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Barreiro - Por dentro dos dias
A minha neutralidade chama-se Liberdade.

Barreiro - Por dentro dos dias<br>
A  minha neutralidade chama-se Liberdade. O Mestre Manuel Cabanas – socialista – vendia, no Barreiro, aos seus amigos os livros de poemas de Vicente Campinas – comunista, que estava em Paris, na clandestinidade.
Dois homens nascidos na minha terra natal que aprendi a admirar, eles, nas suas diferenças, de forma exemplar cultivavam a Liberdade.

Um dia nos tempos idos, lá, longe, naquele tempo, quando as palavras sufocavam, quando olhávamos para o futuro, com vontade de fazer futuro. Quando o futuro, então, se escrevia com a palavra Liberdade.
Nesse tempo, o Mestre Manuel Cabanas, vendeu-me um livro de poesia, de Vicente Campinas.
Hoje, na distância do tempo que está inscrita nas cores do meu cabelo, recordo esse livro, do qual inscrevi um poema nos meus nervos. Aqui e agora, com tudo o que vivi, sinto a força desse poema inscrita ao longo do tempo, como energia que sempre deu força aos meus dias, nos momentos de luta, nos momentos de mágoa, nos momentos de sonho e esperança. Nos momentos de estar de pé, com convicções. Resistir. Rupturas.
Com esse poema cheguei aos dias de hoje, com essas palavras a gritar sempre, de pé no meu ser, esse sentimento de “não ser neutro na luta contra o cerco”. Contra todos os cercos que visam calar. Contra todos os cercos que visam cortar a voz, sempre que a voz é semente de diferenças e Liberdade.

Foi um poema que me deu força para respirar por dentro das palavras, por dentro do silêncio das lágrimas, nesse tempo que, sinto, foi onde encontrei o sabor da palavra liberdade.
Num tempo que os sentimentos floriam nas entrelinhas. Ou até, nos tempos que as prateleiras queriam conduzir à humilhação. Ou nos tempos que cantávamos em coro – canta, canta, amigo canta!

O poema de Vicente Campinas gritava na minha consciência, essa força, de nunca ser neutro. Nunca ser neutro na luta contra o cerco. O cerco que assombra.
Não é o cerco da solidão, é o cerco da prisão. É cerco que oprime. É o cerco dos submissos. É o cerco da inércia. Aguenta.
Não ser neutro, é ter sempre opinião. Não ser neutro é ser dentro do ser, esse que é o ser que faz, cada um de nós, sermos humanos. Só somos livres tendo opinião. Sempre tive opinião.

Foi essa a lição que aprendi nesse tempo, antes de Abril acontecer, que inscrevi nos meus nervos e transportei em todos os momentos procurando dar vida à vida. Vivendo. Amando. Construindo, com o povo, sendo povo. No associativismo. No cooperativismo. No jornalismo. Nos ismos que abracei e abraço. Todos. Com orgulho. Todos dentro de mim, bem dentro da vontade ser e nunca ser neutro. Aprendendo com os erros. Só os perfeitos não erram. Ninguém nasce para nada. Apenas nascemos para sermos nós próprios, no tempo que vivemos com os outros. A perfeição é esse encontro com a vontade de nunca ser neutro. Quem é neutro não se encontra com o seu interior. Ser um eu. Ser um tu. Ser um nós.

O Mestre Manuel Cabanas – socialista – vendia, no Barreiro, aos seus amigos os livros de poemas de Vicente Campinas – comunista, que estava em Paris, na clandestinidade.
Dois homens nascidos na minha terra natal que aprendi a admirar, eles, nas suas diferenças, de forma exemplar cultivavam a Liberdade.

A liberdade começa a construir-se na construção do respeito pelas diferença. E ser diferente é isso, apenas isso, não ser neutro na luta contra o cerco, contra os cercos, sejam eles quais forem, por vezes até são cercos vestidos de democracia. A democracia pura e dura, a tal, absoluta .
Todos os cercos pretendam manipular. Todos os cercos pretendem controlar. Usam os outros, quando são úteis. Deitam fora, sem respeito. Os cercos, todos os cercos querem destruir identidades e sonhos.
Todos os cercos querem calar. Todos os cercos ignoram, que, em todos os tempos, há sempre uma estrela de alva que anuncia um amanhecer. Em todos os tempos há homens que sonham. O sonho está no sorriso de uma criança.

Escrevo estas palavras, hoje, dia 11 de Fevereiro, data que marca os 118 anos de nascimento de Manuel Cabanas, um homem que me ajudou a descobrir a palavra Liberdade, um homem com quem partilhei momentos únicos, aqueles momentos que sentimos, no coração, a história a pulsar no sangue. Somos com outros actores do tempo que vivemos. É isso, afinal, que nos dá a energia de não ser neutros. Não ser neutros é ter consciência do tempo que se vive, na sua totalidade, que vai para além das ideias que abraçamos, isso, acreditem - é ser.
E, já agora, este ano de 2020, em Maio, são assinalados 25 anos da partida de um grande senhor que, sendo natural de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António, aqui, no Barreiro tinha a sua terra do coração.
«Não sou Comendador, sou Barreiro Reconhecido», afirmava com orgulho Manuel Cabanas.
Por favor, não esqueçam Manuel Cabanas. O homem. O politico. O artista. O resistente. O Maçon. O socialista. O ferroviário. O mestre da Escola Alfredo da Silva. Ainda escuto a sua voz a clamar – Liberdade.

Pois é, Ti’Manel, eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, e, nos dias de hoje, cada vez mais é tempo de cantar esta canção.
Não me tomem por neutro. Nunca me tomem por neutro. Tenho um sonho, que se escreve com a palavra Liberdade. A minha neutralidade chama-se Liberdade.

António Sousa Pereira

11.02.2020 - 01:07

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