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Por dentro dos dias - A lição do professor Hernani Lopes
Pensar superficialidade. Pensar profundidade. Viver credibilidade

Por dentro dos dias - A lição do professor Hernani Lopes<br />
Pensar superficialidade. Pensar profundidade. Viver credibilidade Em suma, a credibilidade não se alcança pelo imediatismo, nem pela projecção mediática. A credibilidade assenta numa base sólida que se constrói em primeiro lugar, em acções que têm como raiz e estrutura base as palavras – inteligência, vontade e energia. Em segundo lugar, viver com valores, atitudes e padrões de comportamentos exemplares.

No decorrer da presidência aberta, promovida pelo Presidente da República, Mário Soares, realizou-se um colóquio na SFAL, no Lavradio, o qual contou com a participação de Hernani Lopes. Foi um colóquio que registei na memória, que me ajudou a pensar e a sentir o Barreiro, os seus problemas e dramas, no pós desindustrialização. Estávamos nos anos 90, os efeitos começavam ser visíveis.
Hernani Lopes, ali, em pleno cavaquismo, salientou a necessidade de se pensar uma estratégia para o território. Pensar futuro. O governo só tinha uma meta libertar-se. Fechar as fábricas, sem futuro, por perda de competitividade ao nível da economia global, para fechar o sorvedouro de verbas do estado e fechar a torneira ao aumento da divida.
Começou a era dos DLD’s – desempregados de longa duração, das reformas antecipadas. Em alguns casos o desemprego, ou, até as indemnizações. Tempos duros.

Pensar o território e soluções. Zero. Na outra margem viria a nascer a EXPO 98, em territórios de fábricas que, pelas mesmas razões das fábricas do Barreiro, com as novas tecnologias e as novas exigências ambientais, não tinham outro futuro. Fecharam as portas. Foi nesse território que nasceu a Lisboa moderna do século XXI – o Parque das Nações.
Nesta margem esquerda. Nada.
E, ainda há por aí, quem, sem sorrir, mas, apenas com «muros ideológicos» que cheiram a bafio, teimam em apontar o dedo e fazer acusações. Criticismo barato. Propaganda bolorenta, de quem não sabe, não sentiu na pele a fome e a dor dos dias. Talvez, até, pense que a vida é um mar de rosas, ou um laranjal de primavera, onde, afinal, são os malandros de faca e alguidar que só querem o mal do mundo e destroem esse mundo perfeito, esse, onde diariamente cultivam ódio, rancores. xenofobia. Intolerância. Enfim, é vida. A história da humanidade é uma grande lição, de terror e de amor. Acreditem. Não vale tudo.

Mas, isto veio a propósito de um texto que encontrei nos meus registos, aquelas notas que fazem sentir a vida e o tempo que vivemos.
São palavras de Hernani Lopes, numa reflexão que fez sobre o que define como «Pirâmide da Actividade Económica». Uma bela lição. Registei, Guardei, e, hoje por acaso veio às minhas mãos, neste dia que passam 188 anos do falecimento de Hegel. Um filosofo que admiro.

Dizia Hernani Lopes, a propósito das regras para gerar pensamento estratégico e construção de vida.
Quase uma oração. Um hino à vida.

Onde está facilitismo coloque exigência.
Onde está vulgaridade coloque excelência.
Onde está moleza coloque Dureza.
Onde está golpada coloque seriedade.
Onde está videirismo coloque honra.
Onde está ignorância coloque conhecimento.
Onde está aldrabice coloque honestidade.
Onde está mandrice coloque trabalho.

Depois acrescentava que para se concretizar uma estratégia, transformando-a em acção é preciso ter em consideração três dimensões: o tempo; o espaço e o modo.

Sublinhou que ao realizarmos as acções temos sempre duas opções – a superficialidade e em profundidade.

Recordou que a acção estratégica realizada em SUPERFICIALIDADE, é aquela que realizada no tempo IMEDIATO, num ESPAÇO estratégico que só tem em conta a situação do mercado, o nível da economia e a gestão da divida – as tais contas certas.
Neste âmbito, sublinhou que o modo de acção, visa apenas realizar medidas concretas e apostar na projecção mediática.

Mas, por outro lado a acção estratégica realizada em PROFUNDIDADE, essa pensa a realização das acções numa dimensão TEMPORAL de médio e longo prazo, procura concretizar acções com uma dimensão no ESPAÇO, olhando para a afirmação na região, os resultados a atingir no futuro, e, tendo em conta uma visão global.
O modo de realizar as acções estratégicas, nesta dimensão de profundidade e não imediatistas, tem por base modos de agir que são determinados por valores, por atitudes, por padrões de comportamento que motivam gerar credibilidade.

Em suma, a credibilidade não se alcança pelo imediatismo, nem pela projecção mediática. A credibilidade assenta numa base sólida que se constrói em primeiro lugar, em acções que têm como raiz e estrutura base as palavras – inteligência, vontade e energia. Em segundo lugar, viver com valores, atitudes e padrões de comportamentos exemplares.
Os jogos do poder, os fluxos de informação, o mercado e os preços – aquilo que tudo compra, aquilo onde tudo e todos têm um preço – isso faz parte do sistema, é o lugar onde só conta a lei da sobrevivência, não olha a fins. É vida.

Estive a recordar. E pensei partilhar. Aqui fica, uma lição de Hernani Lopes...o homem que veio ao Barreiro, a convite de Mário Soares, para dizer que era preciso encontrar caminhos para a desindustrialização.
Agora, neste tempo que já estamos no pós-desindustrialização, continuamos à procura de caminhos. E, muitos acreditando que arranjando culpados, tudo resolvem. Limpam a consciência. Afinal, é isso o jogo do poder...os mercados tudo resolvem. Sobrevive-se no imediato! O futuro outros que resolvam.

Até já divirtam-se!

António Sousa Pereira

15.11.2019 - 00:05

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