faz nascer futuro. Um projecto que devolve a paisagem. Um projecto que não deixa degradar a história e vai manter viva esta memória do século XIX, do Barreiro e de Portugal.

Até já, divirtam-se!
António Sousa Pereira

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14.11.2019 - 11:44

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