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Por dentro dos dias - Barreiro
Saudade do futuro marca o presente da humanidade

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
Saudade do futuro marca o presente da humanidade Como dizia Augusto Mateus, um destes dias, numa entrevista num canal de televisão, este não é um tempo de governar com base na comunicação, nem sequer é um tempo de pensar que a economia vai ser dinamizada com a construção de casas ou autoestradas. Aprendam. O futuro começa agora.

Quando o dia se despede e se deita na noite, descanso os meus dedos nas teclas, numa catarse de palavras, onde encontro o tempo, este que sou, e, todo o tempo que percorre os meus neurónios, em sinapses que desocultam memórias. Encontro palavras escritas dentro das palavras que escrevo, um estendal de poemas, uma fogueira de fonemas. Lentamente, o luar descobre a noite, e, é nessa negritude solar que me encontro e reencontro. Penso.
Nos dias de hoje, é verdade, já o disse, não nos falta tempo para pensar o tempo.

Podemos pensar os dias Abril, aqueles, quando escutámos as vozes de comando proibindo saídas à rua. Mantenham-se em casa, dizia a voz do MFA. Mas, nós, todos nós, decidimos ignorar e invadimos as ruas com flores, aquelas que anunciavam a Primavera. Eram vermelhas da cor do sangue da Liberdade que nascia no peito colorido de sorrisos frenéticos desfraldados nas bandeiras verdes e rubras que rasgavam o céu azul.

Podemos pensar Iraque, revivendo aquelas noites flamejantes, com o real a confundir-se com a imaginação. A emoção de um jogo de guerra, de uma qualquer batalha naval, era, real e pura, transmitida em directo na televisão, como quem estivesse a assistir ao filme do Dia D, agora, sentado no sofá, escutando os sons das batalhas. Explosões. Os misseis a rasgar os céus, nos ditos, bombardeamentos cirúrgicos. A morte não se via, nem se sentia, eram as cores dos feixes de luz que, lá longe, bem longe, rugiam com os gritos de morte, que no dia seguinte abriam os noticiários. Indiferentes. Os combates eram silenciosos. Ficaram inscritos na memória com as palavras – um drama, um horror, uma tragédia. A morte em directo do ditador. Trágica. Teatral. Tudo isto vimos, como quem estivesse rever um episódio medieval. Uma fogueira inquisidora. Eram mortes lá longe, mortes limpas, com alvos estudados, combates de mãos limpas e puras, sem dor, sem sangue, numa guerra de mundo bom e mundo mau. E o futuro foi aquilo que se viu, dolorosamente no mesmo terreno de guerra e destruição de património da humanidade. Os purificadores da história e do deserto do petróleo. Outro valor que se rende à divindade do mundo financeiro.

Podemos pensar Chernobyl, esse tempo de fuga radioactiva que trouxe o nuclear para dentro das ruas da europa. Mortes ignoradas. Mortes escondidas. Protestos. A humanidade num caminho sem retorno, onde, talvez um dia colapse, tal como Hiroshima, esses escombros que são a memória do planeta em chamas. Destruição avassaladora.
Esta é a nossa casa comum, o nosso planeta no universo, aqui, onde a Amazónia é desfolhada, incendiada na Austrália, inundada na Tailândia ou na India. Um mundo que se destrói, em degelos, ou em guerras. Alterações climáticas. Alterações genéticas. Lucro. Negócio. Tudo inutilidades, que apenas singram porque não se pensa humanidade, nem se pensa natureza. O dinheiro é rei. O poder é ambição. Ideologias. Teologias. Fé. Razão.
Tudo isto desbravamos, neste tempo por dentro do pensamento. Um tempo psicológico que faz pensar revolta, que faz voar, assim como quem olha um pássaro a rasgar os nervos num vendaval de silêncio.

Podemos pensar a queda da Torres Gêmeas, outra dor que está colada nas cinzas da memória. Gritos que fazem pensamento, gritos que fazem o tempo que somos.
Fechamos os olhos e os corpos caem, voando, dolorosamente, impotentes, entre chamas e nuvens de pó. Uma cidade feita dor, rasgada numa morte semeada por crenças, essas crenças que matam, inscrevendo nomes em murais. Seja em Nova Yorque, seja em Santiago do Chile, seja em Berlim, seja em Pequim, seja em Lisboa, seja em Buenos Aires ou seja em Auschwitz. Murais de morte a celebrar a vida.

Nós somos o fruto de todo este tempo, de todas estas memórias, um tempo que tatuámos na pele, com corações de amor, na Guerra Colonial, ou símbolos de «make love, not war», ou com números de cadáveres adiados nos campos de concentração.
Somos fruto de todo este tempo, de paixões, encontros e desencontros com a natureza e com as emoções, essas que cantámos nus a escutar um cântico de Joan Baez, com o Vietname a queimar os olhos com as bombas de napalm, vestidos de esperança cantada nos sons de resistência, nas montanhas de França Bella Ciao, ou nas ruas do Barreiro os Vampiros, porque sempre, humanamente, lutamos a cantar, em orações, que dizem - vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.

Podemos pensar Muro de Berlim, esses tempos que se cruzam com a dita geração rasca. Um tempo dito de fim de ideologias ou de fim da história. Do fim das ideologias, que nunca vão deixar de existir, porque sempre existirão senhores e escravos, até um dia, que todos vejam que o único valor é sermos humanos, nas diferenças, que se escreve naquelas palavras - liberdade, igualdade e fraternidade – sim, é verdade felizmente há luar.


Este é um tempo feito de pensamento que se cruza com a história que toca nas nossas estórias. Sonhos. Desejos. Um mundo novo. Um mundo melhor.
A história que é história que move o homem em todos os tempos quando pega nas suas mãos a palavra amor e acredita que é possível, fazer um mundo mais belo, construir um mundo mais humano, onde sejam proibidas as prisões de pensamento, as prisões dos Deuses.
Um mundo tolerante. Um mundo de poesia. Um mundo que emerge num cântico que escutamos no Coro dos Escravos, de Verdi. Ou que imaginamos nas telas de Frida, ou de Picasso.
Um mundo onde as cores são gritos de esperança.
É talvez isto que sentimos, nestes dias, que nos encontramos por dentro do tempo, por dentro das palavras.
Tudo isto pensamos, nestes dias que navegamos por dentro da solidão. O homem com ou sem Deus, porque Deus é, se quiserem, o homem na sua infinitude, chamem-lhe Jeová, Alá, Jesus, Buda, é, um direito de acreditar ter fé, é o direito à Liberdade ao amor. Cosmos. Esse mesmo direito que outros, na sua Liberdade, podem assumir de não acreditar, nem crer, porque acreditam que para crer basta apenas ser humanamente humanos.

É tudo isto que dá para pensar, neste tempo vivido por dentro do tempo, com as lágrimas a tocar os olhos e rasgando o cansaço. Com a morte a anunciar a vida.
Estou aqui, já pela noite dentro e penso naqueles que estão na linha da frente na luta contra o medo, na luta contra a ansiedade. Heróis, sem fotografias, sem narcisismos. Aplaudidos.

Penso esta angústia diária de pensar o ser humano reduzido a números. Morreram 20 em Portugal. Foram 842 em Espanha. Foram 978 em Itália. Números enterrados em silêncio. Números cremados na penumbra das chamas.
Sim , estamos todos na luta, uma luta que começa na nossa casa, agora, edificada como lugar de combate. Era bom que todos soubessem cumprir, porque neste cumprir está o viver. Acreditem.

Este é um tempo que nos ajuda a pensar como somos, isso, apenas isso, temporalidade. Um vírus reduz-nos à insignificância.
Esta geração que está a viver estes dias de «solidão comunitária», recebe um legado real, vivido, do agir local e pensar global.
Está nas suas mãos construir um mundo de redes, co-laborativo, co-produtivo, co- operativo. É um grande desafio, é uma epopeia de uma reconstrução anunciada, uma cidade onde o que é de todos por todos deve ser decidido. Polis.
Como dizia Augusto Mateus, um destes dias, numa entrevista num canal de televisão, este não é um tempo de governar com base na comunicação, nem sequer é um tempo de pensar que a economia vai ser dinamizada com a construção de casas ou autoestradas. Aprendam. O futuro começa agora.


Este é um tempo que nos exige que sejamos capazes de percorrendo o tempo, por dentro do tempo, aprender com a memória e aprender com a história.
O futuro está no fazer, está no ser, está no fazer comunidade. É tempo de começar o novo de novo, um tempo de reinventar, talvez possamos ficar, apenas com a certeza que não há fim da história, que não há fim das ideologias, há isso sim, sempre, uma história que recomeça. Inesperadamente. Um revolução que será transformação, inevitavelmente. A humanidade, a comunidade, a individualidade, está presente, hoje, na solidão e no amor, nos aplausos e no ser solidários.
Nunca tanta saudade do futuro marcou tanto, tanto, o presente da vida da humanidade. Saudade. Interrogação. Sonho. Esperança que abre a porta á confiança...isto vai amigos, vamos lá!

António Sousa Pereira
31 de Março de 2020

31.03.2020 - 11:09

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