Conta Loios

inferências

Por dentro dos dias - Barreiro
É pelos olhos que vamos...

Por dentro dos dias - Barreiro <br />
É pelos olhos que vamos... O problema não está no cumprimentar, ou não cumprimentar.
O problema é que a arrogância e o pedantismo, até o novo riquismo, a pobreza da pseudo nobreza, tudo isso, se ontem sentia-se num aperto de mão, hoje sente-se na tristeza dos olhos, na ausência de olhares.

Entrei no consultório: Bom Dia! A separar-me da médica um acrílico. Máscaras no rosto. Sorrimos pelo olhar. Tempos estranhos, e diferentes, estes dias que vivemos.

No meio da conversa, falamos destes tempos, desta nova forma de sociabilidade, de ausência de contactos. A saudade de abraços e beijos. A importância dos abraços e beijos. Como este novo relacionamento vai marcar o nosso futuro. Este século XXI já tem inscrita uma nova página da história da humanidade.

Entre o medir a tensão, o diagnosticar o “bem estar” do meu coração. Lá íamos conversando.
“Sabe, eu tenho por hábito ir receber os meus utentes à porta do consultório. Sempre fiz isso, e ainda faço, mas falta-me o aperto de mão”, dizia-me sorrindo pelos olhos.
“O meu aperto de mão à entrada, não era apenas um aperto de mão de cumprimentar. Aquele aperto de mão era o meu primeiro acto clínico”, sublinhava.
“O aperto-me de mão e o sentir o suor, a mão fria, o calor, permitia-me começar a sentir quem tinha na minha frente”, referia.

Eu sorri. Porque também, muitas vezes, na vida social, nas muitas relações humanas que mantenho e sempre mantive ao longo da vida, muitas vezes, a forma como recebia um “aperto de mão”, também, me proporcionava uma abordagem psicológica da pessoa que tinha na minha frente, e, diga-se, raramente era surpreendido.
Num aperto de mão podemos sentir o ar distante, a sobranceria, a fraternidade, o snobismo, o pedantismo – que é muito diferente do snobismo – a amizade, até, a superioridade moral.
Foi isso que comentei, naquela troca de aperto de mão pelo olhar.

É isso, também nos dias de hoje, vamos descobrindo a descobrir o outro pelo olhar, pela forma como num encontro de um simples chegar junto ao outros que já lá estão e dizer: «Bom Dia», «Boa Tarde», ou «Boa Noite».

Quando alguém chega, olha à sua volta, os seus olhos tocam no chão e a voz fica engolida na garganta, sem som nem abrir em sons sentimentos. Isso é um gesto comunicacional. Pode ser acaso, Pode ser humildade. Pode ser arrogância.

É verdade, mesmo com máscara, é possível sentirmos o sorriso nos olhos.
Cumprimentar com os olhos é o aperto de mão do século XXI.
O problema não está no cumprimentar, ou não cumprimentar.
O problema é que a arrogância e o pedantismo, até o novo riquismo, a pobreza da pseudo nobreza, tudo isso, se ontem sentia-se num aperto de mão, hoje sente-se na tristeza dos olhos, na ausência de olhares.
Pelos olhos abraçamos. E, hoje, até pelos olhos bajulamos. Coisas dos tempos, de todos os tempos.
Vejo isso na vida social. Hoje como ontem. Isso não me angustia, nem me dá ansiedade. Dá-me pena. Ponto final.
É isso, nos olhos sente-se a amizade e o amor. Nos olhos sente-se o ódio e o rancor.
Afinal, é pelos olhos que vamos...

António Sousa Pereira

19.07.2020 - 11:54

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.