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Inferências - Barreiro
O paradigma entre os binómios «Passado-Mudar» e «Futuro- Mudar» - III
. Dois anos de «politica do cuco»

Inferências - Barreiro<br />
O paradigma entre os binómios «Passado-Mudar» e «Futuro- Mudar» - III<br />
. Dois anos de «politica do cuco» Hoje, como há dois anos atrás, continuamos sem ter uma ideia de cidade. A estratégia que estava em análise de desenvolvimento de uma cidade de lugares e sitios – um concelho cidade, está adiada. Não se sabe se é para continuar, se vai ou não ser equacionada na revisão do PDM. Se há estratégia para a revisão do PDM, está no segredo dos deuses.

Após os dois textos anteriores, nos quais teci considerações sobre reflexões que me ocorreram no decorrer dos assuntos e as abordagens dos mesmos relativo à última reunião da Câmara Municipal do Barreiro, fecho estes comentários com esta inferência que é isso, apenas isso, uma análise de indicios directos e indirectos, do pensar e sentir as vivências da comunidade, nos dias de hoje, que, no plano politico estão, cada vez mais, centradas nas narrativas das reuniões de Câmara Municipal. A politica local está cada vez mais municipalizada. O centro da vida politica no concelho do Barreiro está na Câmara.

Uma coisa é a vida da comunidade desenvolver-se em torno de politicas municipais, outra coisa é a vida municipal estar centrada na Câmara Municipal. Nunca foi tanto assim, nos anos após o 25 de Abril, como tem sido nestes últimos dois anos. A vida politica local existe em torno do que se diz e discute na Câmara Municipal. A Assembleia Municipal é um eco da Câmara, não tem agenda própria, limita-se a ser um espaço de análise das propostas da Câmara. Os partidos pautam-se pelo silêncio ou inexistência, devem começar a ter posição sobre matérias e ter iniciativas, talvez, no próximo ano. Tudo o resto é o resto. O debate de ideias também está centrado nos aziados e nos azedos. Os maus e os bons, os que querem a unidade dos barreirenses, sendo um exemplo dessa filosofia, mais de 40 anos após o 25 de Abril, criar a rotunda da união – união dos barreirenses. Uma espécie de um monumento contra os que só querem dividir. Não se percebe que a democracia faz-se em torno da unidade na diversidade, esta é dialéctica. A unidade na unidade na unidade, essa é dogmática. Não foi isso que criticaram durante anos. A unidade na diversidade gera a pluralidade, isso é que é democracia. A democracia não é uma ideologia, já o escreveu há décadas Virgilio Ferreira.

Nestes tempos, e pensando com o que têm sido os debates nesse apologético forum politico municipal – a câmara, mais uma vez comprovado nesta última reunião, com as leituras que emergem nas entrelinhas - o que se pode dizer é que, na verdade, até aos dias de hoje, vivemos dois anos de «politica do cuco».
As propostas que foram surgindo e sendo aprovadas, objectivamente, na generalidade, foram resultado de linhas de acção e de projectos que estavam em carteira da anterior gestão CDU. O que foi feito na vida local, de uma forma geral, com uma outra alteração, ou visão diferente sobre o território, teria sido feito na mesma.
Desde a Rotunda na Avenida das Nacionalizações, passando pelo Moinho Pequeno, as obras na Quinta das Canas, em torno do LIDL, na Quinta da Lomba; o desbloquear das garantias bancárias, para resolver as situações junto ao Forum Barreiro, ou no POLIS, tudo isso estava a decorrer, e, estaria a ser concretizado se a gestão tivesse continuado nas mãos da CDU. O PS geriu o que tinha que gerir e bem, mau seria se não tivesse feito, nisto não vem mal ao mundo. Sempre assim foi, sempre assim será, o que não é justo é fazer cosmética e meter ar de mudança, quando não passou de continuidade na continuidade, no modo e no modelo, Mudou a forma de comunicar. Muito bom. Nota de excelência.

Os novos autocarros. As intervenções nas AUGI’s. Os ditos, com pompa e circunstância, maiores orçamentos de sempre, fruto de reforços de transferências do Orçamento de Estado, de aumento de receitas de IMI, de redução de divida concretizada em mandatos anteriores. Nada de novo, antes pelo contrário o actual executivo só devia agradecer ao anterior as boas finanças que herdou. Tudo o resto é mera politica. As tais boas noticias.

Aliás, muito do que está anunciado que vai ser feito, com o que vai acontecer nos terrenos junto a Alburrica, já estava em fase final de negociação, assim como os cais da Doca Seca e a eventual lota para pescadores, foi assinado em protocolo, com a Ministra do Mar pelo anterior executivo. É pena que aquele muro ao fim da Avenida da República ainda lá continue, essa mais uma obra que vai dar nas vistas e já estava em carteira.
Das mudanças anunciadas, pelo que foi feito no terreno, e, mesmo nas ditas desmaterializações tecnológicas, eram coisas já anunciadas. Em suma, mudou alguma coisa, para tudo ficar na mesma.

Oficinas do Nicola na Baía do Tejo

Se fosse a CDU que tivesse vencido as últimas eleições, muito do que foi feito teria na mesma sido feito, e, por outro lado, muito do que não foi feito, por exemplo, talvez o Nicola já estivesse a funcionar nas antigas Oficinas da Sotinco, no Parque Empresarial da Baía do Tejo. E não se tinha optado por essa má solução de utilizar um ex- LIDL que vai afectar a qualidade de vida de uma zona urbana.

Ponte Pedonal Barreiro - Seixal

Também teria sido avançado, por exemplo, a construção a ponte pedonal Barreiro – Seixal, uma obra estruturante para uma estratégia de turismo de lazer e ambiental na AML, uma obra de referência regional, que, por outro lado estava a dar escala intermunicipal e interregional, podendo contribuir para valorizar o projecto que, se diz, vai avançar na Estação do Barreiro Mar, claramente integrado na estratégia de turismo da AML 2020-2024. Assim ficamos a marcar passo. Opções.
Acredito, que não foi por questões financeiras que esta obra não avançou, foi meramente por adiar o projecto. Ter assumido outras opções, como a dita pseudo nova centralidade junto a estação do Barreiro A, que de nada serve para alargar a área urbana, enquanto estiver paredes meias com o território fechado da Baía do Tejo.
A actual gestão autárquica herdou a melhor herança financeira do municipio de todos os tempos após o 25 de Abril. Os anterires executivos sofreram e gemeram, desde Helder Madeira, Pedro Canário, Emidio Xavier e Carlos Humberto. Hoje, ter a casa arrumada, e com capacidade de endividamento é uma maravilha. Mau seria se fosse feita má gestão dos recursos herdados.

PDM e futuro

Por exemplo, hoje, como há dois anos atrás continuamos sem ter uma ideia de cidade. A estratégia que estava em análise de desenvolvimento de uma cidade de lugares e sitios – um concelho cidade, está adiada. Não se sabe se é para continuar, se vai ou não ser equacionada na revisão do PDM. Se há estratégia para a revisão do PDM, está no segredo dos deuses.
A revisão do PDM que foi arma de arremesso politico. Hoje não é assunto. O PDM continua por rever. Não há qualquer discussão pública. Não se conhece estratégia.
Mas, por outro lado, tudo o que se faz no território e diz-se que se pretende fazer, justifica-se que
está de acordo com o actual PDM, Agora, até se afirma que não se estava contra o PDM, estava-.se contra o atraso da revisão.
O PDM, o tal, que se criticava porque apontava para o desenvolvimento de uma cidade de betão. Agora já é bom, o problema é o atraso da revisão. Uma revisão que só pode ser concretizada se o Poder Central clarificar estratégias de desenvolvimento para a região, uma delas a Terceira Travessia do Tejo, agora anunciada como provável entrar na agenda politica lá para 2027, tudo depende do evoluir das verbas dos fundos europeus e nas finanças públicas.

O facto é que dois anos depois, mesmo sem revisão do PDM, não se conhecem ideias estratégicas para o território. Diz-se que mais que falar, opta-se por fazer. E lá vão fazendo, sem que se conheça as razões de gestão do território e de uma visão de cidade. O que é feito tem sempre como referência centra as questões financeiras. Um falso argumento. Fica-se com a ideia que o dinheiro é que faz tudo, gere-se a pensar dinheiro. É o caso da venda da Quinta Braamcamp. É caso do campo do Luso, hipoteca-se, essa sim uma centralidade, numa zona de grande densidade populacional, em troca de umas rotundas e um campo de futebol.
Não se conhece uma estratégia de animação e desenvolvimento estruturante do centro da cidade, basta ver o que acontece com a reflexão sobre os direitos de preferência nas reuniões de Câmara.
Não se conhece qual a estratégia existe para o futuro para o Barreiro Velho. O que se comenta é o imobiliário. Anunciam-se a consulta ao mercado de empréstimos de milhões para a revitalização do Barreiro Velho, mas desconhecendo-se a estratégia, nem existe uma ideia do que se pretende fazer, para além de um mapa com ruas pintadas. Não se conhecendo a tipologia da intervenção. Temos que acreditar. Participar é acreditar é ter fé. E ainda, há quem critique a falta de participação nas gestões CDU.

Revitalizar não é só a intervenção no espaço urbano. Tem que existir um programa para o edificado em cooperação com os privados. Tem que existir um programa social e económico. Tem que existir uma estratégia de renovação demográfica e de realojamentos. Não se sabe nada. Anuncia-se com pompa e circunstância. Uma visão. Brinca-se com o fogo.
Esperemos que não seja mais uma visão, daquelas com video, para servir a politica de imagem, de entretenimento politico e de ilusão, ao estilo da roda gigante. Ou do video que apresenta o concelho do Barreiro no canal youtube da CMB, que está bem feito, mas se for visto com atenção é o melhor e mais belo elogio á gestão da CDU, nos últimos doze anos. A CDU devia pegar nesse video para a sua estratégia politica. Está perfeito. A mudança anunciada já existia na vida real. Aquele video é a prova.

No passado. Tivemos o video, com roda gigante e uma visão, uma peça de uma politica comunicacional que teve por base o binómio; passado/mudar.
Agora anunciam-se os milhões para o Barreiro Velho, apenas uns desenhos, sem qualquer ideia estratégia, mas anuncia-se já uma nova estratégia comunicacional assente no binómio : futuro/ mudar.

O que todos sabemos e sentimos que está patente na construção de cidade, nos dias de hoje, mais uma vez presente nesta sessão de Câmara, são as propostas dos direitos de preferência que enchem sucessivas agendas. Nos dias de hoje, o desenvolvimento é o imobiliário.
A tal cidade do betão, inscrita no PDM, muito criticada é hoje elogiada e faz parte do discurso que diz, com orgulho, habitação também é desenvolvimento. Emprego não se vislumbra. Acessibilidades nada de novo. O Poder Central ter o Barreiro na sua agenda, é coisa que não existe. Por vezes passam por cá, para ver o que já existe, ou para acompanhar heranças dos tempos da gestão CDU. O Barreiro continua num guetto. E parte do seu território que é uma pérola na AML, está á espera de mudança. Muito faz, o Conselho de Administração da Baía do Tejo, será bom que não o mudem por meras razões partidárias, porque será voltar ao principoio e perde-se um saber acumulado essencial para que se encontrem caminhos, numa parceria necessária entre Poder Local e Poder Central.

Em suma, para concluir, nesta última reunião de Câmara estava lá inscrito no dito e não dito, tudo isto tudo e muito mais, por essa razão decidi escrever estas inferências. Inferências são isso mesmo interpretações, leituras nas entrelinhas. Debater ideias, porque uma cidade debate-se no diálogo.

Nesta reunião, há ainda, dois registos de grande importância. O primeiro é o medo que os politicos têm das redes sociais, sente-se as suas marcas no modelo e modo de fazer politica.
Um exemplo a mudança de voto da CDU no que diz respeito ao IMI dos prédios devolutos. É a onda da «vox populi» a marcar a acção politica.
A segundo é a influência do PSD em todas as decisões. O PSD tem uma visão centro direita para o Barreiro, sempre o afirmou, sempre o disse, desde os tempos que registava a Avenida das Nacionalizações como um perigo para atrair investimentos. O PSD quer conquistar o Barreiro. É coerente. Podemos discordar da sua opção de politica liberal, mas respeita-se, porque as ideias combatem-se com alternativas, e não com acusações e estigmas.

O que é claro é que hoje, o PS está refém do PSD. As politicas liberais são dominantes na vida municipal. O PSD marca a agenda politica local, mais, muito mais que qualquer outro partido politico.
O PSD está atento às forças à sua direita, a quem procurar retirar temas e espaço. Caso dos grafitis ou segurança nas ruas. E está atento às forças da sua esquerda, procurando estimular o estigmas ao comunismo.
O PSD é a única força politica no concelho do Barreiro que gere ideias e marketing politico, com estratégia e ligando as ideias à vida prática. O PSD até supera o PS, sem nervos.

O PCP/CD gere ideias e a propaganda de ideias.

No passado não entrou nas guerras das redes sociais. Talvez estivesse convencido que tinha a cidade controlada. Agora, parece que descobriu as redes sociais e até opta por ira ao sabor das opiniões que correm nas ditas.
O PS opta por gerir imagem. A extinta, e por vezes emergente, Plataforma 2830, que foi protagonista no forjar o órgão «presidência», continua activa, para dizer ao PS, que é um parceira incontornável. A politica do PS hoje está reduzida à Câmara.
O PS não tem agenda politica, nem estratégia para a vida local, na Câmara faz o que herdou da CDU, dá continuidade ao que herdou da CDU, e, não sabe como separar as águas para que se sinta que é diferente do PSD. O PSD é uma força estrategicamente decisiva nas opções. Por vezes não se sabe qual é o original, ou a cópia, o PS ou o PSD.

Dois anos depois, da anunciada roda gigante, que motivou muita gente a acreditar em mudanças.
Dois anos de pois de um video que era proposta e depois passou a visão, foi anunciado o tal binómio: passado- mudar. Tudo foi pouco mais que politica do cuco.
Agora, dois anos depois, nesta sessão de Câmara, foi anunciada a nova visão, com o binómio – futuro -mudar. Entrámos em pré- campanha eleitoral. Foi anunciada.

É isto, a politica do século XXI é isto, a politica espectáculo. Viu-se e ouviu-se, de facto, um pouco de tudo isto na última reunião de Câmara, por essa razão, não resisti a escrever estas inferências, por cidadania, porque, cada vez mais é necessário que as ideias, as diferenças, sejam uma presença no fazer cidade.
Não ficava bem comigo mesmo. Ponto final.

António Sousa Pereira

13.02.2020 - 09:35

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