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A(nota)mentos – Barreiro
A exploração das «pulsões populistas» não vai ser fácil de consertar

A(nota)mentos – Barreiro<br>
A exploração das «pulsões populistas» não vai ser fácil de consertar<br>
E de facto, é mesmo isso, vai ser dificil consertar, acho mesmo que não tem conserto. Aqueles que foram enxovalhados, na altura, optaram pelo silêncio, optaram por ignorar. Depois, quando acordaram para esse combater nas redes sociais, foi tarde. Agora já é tarde.

Hoje ao ler na revista «Sábado» o texto de José Pacheco Pereira ocorreu-me à memória um texto que escrevi, no ano 2016 ou 2017, a propósito do que se escrevia e dizia sobre o Barreiro, o tão mau que era viver aqui ( e, hoje, alguns continuam a dizer, uns por estratégia, outros por eco, outros porque fazem disso um culto, é o adn inscrito, todos conhecemos, aqueles que no Seixal falam bem do Barreiro e mal do Seixal, ou na Moita falam bem do Barreiro e mal da Moita, e, outros do mesmo cariz, no Barreiro falam bem da Moita e do Seixal e falam mal do Barreiro. São resmas, como diz o Mestre do humorismo).

José Pacheco Pereira, comenta que – “há mais trumps e trumpinhos em Portugal do que se pensa”, e alerta para “o crescendo da agressividade”, ao criar-se nas redes sociais um “terreno para a violência tribal”, que resulta da insatisfação com a democracia.

Ora foi isso que começou a fomentar-se nas redes sociais há uns três ou quatro anos, com dezenas de perfis anónimos e falsos, com residências em Cascais, ou mesmo no Barreiro, aos quais se juntavam alguns “servos da gleba”, ou “pedantes da opinião” que diariamente teciam comentários, incitavam ao ódio, forjavam o inimigo comum, usando tudo e, naturalmente, explorando as insatisfações.

Existiam temas privilegiados, com um culpado privilegiado – o lixo nas ruas, as ervas que cresciam nos passeios, os autocarros sem condições, o envelhecimento da população, a fuga dos jovens, para quem não se criavam condições de atractividade, a falta de visão para a cidade, o mau PDM que não era revisto e que projectava uma cidade de betão e previa uma megalomania de crescimento de habitantes, o só fazer rotundas à custa do investimento privado, a incompetência e má formação dos trabalhadores da câmara (recordo um protagonista das redes sociais que comentava e enfurecia-se contra as roupas usadas pelas trabalhadoras da autarquia no atendimento público, salvo erro, por ter umas calçadas rasgadas, e como o tema foi tão saudado e partilhado), as calúnias, as invenções, os ataques de carácter, os muros ideológicos, o confronto de gerações, as reinvenções da história, as meias verdades, as meias falsidades, a incapacidade de aproveitar o potencial.
Foram tantos os argumentos repetidos e ampliados nas redes sociais, que cheguei a escrever uns textos sobre as «cidades perfeitas», e, comentar que um dia no futuro, quando o lixo continuar a estar nas ruas, devido à falta de civismo – seja quem for que esteja a dirigir os destinos da autarquia, vão apanhar sobre os ombros tudo o que foi dito e sentir na pele os mesmos argumentos. É vida.

Em suma, o Barreiro era o pior dos mundos, uma terra sem vida, sem capacidade criativa, uma terra que tinha parado no tempo – a tal cidade que cheira a mofo, ou cheirava. Indignei-me e lá fui um dos alvos dos ditos comentadores de serviço, os servos da gleba, mas principalmente daqueles que andam à procura de um lugar ao sol, que gostam de mostrar trabalho e estar ao serviço dos mandantes, esses, que na linguagem que utilizavam, e ainda vão utilizando, nem eram ou são trumpinhos, eram e são verdadeiros nacional-socialistas. Gente de comentários que nascem na lama. Andaram e andam por aí, são o alimento da pobreza e do esterco, onde alguns gostam de chafurdar nas redes sociais, o lugar onde as emoções estão à flor da pele. Usaram as emoções. E pode dizer-se souberam usar com profissionalismo.

José Pacheco Pereira, no seu texto, refere que esta exploração das “pulsões populistas” não vai ser fácil de consertar. Foi mesmo isso que sublinhei num dos meus textos que escrevi no fervor da “guerrilha urbana”. Disse que todo aquele ambiente de ódio e estigmas iria sair caro à democracia, à imagem do Barreiro e ao fazer cidadania.

E de facto, é mesmo isso, vai ser dificil consertar, acho mesmo que não tem conserto. Aqueles que foram enxovalhados, na altura, e, então, optaram pelo silêncio, ignorar, não entrar nessa guerrilha das redes sociais. Depois, quando acordaram para esse combater já foi tarde. Agora já é tarde.

O clima está criado. Os bons e os maus estão consolidados nas consciências. Os com visão e os sem visão. Os que querem o desenvolvimento e os que não querem o desenvolvimento. Existe um calculismo em todo este processo que, por vezes, chego a pensar que os trumpistas ao pé disto são uns aprendizes.

Na fase um, gerou-se um ambiente estigmatizante e de ruptura politico-cultural. Exploraram-se as clivagens, principalmente aquelas que vão directas à identidade comunitária, por exemplo, Alfredo Silva. O culto de amores e ódios, como quem pretende refazer o clima do PREC. Desenterrar machados, que já não existem, mas que ainda geram emoções e sempre irão gerar emoções. É o resultado directo do declínio e da desindustrialização. .

Na fase dois, entrou-se na fase da desconstrução. Quebrar os laços identitários, mas pegar no que existe e vestir uma nova roupagem. A realidade é a mesma, mas nasce a realidade virtual. O filme. Basta ver os videos, que dão uma projecção desta cidade como um lugar com uma enorme riqueza e valores, e, nota-se que, afinal, tudo o que lá está é tudo o que já lá existia. Agora é um produto de marketing. Nada de novo. A Oeste na da de novo. O novo é o drone.
Até aqui, de facto, foi dividir para reinar. Pois.

Mas, nas redes sociais, a guerra não parou, estimulam-se os confrontos. Agora de forma anónima. Estimula-se o confronto, por trás desta estratégia, na realidade, o que existe é uma táctica estruturante, espicaçar, gerar uma processo estilo «teoria de pavlov». Provocar os maus. Picar os que se diz estão contra a evolução. Dividir a cidade. Dividir para reinar. Colocar em todos que tenham opinião contrária com o «establishment» o epíteto de débeis mentais, atrasados. Eles é que são, afirmam mesmo «somos barreiro». Isso, acreditem, não é inocente.
Nesta fase o importante é que passe a ideia que, enquanto uns trabalham, outros que não fizeram, agora não deixam fazer. Os eternos maus. Confunde-se, no plano comunicacional, democracia com ideologia. Promove-se o tribalismo politico.
Os tais argumentos, referidos por José Pacheco Pereira, de pseudo argumentos, que conduzem a niveis de discussão de baixa dimensão – “falam agora, então e os outros que fizeram durante quarenta anos”. Tribalismo.
Os ditos aziados alinham nessa treta, sem se aperceberem e entram nesse jogo. Então, começa a fase da vitimização, e, simultaneamente, entra-se no personalizar com alvos preferenciais. Há pessoas que são amesquinhadas, mas de forma cobarde, por gente sem rosto. Umas vezes é de forma anónima, outras é feito por rostos, que assumem essa missão.
Devem definir previamente - teorias da conspiração - quem faz o quem a quem, eles cumprem o papel, sentem-se superiores. São os gestores de opinião. Uma espécie de moderna «agit prop» e «marketing politico» do século XXI.

Hoje, o caldo cultural está instalado. Os seus promotores agora já nem precisam de se incomodar. A semente da divisão está lançada e instalada, na vida da comunidade e nas redes sociais. Nem é preciso ter preocupações com isso, os ditos aziados conversam entre eles mesmos, sentem-se felizes. Os ditos azedos conversam com eles mesmos, sentem-se felizes.

Entretanto, há por aí uns rapazes e umas raparigas de serviço para gerir as ondas das redes sociais. São os surfistas, entram nos cenários, e, sempre que qualquer debate se eleva, o papel deles é baixar o nível – entram na onda dos comentários baixos, nas bocas provocatórias, pretendem com isso fazer o regresso aos argumentos de outrora dos bons e dos maus. Politiquice de esquina. O surfista faz-se à onda, lança a confusão, gera no debate a tal equivalência entre a avaliação do que se faz no presente e o que fez no passado. O presente bom. O passado mau. O surfista agita e parte. Os maus ficam a falar sozinhos.
Afinal, os ditos aziados querem é o regresso ao passado, e, por essa razão não contribuem, nem querem contribuir, para que se caminhe para o futuro.

E, chegámos a fase três, agora a prioridade é união entre todos. O somos do passado acabou, porque agora estamos «todos juntos».
O caminho é o futuro, se quiserem caminhar para o futuro, venham connosco, se não podem ficar a olhar para o passado e a gritar nas redes sociais.
As redes sociais são um muro de lamentações, mas, naturalmente, é preciso estar com atenção. É preciso acompanhar o pulsar, de tal forma que os assuntos comentados pelas redes sociais, são uma prioridade a resolver. É preciso não dar espaço para falar mal, reduzir a violência verbal à maledicência.
A estratégia de dividir para reinar, muda para estratégia do «fazer» um reino. Os bons que governam. Os bons que estão com os governantes. Os maus que são o pior da comunidade. Maquiavel no seu melhor. Basta ler «O Principe».
UNIÃO entre todos. MUDAR o futuro. Bom slogan é emocionante.
Eu prefiro, a diversidade para debater ideias e fazer o futuro com todos, porque como dizia alguém - "o que é de todos por todos deve ser decidido". A unidade na diversidade é dialéctica. A unidade na unidade é dogmática.

Foi tudo isto que me ocorreu ao ler hoje, a crónica de José Pacheco Pereira, um homem que já inscreveu o seu nome na história do Barreiro e, hoje, está a dar um contributo único para, pouco a pouco, fazer nascer no território da Baía do Tejo um nicho cultural, que, já é, sem dúvida, uma referência e vai continuar a crescer, apontando um rumo inovador para o território da Baía do Tejo.
Enquanto uns apostam em dar aquele território uma dimensão cultural, criar um nicho de futuro e estratégico para uma politica de visitação e ligada ao turismo cultural, outros, acham que devem dali retirar o «Espaço Memória» para a nova dita centralidade, a tal, que não será mais que uma «centralidadezinha de guetto». É vida.

S.P.

14.02.2020 - 19:03

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