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A(nota)mentos - Barreiro
Este é o tempo que os fortes têm que ser fortes e carregar sobre os ombros os fracos

A(nota)mentos - Barreiro<br />
Este é o tempo que os fortes têm que ser fortes e carregar sobre os ombros os fracos Este não é um tempo para dividir a comunidade em fortes e fracos, este é um tempo para que todos e cada um seja motivado para dar o seu contributo num desafio que se escreve com a palavra – futuro.

Estes tempos são tempos dificeis. São aqueles tempos que proporcionam as vivências ficcionais. Tempos de teorias da conspiração que nascem, como cogumelos, a surfar na espuma dos dias. Tempos de criatividade que dão asas à imaginação. Crendices. Invenções.

É nestes tempos que surgem os salvadores, os profetas, os vendedores da banha da cobra. É nestes tempos que a forma mais fácil de tudo resolver é pelo gerar de cultura do ódio e fomentar os estigmas.

Este é o tempo dos papões, que, por vezes, são aqueles que não querem ser, ou não querem parecer que são, mas sonham ser isso mesmo, por isso, escondem-se por trás das máscaras, exibem-se como exemplos de perfeccionismo.
São tempos propícios a gerar a cultura do bode expiatório. Basta encontrar um culpado e tudo se resolve. Na idade média, na peste negra, queimavam-se os hereges na praça pública. Agora queimam-se os hereges nas redes sociais, com robots a gerir os likes e os comentários. Paga-se até, a bons servidores que cumpram essa missão de provedores do rancor social. Eles sabem o que fazem.

Nestes tempos dificeis que vivemos, este tempo de dificuldades anunciadas, fruto desta «crisovirus», na verdade, vai ser duro, muito duro os sinais começam a emergir no quotidiano – já são mais 400 mil desempregados.
Estes são tempos que colocam com maior urgência no viver quotidiano a importância de erguer as bandeiras que sempre deram sentido à história da humanidade, no seu caminhar pelo progresso e desenvolvimento. Acreditar num mundo melhor.

É o tempo de recordar que cada ser humano é um átomo na cosmicidade, esse lugar que é o ponto de encontro do homem com os deuses, mais não seja com o «deus» que está no seu coração, na espiritualidade de cada ser humano, que, não é mais que o seu encontro com a sua Liberdade, Solidariedade e Fraternidade. Fé, para uns, para outros é esperança.
É nestes dias que sentimos a importância de mergulharmos nos pensamentos escritos por Marco Aurélio, nos anos 100 da nossa era, nos quais salientava que a única pessoa que cada um de nós pode mudar, é, mudar-se a si mesmo, porque no ser de cada um começa o contributo para se construir um mundo melhor. Somos a gota da água no oceano. A eterna história do Colibri.

É nestes dias que, na realidade, se coloca imperioso, pensarmos, como ontem, recordava, o Bispo Desmond Tutu, no filme «Rendenção», que todos nós temos um espelho para nos olharmos. Todos os espelhos são iguais, pode não ser igual é a forma como cada um tem coragem de se olhar ao espelho. Olhar ao espelho é olhar para a vontade que nos move e que nos une à comunidade.

E, talvez, aqui e agora, mais que ser um mero espelho que nos faz olhar os nossos próprios olhos, o mais importante é que seja um espelho retrovisor, que nos proporciona olhar para trás, observar o caminho percorrido ao mesmo tempo que olhamos para a frente, com esperança.

Nestes tempos de hoje, por vezes, sentimos a esquizofrenia social, o narcisismo, o culto da imagem, o perfeccionismo, querer sobrepor-se à equipa, às equipas, ao ser comunidade.

Nestes tempos o medo, ansiedade e angústia, não podem ser travões, nem à acção individual, nem à acção colectiva. É nestes tempos que as lideranças são exemplo, pelo ser, pelo fazer e não pelo parecer e iludir. Como cometei com um amigo - neste tempo liderança não se pode confundir com cagança.
É tempo de enfrentar os desafios, este é o tempo do fazer associativismo, do co-operar, do co-produzir, do co-laborar. É um tempo de diálogo colaborativo. Um tempo para motivar, para unir, a coragem de afirmar a unidade na diversidade.

Este não é um tempo para dividir a comunidade em fortes e fracos, este é um tempo para que todos e cada um seja motivado para dar o seu contributo num desafio que se escreve com a palavra – futuro.
Um tempo que exige que se vença o medo, a angústia, a ansiedade, que ninguém pode ficar para trás, nenhum forte, nenhum fraco, somos todos humanos, meramente humanos, perante um adversário que não se sabe onde está, mas está no seio da comunidade.

Talvez, seja o tempo de perceber, aqui, nesta terra Barreiro, que a «crisovirus» vai ser a terceira vaga que marca de forma dolorosa as nossas vivências individuais, sociais e afecta o nosso potencial e vida comunitária.
Depois da desindustrialização, depois da troika, esta «crisovirus» vai ser, certamente, a mais dolorosa, porque, há décadas que estamos num guetto e o nosso tecido económico é frágil, muito frágil. Um concelho que depende do empregador estado e que conta com a população mais idosa da AML.
O que vem por aí não é para brincadeiras. Vão existir muitas lágrimas e sofrimento.

Este não é um tempo para gerir imagem, nem para gerir emoções. Este é um tempo que muitos fortes vão ser fracos para resistir e muitos fracos vão ser resilientes para construir.
Este é o tempo que os fortes têm que ser fortes e carregar sobre os ombros os fracos - juntar vontades, não é o mesmo que juntar ambições. Ninguém pode ficar para trás caído no chão.
Estamos a entrar numa das encruzilhada mais duras de Portugal, da Europa e do mundo.
O Barreiro vai sofrer e sentir na pele. È bem verdade, não há duas sem três.
Acredito que mais uma vez, vamos ser resilientes, vamos lutar e vencer.
É preciso coragem.

António Sousa Pereira

05.04.2020 - 21:39

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