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A(nota)mentos - Barreiro
Fazer jornalismo insubmisso e livre.

A(nota)mentos - Barreiro<br />
Fazer jornalismo insubmisso e livre. Uma imprensa onde cabem todos, mas como um dia escreveu Mario Vargas Llosa, não têm cabimento “as culturas e crenças” que “entrem em colisão frontal” com os valores da democracia. E não teme os que, falando em democracia, querem calar a democracia.

No dia 27 de Abril de 1974, foi editado um número especial do jornal «Noticias da Amadora» que, meses antes, tinha visto a sua edição proibida pelo regime fascista.
Foi a primeira edição, sem censura, após o 25 de Abril.
O «Noticias da Amadora» era um jornal, onde muitos que se opunham ao regime publicavam seus textos. Uma voz, da voz, daqueles que não tinham voz.

Era uma imprensa de insubmissos. Era uma imprensa que permitia quer aos seus leitores, quer aos seus colaboradores, quer aos jornalistas, sentirem, semana a semana, que não estavam sozinhos, que eram muitos mil, que sonhavam e acreditavam num sonho futuro – a Liberdade.

Era uma imprensa que se mantinha viva, com dificuldades, com amor e paixão, numa acção de luta, resistência e resiliência, contra um regime opressor, contra um regime de pensamento único, contra os senhores do poder, que oprimiam, sufocavam e calavam todas as vozes que discordassem, querendo matar o
direito à diferença - a democracia.

Nessa primeira edição, foi com emoção que, enchendo a sua página dois, lá vinha um artigo meu, o primeiro de todos que ali publiquei sem um corte da censura. Censura que, por vezes, era um absurdo. Recordo um dia que um artigo ao qual coloquei o título – “Jogos Juvenis do Barreiro: desporto do povo para o povo”, a censura cortou o título, ficando apenas – “Jogos Juvenis do Barreiro”, cortou “ desporto do povo para o povo”.
Essa coisa de ser do povo para o povo era subversiva.

Foi com uma emoção que abri essa edição do «Noticias da Amadora». Ainda hoje recordo e guardo dentro de mim, as vezes que li, e reli, aquele primeiro texto que vi publicado sem corte da censura. Era verdade estava em marcha um tempo de Liberdade.
Talvez, por esses tempos, está esse pensamento de fazer jornalismo insubmisso, uma imprensa que respeita as diferenças, os Direitos Humanos, os principios da tolerância, que são a marca de uma sociedade aberta, a essência da democracia.
Uma imprensa onde cabem todos, mas como um dia escreveu Mario Vatgas Llosa, não têm cabimento “as culturas e crenças” que “entrem em colisão frontal” com os valores da democracia. E não teme os que, faland em democracia, querem calar a democracia.

Foi nesses tempos de luta, resiliência que aprendi o sabor da diferença, o direito a ter opinião, e, saber que ter o direito a expressar opinião é uma conquista de Abri,, antes dessa data, ter opinião – do povo para o povo – a censurava calava.
Pelo direito a ter opinião, nunca abdicarei deste caminho que escolhi, fazer jornalismo insubmisso e livre.

Anos depois, num Congresso da Imprensa regional, que decorreu na Póvoa do Varzim, conheci o Director do «Noticias da Amadora», Orlando Gonçalves. Conversas que marcaram, de um homem lúcido, livre. Aqui fica o meu obrigado a esse lutador, que, como muitos, fica no anonimato da história.
Uma imprensa livre é a essência da democracia~, é um espaço de sonho, é uma porta aberta à Liberdade.

António Sousa Pereira

27.04.2020 - 08:51

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