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Por dentro dos dias - Barreiro
A «vontade de sorrir» e «um sorriso esboçado»

Por dentro dos dias - Barreiro <br />
A «vontade de sorrir» e «um sorriso esboçado» Um esboço de sorriso é sempre um sorriso calculista, por essa razão, hoje e sempre, será um sorriso humanamente medíocre.
Sorrir com vontade e sentir a vontade de sorrir, isso sim dá gozo, estimula a criatividade, abre as portas ao humanismo, permite voar e viver em Liberdade.

Quando viajo por dentro dos dias e olho ao meu redor os acontecimentos, esses momentos, que são as marcas deste tempo, desta história em movimento, quando paro, ali, sentado no meu recanto de silêncio interior, dou comigo a pensar, no que é sorrir, ou, no que são sorrisos.
Na verdade, há uma grande diferença entre «vontade de sorrir» ou «sorrir com vontade», e, «esboçar um sorriso» ou «um sorriso esboçado».

No calor dos meus lábios encontro a ternura, a sensibilidade, o carinho que cresce suavemente nessa vontade de sorrir, nesse sorrir com vontade, em crescendo, num timbrado e sonoridade, que explode num som de uma forte gargalhada. Ironicamente. Humoristicamente. Sarcasticamente. Apaixonadamente.
A vontade de sorrir tem nobreza, é atitude perante a vida, é emoção que toca os lábios.
A vontade de sorrir, nesse sorrir com vontade é uma força que faz explodir ideias, é um encontro de plenitude, entre o que pensamos, somos e sentimos.
A vontade de sorrir nasce no coração. Um sorriso partilhado fica gravado no tempo. Torna-se intemporal. Recordamos as gargalhadas, como quem recorda um beijo, um abraço.
Nós, só sorrimos com vontade de sorrir a quem queremos, e, só damos sorrisos a quem sentimos que é um pouco de nós, porque, sorrir é dar e receber.
O sorriso, de sorrir com vontade, é uma partilha, é algo que nasce por dentro, nesse lugar onde só nós sabemos estar, o lugar que é nosso, esse ponto de encontro, onde nos despimos, num rir a bom rir, rindo de nós mesmos, rindo e partilhando, sentido a vida numa enorme e sonora gargalhada. De mãos dadas, olhando o rio e beijando o sol.
A vontade de sorrir e o sorrir com vontade é uma semente lançada, olhos nos olhos, por vezes em lágrimas – sim rir até às lágrimas – que forja amizade, ou até amor, pode ser mesmo a simples cumplicidade da descoberta, no sentir que somos humanos. Sim, é isso, apenas isso, sorrindo, damos e recebemos, humanamente.

A vontade de sorrir tem expressividade, pode ser sublime, pode ser um ligeiro toque nos lábios, que se traduz em ironia ou simpatia. Mona Lisa. Assim como quem, olhando pelo canto do olhar, afirma e interroga – topas!?
A vontade de sorrir ou sorrir com vontade vai para além, muito para além, da respiração. É o pulsar dos dias a tocar a alma e o sangue.
A vontade de sorrir nasce por dentro da consciência, ali, nas raízes do coração, é uma energia que nos move, é partilha, é semente feita flor que abre as pétalas ao sol. Sorrir é viver. Sorrir com vontade nessa vontade de sorrir que é amor e humanidade.

É por tudo isso que sinto, cada vez mais, que há uma grande diferença entre a vontade de sorrir, ou sorrir com vontade, e, essa outra coisa, que é «esboçar um sorriso» ou «um sorriso esboçado».
O «esboçar um sorriso» perde-se nos lábios, plásticamente, fixa-se naquele instante, no momento que se regista, é um esboço para uma fotografia, fica por ali, no instante, num registo que mata o presente, eternizando-o numa imagem, sem partilha, sem amor, mera relação de circunstância. O tempo. Tem que ser. A nobreza obriga.
O sorriso esboçado, não é um sorriso, é um esboço, aquele esgar fixo, que não se traduz em saudade, nem contém humanismo. É mera teatralidade. Espectáculo. Imagem. Olhamos e sentimos que fica sempre um vazio sem ternura. É um mero registo epocal onde se é, o que se não é, mera aparência.

O esboçar um sorriso é marcado pelo sabor do silêncio.
Um sorriso esboçado esgota-se na sua própria freudiana perfeição, por isso, por vezes, é gerador de angústia, conduz ao esgotamento, é frio, seco, sente-se que é igual em qualquer parte do mundo, nesta globalização da imagem. Sem identidade, sem humanismo. Sem ideais.
O esboçar um sorriso não tem energia, não dá motivação para viver com alegria, não dá prazer nem tranquilidade aos dias, não faz sentir o sorriso com paixão, olhos nos olhos, por dentro das cores da primavera. É ficção.
É isso, um sorriso esboçado torna-se um pesadelo, desgasta psiquicamente, esvai-se nos nervos, é como uma rajada de vento, um furacão de emoções inventadas, sem vida própria, é tela, plasticidade, cenografia, maquilhagem e mera cosmética.
Um sorriso esboçado cansa, porque torna-se rotina gestual, é fleumático, sente-se que nasce por dentro do ésofago, esvai-se pelo estômago. Flui. Não é respiração, é fluído do ventre. Decadência. Sobrevivência.
É isso, «um sorriso esboçado» é uma repetição de gestos, um hábito, é expressão dramática, é obrigação, é um jogo psico-social. É um sorriso obrigatório, que, ele próprio, traduz a brancura de pensamentos. É um sorrir que busca um caminho para viver. É o lutar pela vida. É o sorriso técnica de venda.
Um sorriso esboçado também dói, porque tudo que é o outro lado do espelho faz doer. Freud, explica isso, no ego, no superego, no id, e, até, nos complexos traumatizantes, que conduzem à inveja e aos desejos de vingança mórbida. Nestes momentos o sorriso esvai-se em lágrimas e suores que atormentam as angústias nocturnas. É complexo.
O «esboçar um sorriso» por vezes pode iludir, dar visibilidade, mas, um esboço de sorriso, nunca não dá partilha, nem semeia amor, nem forja amizade, é a mera circunstância, temporalidade.
Sim, «um sorriso esboçado», é uma pura necessidade de afirmação no mercado da vida, esse mercado onde tudo se dilui no comprar, vender, trocar, ter, querer, números, trocas, promoções e poder. É essa a raiz do «esboçar um sorriso», ou, de «um sorriso esboçado». É essa a razão que forja esse sorriso astuto.
Um esboço de sorriso é sempre um sorriso calculista, por essa razão, hoje e sempre, será um sorriso humanamente medíocre.
Sorrir com vontade e sentir a vontade de sorrir, isso sim dá gozo, estimula a criatividade, abre as portas ao humanismo, permite voar e viver em Liberdade.

Acreditem, na verdade, há uma grande diferença entre «vontade de sorrir» e «um sorriso esboçado», é, apenas a distância que vai entre o ser e o parecer, entre a realidade e a necessidade. É vida.

António Sousa Pereira

21.02.2020 - 16:32

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