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Por dentro dos dias
Barreiro com a desindustrialização perdeu o seu mundo de trabalho

Por dentro dos dias<br>
Barreiro com a desindustrialização perdeu o seu mundo de trabalho O Barreiro com a desindustrialização perdeu o seu mundo de trabalho, que arrastou a queda do seu comércio, das suas lojas, depois perdeu qualidade no seu espaço urbano, depois foi perdendo população, porque deixou de ser terra de trabalho, a população foi envelhecendo. O Barreiro ficou num guetto, enquanto à sua volta a mobilidade permitiu desenvolvimento. Seixal, Almada e Sesimbra, contaram com o comboio pela Ponte 25 de Abril. Montijo, Alcochete e Palmela, contaram com a Ponte Vasco da Gama.

Hoje, pela manhã, passei ali na Urbanização da Escavadeira. Parei. Fotografei a Ponte do Bairro das Palmeiras. Recordei que, aquele, foi o lugar que conheci, na minha primeira deslocação ao Barreiro, no ano de 1967. Antes disso, para mim o Barreiro era a estação de comboio e dos barcos, por onde passei, vindo do Algarve, rumo a Lisboa, no ano de 1966.
Quando vim ao Barreiro, foi numa visita a um amigo do meu pai, um conterrâneo, que vivia no Bairro das Palmeiras, que ali tinha a sua Barbearia, perto da zona onde, hoje, existe o Parque Infantil.
Foi o meu primeiro contacto com o Barreiro. Recordo que no Bairro existiam diversos cafés, lojas e tabernas. Um Bairro vivo. Um dos Cafés, ali, na curva do caminho para a CUF, tinha um aspecto moderno e citadino. Um beleza que guardo na memória. Estantes, mesas e cadeiras de madeira, com recortes decorativos.

Foi com surpresa que, ao longo do dia, fui lendo os comentários que esta fotografia foi suscitando, escritos por diversos amigos e amigas. Desde recordações familiares, que se estenderam à minha terra, passando por memórias de um Bairro que era um exemplo da pujança de uma vila operária, de relações familiares e solidárias. Aqueles Mercados de rua aos sábados de manhã, eram marcados por uma loucura de gente.

Uns recordam que aquela ponte era o caminho que diariamente faziam rumo ao trabalho na CUF, ou na Quimigal. Outros recordam que era o caminho rumo ao Campo de Santa Bárbara, uns para praticar Hóquei Patins, outros basquetebol. Outros ainda, referiam o campo da escavadeira, onde treinava o Rugby do Barreiro. A Fundição da CP, na escavadeira, não foi esquecida.
As memórias desfilam de comentário em comentário – nasci no Bairro das Palmeiras e tenho orgulho neste Bairro, a minha mãe, com 92 anos, ainda lá vive.
Há quem recorde que atravessava aquela ponte, diariamente, para poupar cinco tostões, no bilhete do autocarro dos TCB.
E, nestas recordações não faltam as memórias daqueles que atravessavam a ponte do Bairro das Palmeiras, para, ao domingo, ir ao Cinema da CUF, para uns, da Quimigal para outros.

O Bairro das Palmeiras, é um dos lugares do Barreiro, porque o concelho é uma terra de lugares e sitios. Uma terra de gente que se conhece - ou se conhecia – por isso tinha uma «identidade», essa de muitos praticantes desportivos, de clubes de futebol a disputar, ombro a ombro, com os ditos grandes, com nomes de referência no remo, com história no basquetebol, com campeões mundiais no Hóquei Patins, com nomes inscritos na história da Volta a Portugal em Bicicleta, com uma vida associativa pujante, com lojas, com cafés, com restaurantes, com vida própria de gente de trabalho e culta, porque sabia e sentia que “nem só de pão vive o homem”. Uma terra de familias, de avós e pais que legaram aos seus filhos uma cultura da fábrica – aquela onde se aprende a viver o quotidiano, sendo um por todos e todos por um, mas, ali, na fábrica, também se aprende a descobrir os lambe botas, os que se entregam ao «Senhor Engenheiro», e, no essencial, aprende-se que todos contam no processo de produção – desde o que limpa as escórias, até ao que controla a qualidade, do operário ao engenheiro, ao empregado de escritório.

Era em tudo isto que pensava. Nesse Barreiro com história e com memórias. Esse Barreiro que deixou um legado inscrito na história de Portugal, que orgulha os barreirenses e aqueles, muitos, oriundos de muitos lados que um dia, nesta terra, descobriram a vida, o amor, a familia, a fábrica e a vida comunitária. Um lugar, uma rua, onde o vizinho era um vizinho.
O Barreiro vila operária, que foi cidade, já em fase de desindustrialização. A vila ferroviária. A vila Operária – têxtil, quimica, metalomecânica. A vila dos cheiros e da poluição.
Esses cheiros e essa poluição que eram o sinal, o alerta, que devido ao desenvolvimento tecnológico, e, por exigências ecológicas, pouco a pouco, a partir dos anos 70, ainda antes do 25 de Abril, exigia-se que, ali, fossem feitos investimentos, dinamizados novos modelos de actividade industrial, sabia-se, era urgente requalificar e modernizar, porque, era evidente a decadência do modelo de produção industrial. Não aquilo que foi feito nos tempo do FMI, uma nuvem de poeira, os elefantes brancos, para adiar a queda final, até aos anos 90.

Penso em tudo isto, e, como desde os tempos, de antes do 25 de Abril, nos anos 70, com a primeira vaga de construção civil, essa, que teve origem na fuga de pessoas de Lisboa para o Barreiro e margem sul. Era mais barato alugar uma casa na margem sul, que alugar um quarto em Lisboa.
Nesses anos 70, ao mesmo tempo que a indústria iniciava o seu processo de decadência, o Barreiro agarrava-se à construção civil para manter vida.
Foi o terceiro «patrão» do Barreiro, depois do primeiro que foi o ferroviário e o segundo que foi a CUF.

A vila operária, ou por outra o concelho operário, começa a misturar-se com as zonas dormitório.
Há dois Barreiro, o Barreiro que tinha vida própria, com lugares, com autóctones, e, há o Barreiro dos que trabalhavam em Lisboa e vinham cá dormir, mas, estes são «Barreiros» que se cruzam e se abraçam, sendo, regra geral, através das portas do Movimento Associativo que se forja a coesão social.

Tudo isto me ocorreu ao ler os comentários de uma fotografia do Bairro das Palmeiras. Isto e muito mais.
O Barreiro com a desindustrialização perdeu o seu mundo de trabalho, que arrastou a queda do seu comércio, das suas lojas, depois perdeu qualidade no seu espaço urbano, depois foi perdendo população, porque deixou de ser terra de trabalho, a população foi envelhecendo. O Barreiro ficou num guetto, enquanto à sua volta a mobilidade permitiu desenvolvimento. Seixal, Almada e Sesimbra, contaram com o comboio pela Ponte 25 de Abril. Montijo, Alcochete e Palmela, contaram com a Ponte Vasco da Gama.
O Barreiro cá está, com o problema dos transportes. Pois.
E, ainda por cima, com o território da antiga CUF, e da antiga CP, ali, em hibernação.
Uma terra que não tem trabalho, não tem outro futuro, se não, ficar com esse negócio da compra e venda de andares.
É, pelos vistos é esta a escolha de há muito, ela está plasmada no PDM em vigor, e, pelos vistos, é esse caminho escolhido, porque, afinal, isso de reinvindicar a Terceira Travessia do Tejo, a ligação rodoviária do Barreiro ao Seixal, a implementação do projecto do Arco Riberinho Sul – esboçado no pensamento da estratégia do PROT AML, é coisa menor. Isto dói.
Já percebi, o que é o futuro do Barreiro, para os que querem o bem do Barreiro.
Essa coisa de exigir ao Poder Central, responsável pela grande fatia do território do concelho, nomeadamente – ferroviário e antiga CUF – que, de uma vez por todas, deixem de marginalizar esta terra, é uma coisa má e de quem só pensa que a solução dos problemas do Barreiro, compete aos outros ao governo. Enfim!
Não brinquem comigo. Acordem. O Barreiro precisa de voltar a ser uma terra de trabalho, e, tal como os concelhos envolventes, ter condições de estar mais perto de Lisboa.
Assim, como está, o Barreiro será sempre um problema para as empresas e para as pessoas.
A mobilidade no contexto da AML é mesmo o nosso problema. O resto é conversa para encher balões.

É vida. A ponte do Bairro das Palmeiras ergue-se, ali, entre o antigo espaço industrial e uma nova urbanização da escavadeira, como um «monumento» que à sua volta mantém viva a memória dos três patrões da nossa história – a CP, a CUF e a construção civil...este que, pelos vistos, de acordo com o PDM, em vigor, vai ser o futuro. O tal pensar barreirinho.
Um PDM que não prestava e agora já é bom, porque afinal, a contestação não era contra o PDM, era contra o atraso da revisão e já lá vão três anos e de revisão zero.
As coisas que um homem pensa ao olhar a ponte do Bairro das Palmeiras.

António Sousa Pereira

24.06.2020 - 22:00

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