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Inferências
Fazer ouvir a força do lobbie da margem sul.
Será que existe?

Inferências<br>
Fazer ouvir a força do lobbie da margem sul. <br>
Será que existe? Uma margem sul que ergue a sua voz por si, pela região e pelo país.
Uma margem sul que não pensa pequenino, e que exige a Lisboa que deixe de pensar que é Portugal e o resto é paisagem.

Um destes dias, não muito distante, navegando no «Boa Viagem», pelas águas do Tejo, vivi aquele momento único, quando o barco pára, e, naquele instante, apenas escutamos o chapinhar da água a beijar o casco. Escutamos o silêncio.
O Tejo. O céu azul. Nós. O infinito a vasculhar no sangue.

No outro lado da margem, estava a Base Aérea do Montijo. O arrais comentou : “isto vai acabar”.
Senti, de súbito, o significado real do progresso anunciado. Recordei, quando não há muito tempo vivi, ali, em Lisboa, ao fim da tarde, sentado numa esplanada, no Campo Grande, vivi e escutei aquele ruído ensurdecedor dos aviões, numa contínua passagem, quase de 10 em 10 minutos, a rasgar os nervos. Aliás, o mesmo ruído que já vivi, na minha casa, quando por ali andaram a sobrevoar, em testes, rumo à pista do Montijo.

É isto o progresso anunciado. Levar por diante, uma infraestrutura que vai colidir com uma realidade social, com um edificado e uma realidade urbana, que nunca, mesmo nunca foi, em tempo algum, estrategicamente equacionada para receber os impactos de um aeroporto, que vai receber aviões, de 10 em 10 minutos, durante o dia, aquilo que vivi, e senti, ruidosamente em Lisboa. Por isso, cada vez mais se escutam protestos e indignação na capital, porque a qualidade de vida não é compatível com aquele ensurdecedor ruído.
Mas, a vida é assim «aquilo que Lisboa não quer a Margem sul recebe».
E, como dizia o tal – ai aguenta, aguenta!

Mas, para além deste grave problema de saúde pública, para além dos problemas ambientais, para além de tudo isto, na verdade, o mais triste é ver que o meu país, arrasta-se, submete-se, perde-se, digladia-se, não em sua defesa nem pelo seu futuro, mas, isso, apenas isso, porque procura sobreviver, parecer ser o que não é, enganar-se, adiar-se, discutindo-se para através de diferentes narrativas que mais não visam que dar sentido a uma existência permanentemente adiada, porque, afinal, o meu país, é, foi, e vai continuar a ser um beco da Europa.

E, quanto à margem sul, essa, hoje como ontem, vai continuar a ser um subúrbio de Lisboa, um território submisso à outra margem, como sempre foi, ou para lhe fornecer carvão, produtos hortícolas e sal, ou para receber o lixo, que servia de fertilzante às terras, ou para lhe dar mão de obra, ou para ser o dormitório da capital, ou para receber as indústrias mais poluentes. A outra banda.
Uma margem sul eternamente sufocada em salários baixos, desemprego, envelhecimento, um exército de mão de obra disponível, agora, cada vez mais com outras gerações vindas de muitos cantos do mundo.
E, também, por estes tempos vai recebendo uma classe média em fuga de Lisboa, com o mercado imobiliário a fazer cidades. Estar por cá, porque por lá não se consegue aguentar. É assim os condicionalismos do eterno vil metal.

Tido isto, percebe-se. É o mundo que vivemos. Um mundo de narrativas. Um mundo de politiquices. Um mundo de poderes e poderzinhos, uma cadeia de submissões, que começa no andar comprado que é preciso pagar e, depois, continua na divida pública, nos negócios de milhões, nas multinacionais, no imobiliário, e, continua pelo G7 ou G20. É isto Portugal no mundo, é uma gota no oceano. Longe vai o tempo que foi o senhor do Oceano. Foi. Agora é memória.

Um destes dias, sonhei que a margem sul erguia a sua voz, acima das narrativas que nascem nas circunstâncias, e, de uma vez por todas, demonstrava que tinha chegado a hora de erguer a «força do lobbie da margem sul».
Uma voz a exigir não as migalhas, daquilo que Lisboa não quer, mas erguer a voz para exigir e ser parte integrante de uma grande área metropolitana de referência internacional. Um área metropolitana com escala mundial. Tem, de facto, esse potencial dentro do seu território.
Uma margem sul que ergue a sua voz por si, pela região e pelo país.
Uma margem sul que não pensa pequenino, e que exige a Lisboa que deixe de pensar que é Portugal e o resto é paisagem.
Uma margem sul que, de uma vez por todas, exija que Lisboa se pense como «cidade de duas margens», se pense que será maior ao pensar-se de Lisboa a Peniche, de Lisboa a Sines, uma Lisboa que se pense como um território que tem que contar num mundo global, que tem todas as condições de ser a plataforma do Atlântico para a Europa.
E isso, não passa por pensar Lisboa com o dito aeroporto, que vai criar os tais ditos 10 mil postos de trabalho na região.
Lisboa não é Portugal. Lisboa deve ser a grande janela que coloca Portugal no mundo e na Europa. Isso não se faz com o dito aeroporto que vai ter uma duração de 40 ou 60 anos.
Lisboa tem, neste século XXI que ser capaz de assumir o seu protagonismo Ibérico. E para isso tem que ganhar escala territorial e centralidade, saindo de si, abrindo-se à margem sul como continuidade urbana e sociológica.

A margem sul se for capaz de assumir-se com um lobbie, defendo-se e valorizando-se com um todo, pode ajudar Lisboa a tomar decisões.
A margem sul tem que ser capaz de assumir como parte integrante do desenvolvimento da grande Lisboa, de Lisboa do século XXI, e não ficar, nisso, apenas nisso, no receber o residual, o que Lisboa não quer e descarta, sendo sempre quem sofre com os argumentos – o país não tem dinheiro, ou porque, os senhores que acham que Portugal é Lisboa não abdicam da sua «cultura» milenar de querer «ser Portugal».

Num tempo, que se anuncia a eventualidade da Terceira Travessia do Tejo poder entrar na agenda dos fundos europeus para os anos 2030, nasce uma esperança, porque esta infraestrutura é indissociável do TGV ou do comboio de alta velocidade. Neste tempo, a margem sul tem nas suas mãos uma cartada histórica, é tempo de erguer as bandeiras já referenciadas em pensamentos estratégicos, e, aqui e agora, erguer a sua voz, dar voz ao seu lobbie e abrir os olhos a Lisboa, dizendo: chegou a hora de pensar os conceitos do PROT -AML, recordando os ideais de um rosto desta margem – Fonseca Ferreira – que tanto sonhou Arco Ribeirinho Sul e Lisboa cidade de duas margens, com o Tejo, não como barreira, mas como o «Mar urbano de Lisboa». Sim, é verdade, vejam o filme e pensem. Está lá tudo, no silêncio das imagens.

O silêncio no meio do Tejo, ajuda a pensar, talvez por essa razão nos idos anos do começo da monarquia constitucional, ou nos tempos da ditadura, homens que sonhavam futuro, metiam-se num bote e reuniam no meio do rio.
É, talvez isso que falta, sentir o silêncio do Tejo, porque lá, como dizia o poeta – está tudo o que lá não está e pelo Tejo vai-se para o mundo.
Mas, afinal, se o aeroporto for para o Montijo, ficamos com uma certeza, que nos próximos 60 anos, pelo Tejo, só se vai para Lisboa...e, também que, pelo Tejo, Lisboa vai continuar a olhar para a margem sul, não como algo que lhe pertence, que lhe dá continuidade, mas, será isso, que é, e sempre foi – a outra banda, a outra margem...a margem esquerda!

Foi isso que sonhei, que, esta era a hora de ser erguer o lobbie da margem sul, por si margem sul, pela região e por Portugal.
Acordei e descobri, de facto, que o mal é esse, a margem sul não tem lobbie, não tem uma voz única, porque não tem estratégia. A sua estratégia são as circunstâncias.
E assim, vamos continuar. Mas, sublinhe-se, que sobre esta realidade, não há por aqui culpados. É vida. Afinal, Lisboa é Portugal e o resto é paisagem.

António Sousa Pereira

04.03.2020 - 14:10

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