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Por dentro dos dias - Barreiro
Da «solidão comunitária» à «cidade solidária».

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
Da «solidão comunitária» à «cidade solidária». O tempo de hoje motiva-nos a pensar humanidade, a viver humanidade. Vão ser tempos duros. Um tempo que exige lideranças que sejam mobilizadoras de acção pelo bem comum. Um tempo que vai implicar a discussão do papel do estado. Um tempo que vai nascer no fazer cidadania, no fazer em conjunto, incluindo e não excluindo

Hoje pela manhã caiu granizo na cidade, neste tempo de Abril, o tal tempo das águas mil. Acordei com o ruído da forte chuvada. Levantei-me e olhei o chão coberto de um manto branco.
A rua uma página em branco. Afinal, cada dia da nossa vida é uma página em branco. Vivemos quando escrevemos, quando inscrevemos no branco a cor do nosso suor e sangue. Em cada dia uma palavra, em cada dia um poema, em cada dia uma ideia que acrescentamos a outra ideia. Todo o tempo que vivemos é feito das ideias que somos.

Todos temos ideias. Ideias são a energia que dão força à nossa vontade, alimentam os nossos nossos desejos. Todos temos sonhos. Viver não é apenas viver, viver é construir esses sonhos.
Quando somos crianças e nos perguntam: Que queres ser quando fores grande? A nossa resposta é o fruto do nosso contexto social, dos nossos pais, avós, vizinhos, por vezes, até, do bairro, da vila ou da cidade onde nascemos e crescemos. É aquilo que Ortega Y Gasset refere, que o homem é ele e as circunstâncias. Uns querem ser médicos. Outros Policias. Outros Bombeiros. Há os que sonham ser actores e também os futebolistas. Outros querem ser cantores. Há também os que querem ser jornalistas, ou professores. Outros sonham ser comerciantes, como o pai ou o avô. Há os que querem ser advogados. As escolhas e opções são uma projecção do sonho que sonhamos. Umas vezes por nossa vontade, outras empurrados pelos ventos da vida. Acasos. Necessidade.
É por isso que há, também os que sonham ser ricos, querem ter uma grande casa, muito dinheiro, entrar na lista da «Forbes», ou apenas, no limite, tudo fazer para ter uma casinha, ali, junto ao rio, ou junto ao mar.

E, sabemos, há também aqueles que nunca souberam o que era sonhar, os tais, que Soeiro Pereira Gomes, dizia que eram “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, esses seguem o caminho que está traçado ao nascer, um caminho inscrito nas raízes da família, pode ser a fábrica, pode ser a terra ou pode ser o mar. São pescadores, agricultores, pedreiros, padeiros, pasteleiros, electetricistas, vendedores, operários, trolhas, aqueles que o poeta dizia, constroem o mundo, o tal mundo em construção.
É isso, há os que nascem patrões. Há os que nascem para o trabalho. O viver. O sobreviver. É por isso que, hoje como ontem, e sempre, existirão ideias e valores que são o alimento que fazem andar a história, mudam o rumo da história. Progresso. E foram tantos os caminhos percorridos. Transformações. Combates. Lutas. Revoluções. Descobertas. Invenções. Lutas pela Igualdade. Lutas pela Liberdade. Lutas pela Fraternidade.

E, cá estamos, neste século XXI, inesperadamente, numa encruzilhada da história, vivendo um tempo de inquietações, de incertezas, de medo. Um tempo parado no tempo. De repente, todos reduzidos a uma plena igualdade. Somos humanos, meramente humanos. A nossa rua tornou-se um lugar no mundo. As ruas de Itália que cantam. As ruas de Espanha que dançam. As ruas transformaram-se no ponto de encontro da humanidade a espreitar pela janela, cantando, aplaudindo, sorrindo. De repente descobrimos que existe a vizinhança, que há pessoas que moram ao nosso lado, tal como nós, com angústia e medo a tocar os nervos e o coração. Em cada casa começa a luta pela defesa da humanidade.

Nos últimos anos falamos tanto em globalização, primeiro falando da globalização da proximidade das noticias, depois da globalização pela proximidade das comunicações, o mundo da internet, chegámos à globalização da guerra, com os misseis intercontinentais, globalização dos mercados, globalização do mundo financeiro, e, agora, cá estamos com a globalização da morte. Este encontro entre o pensar o macrocosmos, com o pensar microsmos, é o ponto de chegada a um novo olhar para pensar a humanidade, valorizando o pensar local e pensar global, numa unidade temporal.
Há quem diga que a globalização começou com a epopeia dos descobrimentos iniciada pelos portugueses. Hegel defende que esta é marca do começa da era da moderndidade.
Chegámos aqui, nesta tempo dito de pós-modernidade e, com ele, vamos entrar no pós globalização, esta, a era da mundialidade. Um tempo que nos faz pensar como, de facto, tal como dizia Gorbachev – esta é a nossa casa comum.
E, afinal, não chegámos ao fim da história anunciada, nem sequer ao fim das ideologias, nem ao fim das teologias, porque tudo isto faz parte da história da humanidade.
Como dizia o poeta, é pelo sonho que vamos, e, todos os sonhos, em todos os tempos são feitos de ideias, de ideias, de fé, de razão, de emoções.
O tempo de hoje motiva-nos a pensar humanidade, a viver humanidade. Vão ser tempos duros. Um tempo que exige lideranças que sejam mobilizadoras de acção pelo bem comum. Um tempo que vai implicar a discussão do papel do estado. Um tempo que vai nascer no fazer cidadania, no fazer em conjunto, incluindo e não excluindo. Um tempo em que estamos juntos nessa batalha pela sobrevivência, no fazer cidade, no fazer país, no fazer europa, no fazer humanidade.
Quem, neste tempo, continuar a querer ser protagonista da história e o centro do mundo, e , não for capaz de perceber que a história de uma comunidade faz-se com a história de cada um de nós – eu, tu o outro, nós – não entende que vamos viver um tempo novo, que tem nestes dias de «solidão comunitária» a semente da «cidade solidária».

António Sousa Pereira
1 de Abril de 2020

02.04.2020 - 00:08

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