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A(nota)mento – Barreiro
Das diferenças ideológicas à xenofobia ideológica

A(nota)mento – Barreiro<br />
Das diferenças ideológicas à xenofobia ideológica Unir os barreirenses, não é submeter os barreirenses a um pensar o Barreiro, contra os comunistas e fazendo dos comunistas os outros.
Gerar esta narrativa de «nós», os bons, e, os «outros», os maus é muito perigoso. Um dia pode ser tarde. Andam a brincar com o fogo.

Em Baleizão, no Alentejo, no dia de hoje, 19 de Maio, há 66 anos, no decorrer de uma manifestação a exigir melhores salários e a pedir pão para os seus filhos, grávida, Catarina Eufémia foi assassinada pelas balas da GNR.
A ceifeira Alentejana tornou-se um símbolo da resistência anti-fascista, e foi tema de poemas de Sophia Mello Breyner, de Ary dos Santos, e, do meu conterrâneo Vicente Campinas, que ficou perpetuado na nossa memória colectiva pela voz de Zeca Afonso .

Os filhos de Catarina Eufémia vieram viver para o Barreiro, recebidos pelo carinho da D. Zulmira, daquele lugar de resistência e e amor à liberdade – a Boleira.
O parque do centro da cidade, há muitos anos, recebeu o nome de Catarina Eufémia.

Aqui no Barreiro, quando iniciei os meus caminho pela descoberta da palavra Liberdade e o amor à democracia, o respeito pelas diferenças, conheci Manuel Cabanas, meu conterrâneo socialista convicto, homem de nobreza ideológica.
Foi através de Manuel Cabanas que conheci Vicente Campinas, outro meu conterrâneo, comunista convicto, exilado em Paris, cujos livros eram vendidos de poemas, romances e contos, aqui no Barreiro, eram vendidos por Manuel Cabanas.
As diferenças ideológicas não eliminavam a amizades, antes pelo contrário, fortalecia nas diferenças. Porque ser amigo é saber que o outro é livre e que, na sua liberdade, não acaba a minha, continua a minha, sou livre se tu és livre.

Recordo, aquele dia que, no Teatro Cine, com a GNR a vigiar, nesta cidade sitiada, perseguida, numa celebração do 5 de Outubro. A voz de Manuel Cabanas, ergue-se a pedir que fosse feito um minuto de silêncio em memória de Catarina Eufémia, e, a sala ergue-se solene, imponente num grito calado pela Liberdade.

Olho para trás e penso que na vida vale a pena lutar para deixar sementes, é, afinal, isso que nós recebemos de quem nos antecedeu. Foi essa lição que aprendi nas conversas com Manuel Cabanas. Tem cuidado. Ou com Vicente Campinas. Ninguém é neutro.

Recordo tudo isto, hoje, dia dezanove de Maio de dois mil e vinte, porque tenho uma divida de gratidão para com esta terra, que é a terra dos meus filhos, a descoberta do amor à Liberdade, o valor do fazer associativismo, a nobreza da luta por ideais, o sentido de respeito pelas diferenças, o viver a democracia como pluralidade e, também, outras realidades da vida humana, porque nada é perfeito, ninguém é perfeito. O calar. O silenciar. Feito por gente, por isso, também aprendi a separar gente de coisas, e , coisas de gente.

E, tudo isto, vem a propósito de um sentimento que tem vindo a tocar os meus nervos. De há uns anos para cá em crescendo, de forma ténue, por vezes escondida, outras mais corrosiva, tem vindo a ser gerado o estigma sobre os comunistas. Rotulando-os de culpados do atraso do Barreiro. Acusando-os de serem os culpados de não atrais investimentos. Apontado-os como a causa de todos o males deste concelho. Gerando um bode expiatório para em torno dele fomentar uma interpretação, um diagnóstico, uma narrativa sobre tudo o que afecta o concelho – envelhecimento da população, o desemprego, a degradação do edificado urbano, os problemas de mobilidade e desenvolvimento.
Aliás, desenvolveu-se em torno do anticomunismo primário, alimentado por diversas correntes de pensamento ( algumas porque é natural, por opções ideológicas), outras por mera táctica eleitoralista, visando criar uma «ideia de superioridade moral». Assim uma espécie de ser anticomunista ou criticar os comunistas é ser «cool». Os comunistas são «naif», anti culturais.

Mistura-se tudo, confunde-se tudo, o importante e essencial é correr com os comunas.O mal de todos os males.
Se issto correspondesse à verdade, até, cá estaria para o dizer e sem medo. Até porque sobre essa matéria estou vacinado. São coisas que se vivem e passam a fazer parte da nossa história. Mas, nunca resumi a minha história a isso, nem me preocupam os perfeccionistas do pensar comunismo. Há disto em todas as áreas do pensamento e em todos os leques partidários. Estou tranquilo. A vida ensinou-me a separar o trigo do joio, sei o que custa lutar pela Liberdade.

Mas, avancemos, este texto tem um objectivo principal, neste dia 19 de Maio, que recordo Catarina Eufémia, Manuel Cabanas, Vicente Campinas, Zeca Afonso, como ícones da luta pela Liberdade, pelo pão, pela democracia e por um mundo melhor.

Começo a ficar preocupado quando querem reduzir os comunistas a pessoas que valem zero no Barreiro, só porque pensam diferente e não concordam com verticalidade democrática com certas opções de gestão da cidade.

Começo a ficar preocupado quando se diz que o Barreiro é de todos os barreirenses, no que eles votam, e, parece que os barreirenses que votam na CDU, ou no PCP, não são reconhecidos como barreirenses.

Começo a ficar preocupado pelo facto de qualquer pessoa que tenha discordância, em relação a certas matérias e opções de gestão da cidade, seja acusado de comunista, quase a parecer que voltamos aos tempos do PREC, que, quando alguém discordava era reaccionário.

Começo a incomodar-me esta coisa de uns serem mais barreirenses que outros, e, que aquilo que separa o ser bom ou mau barreirense, o querer o desenvolvimento ou não do Barreiro, tem como linha vermelha, o ser ou não ser comunista ou seu aliado.

Começa a preocupar-me, este discurso em crescendo que o «Barreiro conhece-o» a essa gente do «chorrilho», gerando ódios de estimação contra sectores da população, e, contra eleitos por parte significativa de eleitores. É uma falta de respeito democrático com cidadãos que têm opções, reconhecidas pela constituição.

Começa a preocupar-me esta xenofobia politica, este anticomunismo de marketing politico, porque é perigoso e pode ser catalisador de ódios.

O Barreiro foi sempre uma terra de confrontos ideológicos.
O Poder Local, no Barreiro, desde a sua Comissão Administrativa foi sempre um exemplo de pluralidade. A exclusão que nos dias de hoje se faz, a narrativa de anticomunismo primário, é preocupante, porque apenas tem por trás motivações eleitorais, jogos de luta pelo poder, explorar emoções, utilizar falsas percepções estimuladas ao longo de anos, semeadas com intencionalidade, desviando da análise dos verdadeiros problemas do concelho e criando um bode expiatório.

Unir os barreirenses, não é submeter os barreirenses a um pensar o Barreiro, contra os comunistas e fazendo dos comunistas os outros.
Gerar esta narrativa de «nós», os bons, e, os «outros», os maus é muito perigoso. Um dia pode ser tarde. Andam a brincar com o fogo.
Nunca esqueçam porque foi feito o 25 de Abril.
Ah, e se quiserem, não esqueçam o que foi dito por Melo Antunes, no 25 de Novembro.
Bola, tantos anos após o 25 de Abril, com tantas voltas que o mundo deu, com quedas de muros de Berlim, com Chile, Iraque, Tibete, já era tempo de aprendermos a viver com politica e não com politiquice.
As ideias politicas combatem-se com opções politicas, provando o valor da diferença, fazendo e não deturpando.

Foi isto que me apeteceu escrever, hoje, neste dia como uma homenagem a dois homens – Manuel Cabanas e Vicente Campinas- que me ensinaram a ser um cidadão livre...nunca neutro.
E, em memória da ceifeira que dá nome ao Parque do centro da cidade do Barreiro a cidade da Liberdade.
Uma cidade da Liberdade é de todos e não é mais de uns do que de outros. Concordo.

António Sousa Pereira

19.05.2020 - 12:41

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