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A (nota)mentos - Monumento de José Cândido escultor «Barreiro Reconhecido»
Obra de arte destruída em nome da requalificação

A (nota)mentos - Monumento de José Cândido escultor «Barreiro Reconhecido»<br>
Obra de arte destruída em nome da requalificação<br>
Lá está em marcha a obra de recuperação do monumento de José Cândido, ou melhor dizendo, a obra de destruição de uma obra de arte, satisfazendo a vox populi, pronto - lá se vai o mamarracho.

Aqui fica o registo. José Cândido que perdoe. Mais uma obra de arte destruída em nome de um dito modernismo que não sabe o que é, nem o que quer ser, sinais de um Barreiro que sofre de autofagia.

Durante muitos anos o concelho do Barreiro não foi um concelho, ou, até mesmo, Vila ou Cidade, que o seu espaço urbano fosse marcado pela presença de obras de arte.
Essa realidade tem vindo a ser alterada, pouco a pouco, e, na Rotunda do Lavradio foi construída uma obra de arte de José Cândido, autor barreirense, autor da primeira moeda de 100 escudos ( igual ao modelo que foi utilizado para euro). Um escultor diversas vezes premiado, galardoado com a distinção «Barreiro Reconhecido», no a no de 1993.
José Cândido é uma personalidade de referência ao nível nacional e internacional, pelo seu valor criativo e pelo seu percurso como Mestre.
Para além da obra de arte dedicada ao 25 de Abril, na Rotunda do Lavradio, José Cândido tem um mural de sua autoria, na Rua José Relvas, ali colocado quando se iniciou a primeira intervenção de requalificação espaço urbano do Barreiro Velho, desde a Rua José Relvas, Largo Rompana até ao Largo de Santa Cruz.

A obra de arte de homenagem ao 25 de Abril, no próprio dia que foi inaugurada, antes mesmo de se ouvir o que constava da memória descritiva foi rotulada pela «vox populi» de «mamarracho», e, desde então, essa corrente de opinião foi expressa, o monumento do barreirense José Cândido, passou assim a ser rotulado - «o mamarracho». A opinião pública assim o diz, não se deve contrariar a opinião pública.

Talvez porque, desde a primeira hora, após escutar a interpretação da peça dada por José Cândido, fiquei apaixonado e adoro pelo seu sentido estético aquela obra de excelência de José Cândido, porque, afinal, estética é aquilo que dá a dimensão filosófica da obra.
Nunca existiu preocupação em divulgar, amplamente, a memória descritiva da obra. Até parecia que existia um sentido de vergonha de defender ou valorizar a obra. Uns calavam-se. Outros entravam na onda do mamarracho. Era popular.

Uma obra de uma dimensão estética que toca o pensamento, a memória, a história da humanidade.Uma obra que dá um interpretação universal do 25 de Abril – da Liberdade, da Democracia.

O pilar de cimento, tem como significado a ditadura, dura, inflexível, quebrada no topo.
O pilar de ferro, tem como significado a democracia, flexível, que se transforma com os efeitos do tempo, que se contorce, que nunca está concluída e parece projectar-se em continuidade...
Entre o pilar de cimento da ditadura e o pilar de ferro da democracia, cruzam-se barras de ferro, em diferentes direcções, exemplificando o confronto de ideias, isso que é a democracia, o confronto de diferenças, a democracia que não é uma ideologia, são várias correntes que se cruzam e combatem a(s) ditadura(s). É a democracia que vence a ditadura.

Os dois pilares assentam num base, que era um pequeno lago, esse símbolo da vida - a água - onde nasce a vida. Um pequeno repuxo, suave dava esse sentido da vida a nascer. Correndo através de uma plataforma como se de uma fonte de vida se tratasse, um rio vivo em permanência.
Todo o monumento estava rodeado por um círculo inclinado como sendo uma elíptica, a roda da vida e do universo.
Na base, inscrita, de forma bem legível 25. Apenas 25. Que sendo um homenagem ao 25 de Abril, nele, subjectivamente, esta é minha interpretação, podiam estar todos os 25 que cada um entender, tal como Natal, porque o 25 de Abril, como o Natal é sempre que um homem quiser, ao lutar pela vida, pelo amor e pela Liberdade.

O lago de água quase não chegou a funcionar. Protestos da ASDAL criticando o desperdício da água, e, pronto foi desligada a fonte.
Depois, na gestão PS, de Emidio Xavier, sem qualquer estudo, apenas porque se queria «embelezar o mamarracho», resolveu-se criar em redor, e, no meio, novos repuxos, mas, lá surgiu outro problema, sempre que dava vento norte, a água dos repuxos ia para estrada e era um perigo para os automobilistas. Ainda se procuraram soluções. Nada havia a fazer. O assunto acabou com o desligar dos repuxos e os mesmos ficarem a ser mais um elemento decorativo do dito «mamarracho». O mamarracho, agora, ainda mais mamarracho que o dito desde o seu original. Era já um amalgama de ferros.

Nasceu relva. Nasceram plantas. Abandono total. Em redor foram pintando aquelas grafits´s ( o tal efeito da dita teoria das janelas partidas) que mais ia degradando o momumento e aprofundado o conceito de mamarracho. Durante anos lá esteve no topo do monumento, ainda lá está, o pau da bandeira do Euro 2004. Abandono. Degradação.
O dito mamarracho, foi-se mesmo tornando uma peça com um aspecto triste e degradante.

Em Março de 2017, foi divulgado pela Câmara Municipal do Barreiro, então CDU, que estava para breve a concretização de uma intervenção para recuperação do monumento. Nada foi dito do que estava previsto realizar. E nada foi feito.
Um dia, este ano ou o ano passado, escutei numa reunião de Câmara o vereador Bruno Vitorino a defender, com razão, que o monumento era uma má imagem para quem entra no Barreiro. Na altura defendeu que daquela obra de arte só deviam ficar os dois pilares centrais. Ninguém contestou.

Não sei o que estava previsto fazer pelo anterior executivo, nunca foi divulgado, nem sequer na opinião pública se escutou uma voz a defender a obra de arte de José Cândido.
O actual executivo, PS, fez o mesmo, decidiu, está decidido.

Lá está em marcha a obra de recuperação do monumento de José Cândido, ou melhor dizendo, a obra de destruição de uma obra de arte, satisfazendo a vox populi, pronto - lá se vai o mamarracho.
Aqui fica o registo. José Cândido que perdoe. Mais uma obra de arte destruída em nome de um dito modernismo que não sabe o que é, nem o que quer ser, sinais de um Barreiro que sofre de autofagia.
Ontem foi a destruição do monumento de Alfredo da Silva e o lindo espelho de água, na Avenida Alfredo da Silva, para dar lugar a estacionamentos.
Hoje é a destruição do monumento de José Cândido, para melhor circulação na rotunda.
Mas, o pessoal gosta - critica-se, comenta-se, fala-se, pronto finalmente, lá se foi o mamarracho, é vida. e os autarcas existem para dar sentido e ao que o povo gosta. Isso dá votos.

S.P.

23.05.2020 - 17:12

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