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Por dentro dos dias - Barreiro
Olhos nos olhos

Por dentro dos dias - Barreiro<br />
Olhos nos olhos Na troca do olhar, nesse olhar, olhos nos olhos, começa muitas vezes a amizade, o amor, a cumplicidade, o desacordo- o ser ou o estar. No olhar está a força que forja laços na vida.
Ali, olhos nos olhos, sorrindo.

Hoje, quando dava os meus passos habituais, ao domingo pela manhã, ali, no Passeio Ribeirinho Augusto Cabrita, dou comigo a pensar, que, estes tempos actuais, colocam-nos o desafio de, todos nós, aprendermos a reconhecer-nos através do olhar, olhos nos olhos.
Pensava nisto e recordava uma conversa que, um dia, mantive com um antigo operário da CUF que, na sua sabedoria de vida, de saber feito na vida vivida, nos anos 80, quando ainda se sentia nas ruas o fumegar do Contacto 7, e, ainda, para uns era uma terra para viver e trabalhar, para outros a terra dormitório, ali, junto à esquina da SFAL, cruzei-me com aquele homem de trabalho da CUF. Cumprimentei-o, daqueles cumprimentos de passagem, a correr sempre a correr, pela fuga dos dias.
Ele, prendeu-me a mão e disse: “Espere aí Sousa Pereira. Fique a saber, quando se cumprimenta um amigo, cumprimenta-se sempre olhando, mas, olhando, com os olhos nos olhos. Não esqueça – olhos nos olhos”.
E, senti a força de um cumprimentar feito de amizade, ali, vigoroso e terno, com os olhos nos olhos.

Nunca esqueci esta lição, de simplicidade, de respeito de amizade. Gravei aquele instante dentro de mim. Durante anos, sempre que nos cumprimentamos, era, de facto, sempre, olhos nos olhos. Um cumprimento feito de um sorriso e respeito.
Por vezes, quando nos cruzávamos em passeios diferentes, do outro lado da rua, olhávamos um para o outro e, em simultâneo, dizíamos : “Olhos nos olhos!”.

É, talvez por isto, que, ao longo da vida, aprendi a ignorar – registo e ignoro – os que olham com olhar sobranceiro, os que voltam os olhos para o lado, ou, até aqueles que baixam os olhos e tocam com o olhar o próprio umbigo. Narcisismo. Olho e registo. Nunca esqueças, o respeito e a dignidade, começa, de forma simples - olhos nos olhos. Respeito. Dignidade.Não tem preço.
E, na verdade, muitas vezes, fui testando, silenciosamente, sem nada dizer, mas pensando a forma como as pessoas trocam cumprimentos entre si, ora fugazmente, ora bruscamente, ora com ternura. Observava os outros, na forma e no conteúdo do olhar. Divertia-me. O olhar era a montra onde observava os relacionamentos. E, por vezes, também, registava a forma como era cumprimentado. Os olhos emitem sinais de respeito ou de ironia.
No olhar, na forma de olhar o outro, a outra, sentimos o respeito e a dimensão humana do relacionamento. A amizade. A subserviência. A ostentação.A mágoa. A pureza. A maldade. A superioridade. Até o beijo e a saudade. O olhar é o sorriso a florir.
O olhar é uma porta que se abre ao outro, num olhar sente-se o sorriso, a indiferença, a cumplicidade, a lágrima, a alegria.
Na nossa vida, todos nós descobrimos pessoas com as quais, sentimos e sabemos que, com elas, basta um olhar, um piscar de olhos, e, nessa troca de olhares sentimos toda a cumplicidade. Não são necessárias palavras, basta um olhar.
Na troca do olhar, nesse olhar, olhos nos olhos, começa muitas vezes a amizade, o amor, a cumplicidade, o desacordo- o ser ou o estar. No olhar está a força que forja laços na vida.
Ali, olhos nos olhos, sorrindo.
Hoje, pela manhã, pensava nisso, quando dava o meu passeio junto às margens do Tejo. Alguém me olhou nos olhos. Trocamos olhares. Silêncio. Ambos de máscaras, mantendo a distância.
De repente, escutei a voz dos olhos interrogar: “É o Sousa Pereira?” Olhei – olhos nos olhos – e disse: “Sou, és o Rui.” Sorrimos. Trocámos palavras. E recordei-lhe a história do Operário da CUF, e, comentei, de facto, nos tempos de hoje, temos que começar a aprender a nos reconhecermos, olhando – olhos nos olhos.
Seguimos caminho. Ele a brincar com os filhos. Eu a pensar nas histórias da vida, que são lições de vida,
Olhei o Rui, olhos nos olhos, e, na despedida, ainda comentei, como é belo sentir, os olhos da minha neta Alice.
«Ela sorri, com os olhos nos olhos», disse-lhe.

S.P.

24.05.2020 - 19:11

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